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Não consigo parar de fumar

cigarro_tox

Isqueiro,tabagismo, bup, fósforo,vício, antifumo se resumem em Cigarro

O cigarro é um dos principais causadores de doenças no mundo. Milhões de pessoas morrem todos os anos por doenças desencadeadas por milhares de substâncias nocivas à saúde presentes no cigarro. Quanto maior o tempo de vício, maiores as chances do fumante desenvolver uma ou mais doenças. Como parar de fumar é uma das maiores tarefas que os viciados em cigarro enfrentam, o vício por tabagismo é alto, uma droga tão barata e fácil de se encontrar, e as doenças vão se instalando minuciosamente.

 PARAR

O problema real é se controlar contra esse vício, o problema é conseguir se manter longe do cigarro,  uma vez que um fumante para, e apenas acende um só cigarro, ele volta ao vício, mesmo dizendo um NÃO, já se torna dependente quando decide apenas “provar” novamente o cigarro.

Os médicos afirmam que, o corpo humano leva de um a…

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LIÇÕES DE ALQUIMIA

(noções de auto-ajuda)

(Do livro de contos NOITES SEM FIM)

[ainda não publicado]

 

(sugestões de um mago alquimista: “o fio da espada” ou “a lenda pessoal” ou “o pulo no escuro”, ou “o alvo”, ou…)

“Ajuda-te e o céu te ajudará! – disse, enfezado, o profeta.”

 

                    Foi só depois de a companhia telefônica ter instalado a antena receptora no ponto mais alto do morro que os rapazes descobriram o pico maneiro, ou, como eles o apelidaram – o cocuruto. Os homens vieram em uniformes, limparam o terreno, furaram uns buracos, fizeram uma fundação e um piso de concreto, construíram o que chamaram de casa de força – um cômodo de tamanho médio com uma porta de ferro e uma série de pequenas janelas gradeadas, também de ferro e, depois – BAM! – como que da noite pro dia, levantaram ao lado a enorme antena, cheia de penduricalhos. Mas, antes de irem embora, instalaram a rede elétrica, ligaram a antena na rede, levantaram e rebocaram com massa muito forte um alto e reforçado muro de lajotas em volta da estrutura e da casa, encimado por arame farpado e uma cerca eletrificada, porque, como afirmaram, se não construíssem e eletrificassem o muro, a antena logo começaria a sumir do morro e a aparecer, aos pedaços, nas mãos dos compradores de ferro velho, de sucata; então, circundaram o muro com um largo passeio de cimento, pintaram de branco a casa de força e o muro, de cinza-escuro a porta e as janelinhas, e se mandaram.

…..      …..     …..     …..     …..

                    Como ratos atraídos por um monte de entulhos, os rapazes – “a turma”, como eles próprios se denominavam –, não demoraram a dar pelo local da antena. Era um lugar aprazível, limpo, e havia toda a ventilação e todo o sossego de um alto de morro sem moradores. Bastava subir uns trezentos metros de trilhas, pisando em inúmeros buracos escavados pelas águas das chuvas, tropeçando em touceiras ressecadas de capim, – enfim era preciso andar em um terreno muito irregular,- mas tudo valia a pena se o ganho fosse sair de perto das comadres faladeiras, dos velhos futriqueiros, que habitavam os barracos do rabicho de terra nua. “Rabicho” não era força de expressão; era mesmo o apelido que os moradores haviam dado ao prolongamento de terra morro acima, ao longo do qual eles, após irem abrindo aos poucos uma trilha sinuosa, ergueram os barracos. A rua terminava, de fato, a uns tantos metros de onde principiara a invasão de barracos. Havia um campo de futebol cercado por um alambrado e, ao lado, o temor de todos os moradores do morro e de todos os maus elementos da cidade: o presídio novo, grande, ainda cheirando a tinta recente, cor cerâmica, chamado pejorativamente de “caixotão.” A rua terminava ali, logo no final do campo, depois, vinha a ruela: o “Rabicho.”

“Sim, senhor, é muito bom aqui, é ótimo, a brisa batendo no corpo da gente, na cara da gente, balançando os pelinhos do corpo, e o sol maneiro!” – Técio disse, enquanto os outros rapazes, alguns ainda nem tão rapazes – garotos -, se esparramavam sobre o passeio, se encostando à parede da casa de força. – “e deitar na grama também é um programa pra lá de bom!”

Técio não gostava destas coisas  – de acordo com ele, ‘comuns’–, ações que muita gente praticava e, ele pensava, não levavam ninguém a lugar nehum, não levavam a nada. Só os patrões é que levavam vantagem.

“Só exploração! Chateação! Tolerar preconceitos?! Eu não! Vão pro inferno! Os caras ficam é dando o tempo deles de graça pros outros, pros patrões. E ainda têm de tolerar um monte de abusos. Como aquele operário, um pintor de paredes, que mora num barraco, no Rabicho logo ali embaixo. Gerson o nome dele. Vive borrado de tinta e de pó de massa e anda de sandálias de borracha. Tá sempre correndo atrás de alguma coisa pra fazer. Trabalha, trabalha, mas mora num barraco. Barraquinho mesmo! Amigo meu. Conversa comigo vez ou outra, se senta comigo pra trocar idéias. Brinca comigo. Me acha vagabundo e diz: “Você pra mim é doido!” Ele, às vezes, atravessa o morro, o cocuruto, pra ir trabalhar no condomínio grande ali do outro lado da cidade. Quando chamam ele pra trabalhar lá. Passa por aqui. Sempre passou. E pára pra trocar idéias. Gente boa. Ele não joga no meu time, é careta, muito careta, mas eu gosto dele. E ele me conta as coisas. O que as pessoas fazem com ele, com os trabalhadores, nas casas e nas obras. Mesmo nas ruas. Os engenheiros e os encarregados. Os patrões e as patroas. As mulheres parecendo galinhas chocas. Às vezes, são as empregadas é que enchem o saco, as domésticas: ‘Não quero que entrem na cozinha; acabei de lavar e enxugar o chão agora mesmo!’ ‘Não precisa pedir café; quando estiver pronto, eu mesma entrego lá fora. Eu vou levar lá!’ Isso, quando ganham café ou qualquer outra coisa! Se estiver trabalhando dentro de casa, então… sai da frente! É só: ‘cuidado pra não sujar os meus móveis! Sujeito porco, sô!, é tinta pra tudo enquanto é lado! Não vá arranhar o meu sinteco!’

E quando acontece de ele trabalhar em condomínios fechados ou prédios de muitos apartamentos onde as madames costumam fazer ginástica nas manhãs!? Os porteiros vão logo avisando: ‘— as donas fazem ginástica de manhã nas quadras de esporte ou no salão de festas e elas não gostam que os empregados olhem pro lado delas, não!’ O cara fica puto! Umas mulheres pra lá de esquisitas: coroas, branquelas, barrigudas, bundudas; os peitos caídos, coxas e pernas lotadas de varizes e o rabo cheio de celulite! Tudo comida de gato: muchiba! Tudo boi do cu branco! Tudo terceira idade! E ele conta como as esposas, as amantes dos caras, dos operários, falam com eles quando eles chegam mortos de cansados em casa. Dizem que, se ‘esses bostas’ não derem um jeito de conseguir dinheiro suficiente pra dar conforto pras famílias deles, fazer moradias decentes, dar alimentação e vestimentas de boa qualidade, elas vão sair pra rua, arranjar outros homens, dar a xoxota ou mesmo o rabo pra eles, chupar até o pau deles se for preciso, pra aumentar a renda da família! Elas nem sabem das dificuldades que os caras enfrentam pra conseguir algum tipo de serviço, algum biscate! E algumas ainda reclamam com as amigas que os maridos são bundas moles, frouxos na cama. Que eles ficam esmolando o que fazer, esmurrando portas das pessoas que têm algum serviço, fazem o serviço – se o conseguem! -, ganham uma merda de salário – isso, quando recebem! – se matam de trabalhar, chegam em casa esfalfados, mortos em pé, e na hora do bom – nada! O pau não sobe, ou só fica de meia engorda, e é aquele baixo astral – um saco! E muitos deles chegam mortos de bêbados, putos da vida, e descarregam toda a ira sobre a família. E é por isso que algumas das mulheres dos caras dão mesmo pra outros homens. ‘Sem um peru eu não fico!’ – afirmam.”

A mãe de Gerson também tinha ficado sem peru. “Seu homem”, que nunca fora de resolver coisa alguma, desapareceu de repente e nunca mais deu as caras. E Técio achava graça: “Eu vou te contar, cara, não sei como o sujeito pôde se casar com uma mulher daquela. Magrinha, muito magra; não tem carne nenhuma pra gente pegar. Não tem pernas, não tem peitos, não tem bunda. Não tem nada! Nunca teve. Osso puro! E baixa; baixinha – um cisco! Ele, o marido, tinha mais é que sumir mesmo! Mas só tem uma coisa: ela levanta cedo todos os dias pra ir à missa. Vai na igreja do bairro ali do lado. É perto. Daqui dá até pra ver. E, depois, vai direto pro serviço. Trabalha de diarista. Nunca falta trabalho pra ela. Vai ver que é por isso que o filho é direito assim. A mãe dá o exemplo. E Gerson brinca. Diz que o pai foi comprar cigarros e se perdeu na volta. Que um dia ele aparece. Mas o homem às vezes é visto na cidade. Mas não aqui nas ruas do bairro ou no Rabicho. E não dá um pingo de confiança pro filho! Também, não faz falta nenhuma.”

A mudança tinha começado como Sebastiana contou. Uma colega veio à porta do barraco lhe dizer que havia uma mulher interessada em uma empregada. Não era pra ficar direto, apenas limpeza três vezes por semana, e passar algumas peças de roupa. Queria uma moça responsável, que chegasse cedo ao serviço, que fosse limpinha e esperta – boa de serviço. Se ela desejasse, se estivesse com coragem de “enfrentar a onça”, podia perfeitamente ir com ela que seria apresentada e, sem dúvida, conseguiria o emprego. Sebastiana quis, ela não era ‘boa de serviço’, não era ‘esperta’ não era nada disso, mas estava precisando de alguma ocupação, estava andando sempre sem dinheiro. Ela ia. Ia fazer força pra tolerar. Foram. E, logo na manhã do terceiro dia, começo de serviço, quando Sebastiana já estava principiando a tomar raiva da patroa, como é norma acontecer com as empregadas domésticas, raiva por as patroas ficarem corujando o tempo inteiro, tomando conta pra ver se as empregadas estão lavando as panelas e vasilhas de acordo, estão limpando o chão, os banheiros e as vidraças no capricho, se estão fazendo tudo direitinho, raiva daquele modo de a patroa ficar olhando pra cara dela, pro corpo dela com o rabo dos olhos, a dona lhe pediu que se sentasse ao seu lado, no sofá, lhe passou o braço ao redor dos ombros, e disse: “Você é uma morena muito bonita, menina, eu tenho te observado, e acho que vamos nos dar bem, muito bem mesmo!” e trocaram idéias por certo tempo. E Sebastiana acabou indo com a cara dela. Após mais alguns dias de convivência, a mulher resmungou: “Se eu tivesse seu corpo, moça, sua beleza, sua cor, a sua idade, eu não teria entrado na gelada em que entrei. Não teria me casado com a merda de homem que encontrei numa péssima hora, – Deus que o tenha no mais profundo dos infernos!-, nem teria tido filhos, e não estaria nesta situação em que tô hoje. Tô separada, sem marido, com dois filhos pequenos, tendo que me virar pra arranjar grana pra tratar deles e de mim!” E de fato se deram bem.

“O que você pensa disso, Tetéu? Não é bacana? Você não acha que…?”

Técio não achava nada; ele não estava nem um pouco interessado nas palavras da irmã. Pra começo de conversa, nem casa ele tinha. Morava num barraco, como ela bem sabia. Tava bem ali em baixo! A família tinha vindo pulando de morro em morro, de barraco em barraco, de ruela em ruela, e tinha aportado ali. E se agarrara. E ela também tinha morado lá. Durante quantos anos ele nem sabia ao certo. Um monte de anos. Quatro cômodos pequenos, de paredes tortas, mofadas, um banheiro de fossa no terreiro, do tamanho de uma caixa de fósforos, do tamanho do terreiro, e um pequeno fogão a lenha, feito de barro, escorado numa parede externa. Teto de telha de amianto, chão de cimento queimado. Lagartixas, formigas, baratas, traças e os mosquitos – aos magotes! -, passeando por todos os cantos. E, em época de chuva forte, as águas escorrendo pelas paredes. Assim eram todos os barracos do Rabicho. Não era à-toa que os rapazes da turma estavam se amontoando no cocuruto. Ou então ficavam pelas ruas. Ficavam “por aí”. Pra sair fora daqueles casebres deprimentes. Harmonização de ambientes! Como era mesmo o nome do negócio? Feng shui! Isso mesmo! Hum!

Vacilando em sua vagabundagem, Técio achava que às vezes era melhor ter um emprego, ou uma profissão, e uma renda, mesmo que pequena, e poder comprar o que se quisesse (desde que o dinheiro fosse suficiente) sem incomodar ninguém nem ficar servindo de diversão e assunto pros outros. “Perguntar os preços, regatear, e comprar – e não ficar devendo filho da puta nenhum! Nem um tostão!” Mas ele não tinha esse costume: “Trabalhar, cara?!”

Tiana, desconsiderando a rudeza do irmão, disse que a patroa, além do Feng shui, também era estudiosa de livros de auto-ajuda e estava lhe dando muitas dicas valiosas de como se dar bem na vida, de como alcançar a “platitude”, ganhar dinheiro, estabelecer boas amizades, ter as coisas – ser feliz. E tudo o que ela estava ouvindo, aprendendo, seria de muita utilidade também pra Tetéu, ela tinha certeza. E ela gostaria de lhe passar estas mensagens.

Mas ele já tentara fazer coisas diferentes. “Como da vez que fui trabalhar num grande supermercado. Tirei as costeletas, os quatro brincos (bijuterias) das orelhas, aparei os cabelos, fiz a barba, tomei banho, escovei os dentes, vesti uma roupa decente, calcei sapatos limpos, cobri a tatuagem com a manga da camisa e – coisa que eu sabia ser muito importante – fiz um treino em voz alta, pra cortar as gírias e ficar desenvolto. Eu não podia usar linguagem de malandro! Queria estar apresentável. Minha intenção era trabalhar de entregador no caminhão e convencer o motorista a me deixar pegar no volante vez ou outra. Eu não sabia dirigir e precisava aprender, se quisesse dar saltos maiores algum dia, como tava planejando – roubar cargas. É um filão promissor, a gente vê isso aos montes na televisão. Os caras vão lá, tocaiam os motoristas, amarram eles no mato, e desaparecem com as cargas, com os caminhões. Vendem pros comerciantes. Muitos compram, vai ver alguns até encomendam cargas roubadas. Remédios, móveis, eletrodomésticos. Cargas de cigarros. É tudo coisa fácil de se vender. Gasolina. Pode-se até oferecer os caminhões de volta pros próprios donos deles mesmo, por um preço mais barato. Muitos assaltantes fazem isso; telefonam pras firmas e falam com os donos. Negociam com eles. E revendem os caminhões. Todo mundo fica satisfeito. Claro que não disse nada disso ao ser entrevistado. Desejava apenas o serviço; tava necessitado. Mas fui aceito provisoriamente como repositor de estoques nas gôndolas e prateleiras e entregador de folhetos quando houvesse necessidade, e não consegui passar disso. Recebi ordens de, quando saísse pra entregar folhetos, ir a todas as casas, de todos os bairros, mesmo os mais afastados, e enfiar eles nas caixas de correio, nas portas de garagens, que entregasse às pessoas nas ruas. E até comecei bem essa função. Enfiava as mercadorias nas gôndolas, depois, pegava aquela merda, muitos folhetos, e me punha a distribuir. Mas notei que as coisas não dariam certo. Primeiro, era muito trabalho. Dentro do supermercado, era o zunzum o dia inteiro. As pessoas esbarrando, perguntando, empurrando os carrinhos. Os encarregados e fiscais cobrando eficiência, pontualidade, atenção. Segundo, nas andanças, na distribuição de folhetos, que eram semanais, não haveria sapato que agüentasse, não haveria roupa que resistisse ao suor, pernas que suportassem andar por todas aquelas ruas, todos aqueles becos, morros e bairros, durante o dia inteiro. E o frio ou o calor!?” E Técio pediu uma bicicleta e roupas adequadas ao gerente e ouviu que não fazia parte da filosofia da empresa dar bicicletas ou vestes aos empregados. De mais a mais, ele teria de bater em todas as portas, pra que ele queria uma bicicleta? O negócio era andar! E o gerente ainda lhe avisou que os folhetos tinham de ser entregues o mais rápido possível. Se não conseguisse fazê-lo no prazo estipulado, durante o dia, que fizesse o serviço também à noite. As promoções tinham uma data definida pra acabar, como ele estava “careca” de saber. Era preciso desovar os estoques. “Falei: ‘ah, é?’ Fiquei pouco tempo, um mês e uns dias, passei a mão em meu salário, merreca, coisa pouca, nem disse que ia deixar o emprego, estava de experiência, porra! Vim pra casa, joguei os folhetos da ocasião num buraco, e nunca mais voltei lá. Eu não! Os folhetos estão ali em baixo até hoje, jogados dentro do buraco!”

Depois de Tiana descer o morro, Técio se esticou sobre o passeio e relaxou. Então, era assim o modo de a situação começar a ser transformada pra melhor? Desejar as coisas, pensar nas coisas, falar ‘mantras’ vezes sem fim?! Só ficar repetindo ‘carrão’, ‘mansão’, ‘motocão’, e troços do tipo?! E se aproximar das ‘pessoas de bem’, das ‘gentes boas’, pra extrair ‘fluxos positivos’ e assimilar ‘bons fluidos’ e ‘boas perspectivas de mudanças?’

“E será que funciona mesmo?” – ele se perguntou.

Então, Gerson observou:

“Sua irmã tá realizando a lenda pessoal dela, moço!”

“Tá sim. A dela e a da mulher que tá vendendo o corpo dela! A seta tá acertando o alvo!”

“Ela tá transformando a bocetinha dela em ouro!”

“Tá mesmo!”

“Acho que a bundinha também!”

“É isso mesmo!”

“Se duvidar, ela tá até batendo de boca no pau dos ‘clientes’ que a patroa tá arrumando pra ela!”

“É o mais certo!”

Sem medo de ser repreendido, Gerson acrescentou:

“Ela tá dando todos os buracos do corpo!”

“Tá aprendendo direitinho as lições do mago alquimista.”

Fazendo troça, Gerson disse:

“Tiana vai subir alto na vida, moço… e vai te deixar pra trás!”

“Vai sim… mas, se eu tivesse nascido com um rachado no meio das pernas, o negócio ia ser diferente.”

“Ah, ah!”

A época das chuvas, que não demoraram a chegar, trazendo com elas a ventania e o frio, mostrou o ponto fraco do cocuruto: não havia uma cobertura onde a turma pudesse se esconder. E a falta de proteção empurrou os rapazes de volta pro Rabicho barrento, pra dentro dos barracos. E, entrando em seu barraco, Tetéu deu de cara, outra vez, com os mosquitos, as lagartixas e as formigas que zanzavam pelas paredes trincadas, as traças que se arrastavam, vagarosas, pelas paredes mofadas e pelo chão sujo, as gotas de água pingando do velho telhado de telha de amianto. As águas, penetrando nas rachaduras, iam descascando a pintura antiga, de cal, provocando um odor estranho, desagradável, manchando as paredes, e tudo contribuía pra abalar o ânimo de Técio, pra lembrá-lo de quão fodido ele estava, de quão ninguém ele era. E as noites calorentas traziam o excesso de pernilongos e sanguessugas. E ele odiava tanto esses bichos…!

Se ela estava satisfeita, Técio não estava. E Técio não almejava ser sempre um ladrão de cargas. “Do mesmo modo que posso roubar cargas, posso também vir a ser um empresário de sucesso.” Era a outra parte do plano, o outro alvo: montar o seu próprio negócio. Roubar cargas até conseguir dinheiro suficiente e, depois, mudar de ramo: montar uma loja. E – como Tiana havia afirmado – “pensando grande”, enxergando apenas “à frente”, ele tentaria coisas maiores, montaria mais lojas e, em vez de roubar, passaria a encomendar cargas roubadas, mercadorias contrabandeadas, e iria abrindo mais lojas, compraria fazendas, sítios, ergueria prédios, abriria hotéis. E os alvos iriam se sucedendo. “A gente vê isso na televisão. Os caras vão fazendo as coisas, montando lojas, construindo prédios, acumulando bens, ficam muito ricos e, depois, são pegos e aparecem na televisão como receptadores de cargas roubadas, de mercadorias contrabandeadas. A cara mais lambida do mundo! E nem por isso vão presos. E menos ainda deixam de ser considerados ‘gente boa’, ‘pessoas de bem’, ‘cidadãos de conduta ilibada’, ‘membros influentes da sociedade’. Mas, no fim, não é nada disso! É tudo trambiqueiro! Tudo vagabundo! Tudo gentinha!”

Um velho preto está encostado ao balcão do boteco tomando uma pinga. É de manhã, o dia ainda nem acabou de nascer direito, e o preto já tá tomando uma pinga. E vai ver nem é a primeira! Mas, antes de se fixar no velho preto, Gerson decide considerar o dono do boteco. Lançando mão das teorias da ‘espada afiada e da lenda pessoal’ que a mana de Técio tem usado tão amiúde, Gerson tenta adivinhar se o dono do boteco realizou sua lenda pessoal. “Se não realizou, se não pôs sua espada pra funcionar até agora (e, se pôs, errou o alvo!) – pondera Gerson – é tarde; o homem já tá bastante entrado em anos, tá velho, a morte é seu destino mais provável em pouco tempo, ao invés de a realização de qualquer projeto pessoal.” O sujeito é gordinho, muchibento, barrigudo, claro, baixinho – ridículo! – pensa Gérson -, bigode espesso; usa óculos de grau, muitos cabelos lisos completamente brancos (deu sorte de não ter ficado careca!), a camisa de cor clara é puída e um tanto ensebada… Vai ver não tem dinheiro nem pra comprar roupas e nem pra pagar uma lavadeira. Seu boteco não é dos mais limpos. Só possui uma feia porta de madeira descascada. Há um buraco na porta, na parte de baixo, ao lado do portal, de tamanho suficiente pra dar passagem a um rato de bom corpo. Mesmo de certa distância, pode-se ver que há muitas manchas nas paredes, sinal de que elas não vêem pintura, nem mesmo uma mísera caiação, há bastante tempo. O balcão, além de antigo, tem um dos vidros partido. Há falhas na ocupação das prateleiras, o que leva Gerson a deduzir que o homem tá fodido, tá sem grana pra comprar mercadorias e talvez esteja até quebrando, esteja em vias de encerrar as atividades. Gerson pondera que o homem, o dono do boteco, não realizou sua lenda pessoal, não desembainhou a espada, teve medo do futuro – se é que vislumbrou algum futuro à sua frente alguma vez! – ficou receoso de pular no escuro. Não caminhou pra onde seu medo apontava. Preferiu ficar ali, na mesmice, pregado atrás do balcão daquele chiqueirinho, vendendo pinga e bebidas ordinárias, talvez fiado!, pra pretos velhos miseráveis e outros tipos de pinguços, ganhando uma ninharia ou coisa nenhuma, ao invés de dar um salto no nada, na incerteza. Não vencera na vida, certamente não chegara a lugar algum, pois, se o tivesse feito, seria proprietário de pelo menos um restaurante decente. Não foi um guerreiro; não era um vencedor.

“Sabe o que é?”

“O que é?”

“Você sabe que quando os operários ficam sabendo que tem algum serviço na cidade eles aparecem como formigas. Pedem o serviço, telefonam, entregam orçamentos, pedem engenheiros e mestres-de-obras conhecidos para os indicarem aos donos das obras, pedem às empregadas domésticas… as coisas acontecem assim, não é verdade?”

Era verdade

 

Duas coisas aborreciam Gerson ao falar com Darcy. Primeira delas, o hábito que o sujeito tinha de se debruçar sobre o rosto das pessoas, enquanto lhes punha a mão sobre um dos ombros e apertar, um gesto irritante. Segunda – e pior – Darcy, uma boca enorme (um bocão), cheia de pedaços de dentes podres, falava com a boca cheia de cuspe e lambuzava a cara dos interlocutores. Por isso, Gerson o evitava. Darcy, servente de pedreiro velho, moreno amarelado, a roupas em frangalhos, o boné sujo, as sandálias em petição de miséria. Um ‘bosta’, sua esposa diria, sem dúvida. Mas Darcy não se casara.

“Sabe o Tetéu, rapaz? Ou melhor: soube do Tetéu? aquele seu vizinho cheio de brincos e tatuagens e mutretas?”

As coisas tinham acontecido como o velhote contou mais tarde: “Eu sou viúvo, como vocês sabem. Viúvo e aposentado. Minha dona morreu há alguns anos; meus filhos, dois filhos, nem moram na cidade. Fico nesta casa, então; vivo sozinho, nos fundos do beco. É fundo de beco, é verdade, mas é bem conservado e a casa é boa; tem o terreiro e tá numa área central. Tá perto de tudo: farmácia, padaria, supermercado; perto de todas as comodidades. E o lotação pára logo na porta. Tenho tudo à mão. Então, foi assim: era fim de madrugada, umas cinco e meia da manhã. Eu tinha acabado de deixar a cama, tinha me levantado pra ir ao banheiro. É a primeira coisa que faço todos os dias. Me levanto e vou direto pro banheiro. Depois, vou à padaria. Compro um pão ou dois; tem dia que compro um litro de leite. Dá pra vários dias. Ponho na geladeira. Então, faço as compras e fico lá, batendo papo. Só por alguns minutos. Depois, volto pra casa. Coisas de velho. Nisso, ouvi um barulho de alguma coisa pesada caindo dentro do terreiro, perto do muro.

Me perguntou: ‘moço, você tem uma arma?’ Eu respondi: ‘não; não tenho’. “O que eu faria com uma arma, a essa altura da vida? Tenho setenta e dois anos!” “Pois você vai ganhar uma. Eu vejo nos jornais que os caras ‘stão roubando até caixas de fósforos na cidade, você mora sozinho, e ainda fica emprestando mixarias a juros. Algum vagabundo pode vir a saber e cismar que você é rico. Mesmo aqui na roça tá muito perigoso”.

Mas, aí está. O bicho me alertou pra presença dele e o moço se lascou. Talvez, se o cachorro não estivesse lá, ele tivesse me surpreendido. Mas eu não queria acertar o rapaz. De jeito nenhum! Queria só assustar ele. E este moço devia estar mesmo precisando de grana: ele saltou por cima dos cacos de vidro que mandei colocar sobre o muro. Sobre toda a extensão do muro! E este muro é bastante alto. Depois que ele caiu ferido, o pessoal que tinha sido alertado pelo tiro, o pessoal que vem cedo à padaria, tirou a touca ninja dele e viu que era este rapaz. Era conhecido. Não conhecido meu. Disseram que não era gente boa, não. Vivia de trambique, de rolos. Muita gente já conhecia ele”.

“Tetéu tava como umas conversas esquisitas! Uns papos furados, moço. Tava falando muito numa tal de ‘quimia’. Disse ele que ia transformar a vida dele em ouro! Que ia voar e dar um pulo no escuro! ‘magina! Eu acho que ele tava era pitando e cheirando as ‘coisas’ demais! Tava ficando maluco! Agora ficou tudo escuro mesmo pra ele! Ele não tá enxergando nada!” – e riu, – hi, hi! – a boca enorme, bocão, cheia de pedaços enegrecidos de dentes e de cuspe.

 

 

ENCONTROS NA GARAGEM

                   Lembro-me que havia chovido, era noite, e eu estava bêbado, e ia andando entre os carros na rua e torcendo pra não ser atropelado, e que depois eu entrei num bar e me encostei ao balcão com os punhos fechados apoiados à borda e pedi umas bebidas ao garçon.

Lembro-me que o cara deu uma olhada pra um colega, como que pedindo uma opinião devido ao meu alto grau de zonzura, e que depois ele me mandou ocupar uma mesa e me trouxe as bebidas.

Lembro-me que eu fiquei sentado lá no bar. Havia uma garrafa de cerveja sobre a mesa e eu enchia e esvaziava o copo e, quando a cerveja acabava, eu batia na mesa com o fundo do copo e o garçom trazia mais cerve­ja e eu enchia e esvaziava o copo e, quando a cerveja da garrafa acabava, eu ba­tia na mesa com o fundo do copo e o garçom trazia mais cerveja. Vez ou outra eu tomava uma pinga e ia sempre batendo na mesa com o fundo do copo. E assim foi e eu, que já estava bêbado, fui be­bendo e continuei a entortar.

Tinha uma televisão ligada e um cara falava alguma coisa na televisão. Que tinha chovido muito em algum lugar e muitas pessoas tinham morrido e ainda chovia. E eu enchia e esvaziava o copo. Ninguém dentro do bar parecia estar preocupado com o destino das pessoas que tinham morrido ou que estavam tendo proble­mas por causa da chuva, porque só se ouviam assuntos banais e, quando o lo­cutor ia dar as últimas notícias sobre a enchente, o pessoal continuou conver­sando normalmente. E os copos estavam sempre cheios de cerveja ou de pinga.

Minha cabeça começou a rodar. Eu estava zonzo mas estava do jeito que queria: miando! Fechei os olhos para degustar mais minha zonzura. Como eu tinha vindo parar ali? Tinha saído a lista com o resultado do vestibu­lar e eu tinha sido aprovado. Engenheiro florestal! Aí, apareceu um montão de gente que eu nunca tinha visto fazendo festa, gritando, bebendo, e eu acom­panhei. Depois os caras tinham desaparecido, havia algumas mulheres no meio, e eu nem sabia quem eles eram nem onde eles tinham ido.

Então eu fiquei bebendo lá no bar e quando acordei não sabia como tinha conseguido chegar ao meu quarto nem se tinha pagado as bebidas no bar ou se alguém tinha pagado por mim. Sabia que estava com uma tre­menda ressaca, a boca babenta, a cabeça doendo, um gosto de cano de guar­da-chuva na garganta. Estava de ressaca!

 

Eu estava sentado lá no mesmo bar, quando me cortaram os ca­belos. Eu estava lá sentado com um copo na mão e havia uns caras da uni­versidade bebendo e conversando e, não sei como, eles descobriram que eu tinha sido aprovado no vestibular e eu ainda tava com a cabeça cheia de cabe­los e um deles se chegou pra mim e perguntou:

—- Então, você foi aprovado no vestibular, cara?

—- Fui!

—- Qual curso?

—- Engenharia florestal, he, he!

Aí, então, todos os outros caras se levantaram, se aproximaram de mim e disseram:

—- Vem cá fora. Senta na calçada, que vamos cortar seu cabelo.

Nem pensei em dizer que não, porque estavam já quase começando as aulas, e eu seria de qualquer modo obrigado a cortar os cabelos. Além do mais, os calouros sempre ficavam por conta da encheção de saco dos veteranos, pelo menos durante o primeiro mês de aulas.

De modo que saí do bar, me sentei na calçada e, quando me levantei, tinha a cabeça completamente tomada de caminhos de rato.

 

Ao passar em frente à porta fechada de um bar, uma mulher que estava sentada no passeio falou:

—- Hei, moreno, vem cá conversar com a gente!

Olhei. Era uma loura já bastante passada. Vestia calças verme­lho-claro, camisa jeans da mesma cor. Havia uma colega sentada no meio-fio com ela, esta de costas para a rua. Me aproximei das mulheres. De perto dava para se ver melhor o estrago que o tempo tinha feito na coroa: a pele escor­rendo pelo rosto, a carne do braço toda enrugada, manchada, os cantos dos olhos cheios de pés-de-galinha, a voz horrorosa – não falava, grasnava. Me sentei na borda do passeio e ficamos ali, conversando. A coroa estava de fato querendo transar comigo. Me dava umas cubadas gulosas, ria com meus gra­cejos. Mas eu tinha ficado parado na sua colega. A outra – morena-clara, forti­nha – usava um short muito apertado, cor-de-rosa, estampado com grandes flores brancas, uma mini-blusa preta com botões dourados, tinha o umbigo lindo todo de fora, os peitos do tamanho ideal, as pernas grossas, os lábios grandes, o cabelo pretinho dividido ao meio, num bonito topete, e eu fiquei conversando com a amiga dela e olhando pra ela, para o testeiro da xoxota dela, enorme e, depois, não resisti e disse:

—- E aí, cara?

—- Aí o quê?

—- Aí!

—- Aí o quê, porra?

—- O que você acha?

—- Acha o quê?

—- O que o quê, cara?

A mulher ficou me olhando com os grandes olhos verdes e ficou olhando para a colega dela e depois voltou a olhar para mim. Eu fiquei só sa­cando aquele corpo e ela notou e eu tornei a falar:

—- Você conhece algum lugar onde a gente possa ir?

—- Ir pra que?

—- Não enche, cara! Você sabe o que tô querendo!

—- Num tô a fim hoje, não, moço! Enjeitei uma grana boa ago­rinha mesmo!

—- Vamos sim! Vai ser muito bom!

—- Será que vai mesmo?

Na verdade, a moça queria ir comigo. Estava com receio de chatear a colega, era ela quem tinha me chamado.

—- Quanto você vai me pagar?

Tratamos um preço, nos levantamos, a mulher me pegou pela mão e saiu me levando. Não pude deixar de notar a tristeza da coroa! Se ela estivesse sozinha, sem dúvida eu trepava com ela.

A mulher me conduziu pela mão até a uma casa velha, pintada de amarelo vivo, ao lado da estação de estrada de ferro. Havia inúmeros va­gões parados sobre os trilhos. Sobre a porta única da casa, uma inscrição: PENSÃO DA ESTAÇÃO. A porta estava aberta. Entramos.

A moça já era conhecida do dono, um velho muito decrépito. Foi chegando e lhe perguntando:

—- Fulano, aquele quarto tá desocupado?

Aquele quarto! Estava.

—- Me dá uma toalha?

O velho saiu arrastando as sandálias. Num instante voltou com um pequeno pedaço de pano encardido, cheio de buracos. Era a “toalha”. Eu tinha me sentado numa poltrona caindo aos pedaços e esperava. Então, a mulher pegou naquele pedaço de pano, me pediu que pagasse uma mixaria pelo uso do quarto, e disse:

—- Vem comigo.

O quarto era fodido, mal pintado, de teto de esteira, com cheiro de mofo,  mas era enorme. Arejado. E tinha uma espaçosa cama de casal. Dava para transar com sossego. Pus meu caderno de Cálculo num canto da cama. Me deitei de roupa e a mulher ficou nua. Se se vestisse como uma ma­dame e tivesse modos distintos, ninguém diria que era uma rampeira! Gosto­síssima! Os peitos firmes, nem grandes nem pequenos, as coxas mais do que lisas, a bunda mais do que perfeita, a barriga também firme. A moça dobrou as roupas, colocou em cima de um caco de cadeira e veio para o meu lado. Desabotoou minha camisa, tirou, fez o mesmo com minhas calças, com meus sapatos, com minha cueca. Pôs junto com suas roupas. Enfim… nus!

Nem tive paciência de dar umas alisadas, uns apertos prelimina­res. Logo que a moça se deitou, fui montando em cima daquilo e  atolando nela o peru. Nem vou dizer que era boa! Indescritível! A xoxota apertadinha, a pele maciinha, os braços aconchegantes, as coxas deliciosas! E eu ia aper­tando a mulher em cima da cama e ela ia me passando as mãos nos cabelos, na nuca, nas costas, nas coxas e nós ficamos ali até que ela decidiu inverter as posições: ela por cima e eu por baixo. Mais gostoso ainda! A cara abriu aque­las coxonas em cima de mim e desceu aquele volume de boceta em cima do meu pau e eu fazia força para apará-la no ar e ela forçava o corpo para baixo e se deitava sobre mim e o suor começou a escorrer em bátegas e nós nem li­gando e fomos invertendo e desinvertendo as posições e…!

Como nada gostoso acontece sem uma encheção de saco, havia uma porra de uma mola solta no colchão. Me machucava as costas, princi­palmente quando a mulher me apertava o corpo sobre a cama. A mulher, pro­vavelmente, já estava tão acostumada a transar naquela cama, a sentir o espe­tar daquela mola, que não fez qualquer observação a respeito.

Durante a trepada, descobri o que a moça pretendia fazer com a “toalha”. À medida que íamos transando, a xoxota da gostosa ficava molhada e ela passava a “toalha” para enxugar. Logo, logo aquela delícia ficava enxuti­nha, da melhor qualidade. Molhava outra vez, outra vez ela passava a “toalha”. Enxugava também meu peru. E a trepada ficava ainda mais gostosa. E nós fomos transando e ela ia cochichando umas bobagens nos meus ouvi­dos e me lembro de lhe ter perguntado:

—- Qualquer dia você deixa eu comer sua bundinha?

Ela respondeu:

—- Ah, não, querido! Dói!

Então, nós ficamos trepando e, como não havia modo de não gozarmos, o desfalecimento veio e eu ainda tentei segurar a mulher na cama até de manhã, mas ela afirmou que tinha de dormir em casa porque a mãe dela enchia o saco quando ela não aparecia para dormir e que qualquer dia nós nos veríamos de novo. De modo que a mulher passou a mão direita na xoxota, passou os dedos melando nos meus lábios, pegou minha grana e de­sapareceu. Por que ela passou a mão melando em meus lábios? Não sei! Pas­sou e eu fiquei deitado de bunda para cima, sentindo o cheio da xoxota da moça perto do meu nariz. Escolhi um canto da cama onde não havia possibi­lidade de me encontrar com a mola e adormeci.

Acordei, ao amanhecer do dia, com uns hóspedes da pensão bochechando, escarrando, raspando as gargantas numa pia existente atrás da casa. Com uma composição da rede ferroviária fazendo baldeação nos trilhos. Sete horas! A prova de Cálculo era às oito horas! Aquela já era!

 

Fazia frio quando coloquei os pés na reta pro começo do meu segundo período. Uma densa névoa cobria as águas da lagoa, os gramados, saía vapor da superfície da água. Ao longe, não se podiam ver as árvores que margeavam o lago. Do primeiro prédio de alojamentos, só se tinha uma sombra desvanecida. Um reencontro com o perfume penetrante, adocicado, das folhas das magnólias!

Os jardins estavam estupidamente bem aparados, planos. Verdíssimos. E os canteiros de flores, no meio dos gramados, pareciam ter toda a beleza do mundo. ( aumentar isso )

 

Sensação estranha aquela! As salas de aulas estavam sempre cheias de calouros! Se eu tivesse um pouco de vergonha, me sentiria deveras sem-graça, mas… Além do mais, havia um monte de veteranos me fazendo companhia. Nós nos sentávamos sempre do meio da sala para trás e deixávamos a parte da frente para os novatos. A dificuldade maior era ter saco para assistir às aulas. Não era incomum um de nós sair antes do término ou mesmo perder a aula e ficar de pegar a matéria com alguém mais tarde. Quando o mestre fazia chamada, se pedia a alguém que assinasse em nosso nome. Fiquei mestre em fazer essas coisas. De qualquer modo, sempre se corria o risco de se perder a ponta da corda com a matéria.

A orientadora me dera apenas quatro: Cálculo 1, Física 1, Climatologia Agrícola e Solos 1.

—- Faça bem estas disciplinas, que vai lhe aliviar enormemente o currículo; me havia dito a moça.

Eu não queria aceitar, queria mais disciplinas, mas decidí não criar caso. Passei a mão no horário, e saí do gabinete da cara.

Quando os professores começaram a repetir tudo aquilo que já haviam dito no princípio do ano anterior, achei que era brincadeira. A mesma coisa! O pior é que tudo era novidade para mim! Os pregos inclinados nas tábuas, as esferas rolantes, as molas! Tudo! E o saco que eram as aulas práticas! A calourada lá, de antena ligada, metendo o dedo e eu no meio deles, mais perdido do que cego em tiroteio! E o professor de Física Prática estendendo as molas, rolando as esferas, e depois dando voltas ao redor das mesas, se negando a responder, a tirar dúvidas dos alunos.

Certa noite – ainda Válber! – chegara à Zona e vira uma figura vestida de mini-blusa bege tampando os peitinhos baixos, micro-saia de pele de leopardo, botas pretas de salto, cabelos negros batendo nos ombros. Barri­guinha firme. Fantásticas  pernas cor de cobre. Se aproximou:

—- Há muitos dias que tá aqui?

—- Não, querido. Cheguei ontem!

Que voz!

—- De onde veio?

—- Da capital.

—- Deixa eu chupar sua xoxota?

—- Ah! quem me dera que eu tivesse xoxota!

—- Por quê?

—- Sou bicha, bem!

—- Oh!

E eles ficaram conversando banalidades e o bicha falou pro Vál­ber:

—- Deixa eu chupar seu pau?

Então eles foram pro quarto e a bicha bateu de boca no pau do cara e eles ficaram muito amigos. Vez ou outra Válber pegava uma grana na mão do cara, mas nunca lhe rangou a bundinha porque não tinha jeito para esses troços. Mas quando estava no salão, após ter lambido as mulheres, era comum a bicha chegar e pedir:

—- Deixa eu sentar no seu colo?

E ele deixava e os dois ficavam conversando com as mulheres. O viado demorou pouco na cidade. Válber nunca mais o viu.

 

A mulher falava isso com a voz triste, me alisando devagar o rosto. Para levantar o astral, decidi brincar com ela.

Enfiei-lhe as pontas dos dedos nos cabelos lisos, os estiquei, e perguntei:

—- Pra que você tem os cabelos tão grandes?

Ela entrou no jogo:

—- É pra te amarrar!

Puxei-lhe a pálpebra do olho direito com as pontas dos dedos e perguntei:

—- Pra que você tem os olhos tão grandes?

—- É para te enxergar!

Depois, desci com a mão até seus lábios, os abri com as pontas dos dedos, e perguntei:

—- Pra que você tem os dentes tão grandes?

—- É pra te rangar!

Fui com as duas mãos sobre aquelas coxas indescritíveis, fiquei alisando durante bastante tempo, depois, perguntei:

—- Pra que você tem as coxas tão grandes?

—- É pra te apertar!

Então, eu lhe enfiei o dedo indicador direito na xoxota e perguntei:

—- Pra que você tem a xoxota tão grande?

A mulher não achou graça. Disse, fazendo cara de desagrado:

—- Minha xoxota é pequena, apertadinha, moço!  Eu tô te dando ela porque ela é gostosa e meu marido não sabe aproveitar e ela não pode ser desperdiçada! Enfia o peru e aí e vai confirmar o que eu tô dizendo!

 

A mulher falou e abriu as pernas e eu me deitei em cima daquele corpo e fui empurrando bem devagar o peru e ela passou as duas pernas em volta de meu tórax e…

…o negócio é o seguinte: os caras nascem, vão crescendo, viram adolescentes, começam a amadurecer e depois vão para as obras. Normalmente começam de baixo, lógico!: serventes, ajudantes de qualquer categoria. Depois, começam a pegar em ferramentas. E ficam alegres! Estão se tornando homens sérios, respeitados. Eles ao menos acham isso! E vão pregando tábuas, estendendo tubos, furando paredes para montar andaimes, amontoando tijolos, levantando prédios. Jogando a massa de alvenaria nas paredes nuas. Pintando as paredes prontas. E dando gritos dentro das obras, porque acham que são os donos da situação e o terreiro é deles – dos galos! À noite, vão pra Zona, vão pras quebradas, vão atrás de mulheres. Além da necessidade de molhar o pavio, precisam arranjar casos pra contar. Sempre se casam com uma delas. Fazem uma casinha fodida, ou um barraco mais do que fodido e ficam ali. Vão trabalhando de dia e trepando de noite. E chegam às obras contando para os outros, de manhã: — tirei três ou cinco ou oito na noite passada! O trem é bão dimais!

E continuam jogando massa nas paredes, pintando paredes, furando paredes para montar andaimes e essas coisas. Há sempre um encarregado para exigir rapidez no trampo. E o corpo começa a reclamar. Cansaço!

Então, nesta época, provavelmente já compraram uma televisão a crédito – como era o caso da bundudinha casada. Saem do serviço, doidos pra chegar a casa, alguns ainda enchem o rabo, ou tomam apenas uma pinguinha, o que, de qualquer forma, já ajuda a atrapa­lhar. E, estourados, chegam em casa, fazem um lanche, batem a bunda na frente da TV e ficam ali. Estão com o corpo dolorido. Estão mortos! Ficam arrumando assunto pra contar na obra, durante o serviço: fute­bol, notícias policiais, shows de música sertaneja ou mesmo novelas. A esposa fica esperando se sai alguma coisa: um carinho, um sarro, uma ereção, uma trepada, qualquer coisa. Qualquer manifestação de ternura. Nada! Não sai nada! Depois, vão dormir. O oficial entra debaixo das cobertas, vira a cara pra parede e…

Os caras estão preocupados, porra!, eles têm de estar no trampo de manhã, logo cedo, que o encarregado é chato, o patrão é exigente, a obra está atrasada. Costumam também estar trampando em condomínios de pessoas da classe média que acham que os operários são propriedade delas e vivem dando ordens, perturbando, enchendo o saco! Ás vezes é necessário fazer horas extras. E a mulher fica esperando…

Fui empurrando o peru na dona e fui pensando nisso. Ela era proprietária de uma daquelas pererequinhas gostosas, macias, que ficam mordendo o pau da gente! Escorregadia! De mãos mais do que carinhosas. Como o peão podia chegar em casa, bater a bunda na frente da televisão preto e branco e deixar aquela delícia pra lá? Cansaço! Preocupação! Só podia ser isso!

E a dona foi me apertando entre as pernas com muito carinho e me passando as mãos e me beijando na boca e eu fiquei lhe puxando os cabelos e ela me olhava com os olhos semi-abertos e suspirava e gemia e…

Demoramos na trepada. Gostoso demais!

 

Estava tudo como não podia ter acontecido: o rolo nas disciplinas! Estavam lá no meu horário: três matérias básicas de quando eu ainda era calouro! Cálculo 1, Química 1 e Física 1! E estava Climatologia Agrícola também! O orientador me deu Solos 2 para que eu não ficasse com muitas janelas no horário e para que não me atrasasse demais o curso. E tudo isso no quarto período!

—- Você não pode perder mais estas disciplinas básicas, Júlio César. Isto pode comprometer seriamente seu currículo! Seu acumulado fica extremamente baixo, irrecuperável, e os conflitos de matérias nos períodos seguintes serão inevitáveis.

—- Pode deixar! Deste período em diante, logo após as aulas, eu vou para a biblioteca! Vou pegar firme!

—- Isso, meu rapaz! – disse-me ele – nada está perdido ainda!

 

—- Mas seu currículo está horrível!

—- Vou melhorá-lo a partir deste semestre! Vou começar a estu­dar com afinco!

—- Mas nem os melhores alunos da universidade se atrevem a se inscrever em tantas disciplinas! Oito! Fica muito pesado! E você foi reprovado em quatro delas no último período!

—- Inscreva-me nestas, por favor! Eu sei o que estou fazendo! Conheço minhas possibilidades!

—- Seu currículo já está cheio de reprovações! Você só vai fazer piorá-lo! Seu rendimento acumulado está extremamente baixo!

—- Vou elevar meu acumulado e encher meu currículo com os melhores conceitos!

Minha orientadora me olhava com espanto. Eu tinha perdido quatro disciplinas no último período, e tinha sido obrigado a refazer meu ho­rário.

—- Já ouviu dizer que a universidade vai recomeçar o jubilamen­to?

—- Já! E este assunto tá me enchendo o saco!

A mulher desistiu. Me ajudou a montar minha grade de matérias, assinou meus papéis, eu me levantei e saí andando.

 

Ao entrar na sala de Cálculo 1, dou com os olhos num veterano que aparece em todas as salas onde estou repetindo matérias. O sujeito já tem alguns fios de cabelos brancos, ele também é branco, de óculos, sério. Está fi­cando gordo, a idade chegando. Patrimônio da universidade. Não sei como não foi jubilado! Está sentado na última carteira. Ele sempre se senta na úl­tima carteira. Olha fixamente para o quadro-negro. O professor diz alguma coisa referente a derivação e ponto de inflexão e o veterano olha para o qua­dro-negro como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez. Fico com pena dele e me sento ao seu lado. Tento puxar conversa:

—- Esta matéria é um saco, né, cara?

O sujeito faz um som gutural com a garganta:

—- Grunf!

Fecha ainda mais a cara. Não apreciou nem um pouco minha aproximação. Eu insisto:

—- É a quinta vez que eu me matriculo nesta merda!

—- Grunf!

—- Há muito tempo que tá estudando na universidade?

—- Grunf!

E o cara se vira pro meu lado, me dá uma olhada horrível, eu me assusto e me levanto e vou me sentar mais longe.

 

 

Tinha uns caras que se achavam os maiorais porque tinham conseguido entrar na universidade e estavam tirando boas notas. E ficavam alardeando aquilo. Um idiota ex-chofer de caminhão era desse tipo. Floresteiro, grandão, voz grossa, barrigudo. Fez todas as matérias de calouro comigo, depois, desapareceu. Engoliu a grade. Trombamos outra vez na Microbiologia. Nem sei porque deixou aquela disciplina pra fazer mais tarde. Era extremamente caxias. Então, o chofer de caminhão tava na sala prática de Microbiologia mexendo nuns tubos, eu entrei, coloquei meu caderno sobre a banca, e me aproximei de seu grupo. Havia apenas duas pessoas. Os outros dois alunos tinham faltado. Cada grupo era composto de quatro pessoas. Eu não gostava de meu grupo. Só alunos fracos. Esforçados, mas fracos. Lá estava ele! Ele e uma aluna do alojamento. Me aproximei porque o cara era eficiente e eu tava a fim de assinar seu relatório logo que ele ficasse pronto. Eu tinha tomado bastante na hora do almoço, estava razoavelmente tonto. Nada que me impedisse de assinar meu nome no papel do cara. A moça ficou deveras surpresa com minha chegada. O chofer não se mostrou nem um pouco satisfeito. Mas bati a bunda numa banca perto dos dois e fui ficando. Os dois cus-de-ferro iam mexendo nos tubos, flambando uns chumaços de algodão, transando uns meios de cultura, etc. Era até bonito ver os dois manejando aqueles troços! Vez ou outra eu dava alguma opinião para despistar, lógico!, porque estava completamente por fora daquele troço.

O chofer de caminhão me perguntou:

—- E aí, cara, cadê seu grupo?

Ri pra ele e disse:

—- Vou variar de grupo hoje! Variar de vez em quando é bom, você não acha?

 

Foi a única vez que passamos dentro do bairro proletário durante a noite. Normalmente passávamos numa estrada ao lado, mais em conta para chegarmos rápido ao cume do morro de saída. Passamos dentro do bairro, estávamos voltando de nossas andanças, decidimos não subir aquela encosta enjoada, e ficamos zanzando pelas ruas sem calçamento, procurando outra alternativa para deixarmos o local. Era de se esperar que alguém de obra me reconhecesse naquele lugar. A maioria dos operários morava ali.

Então, íamos passando numa rua poeirenta, um cara me chamou:

—- Hei, doutor!

Parei. Olhei. Era um pedreiro brincalhão que sempre trombava comigo em obras. Estava na porta de um barraco com um copo na mão, as luzes do casebre estavam iluminadas e parecia haver uma festa no lugar. Me aproximei do cara. Lhe apresentei Cida. Ele nos convidou a entrar. Entramos, atravessamos os pequenos cômodos do barraco e no terreiro havia um bom punhado de pessoas. Mulheres de vestidos baratos, algumas com panos enrolados na cabeça, homens bêbados, crianças fazendo algazarra.

Dito Boca-Torta, velho de guerra, tocava seu antigo cavaquinho. O cara era pintor antigo na cidade, mas ficara mais conhecido devido à perícia com o instrumento. Me fez um gesto com o cabeça ao me ver chegar. Havia outros operários meus conhecidos no terreiro e o dono da casa, o cara que me chamara, Nazário, trouxe copos, cerveja, ofereceu pinga e tira-gostos. Aceitamos. Ficamos ali.

A estudante feminista depressa se enturmou com suas colegas de infortúnio. De correr atrás. De onde eu estava, conversando com os operários, podia ouvir Cida falando com as mulheres. Que era preciso que todas elas reclamassem seus direitos. Não levassem desaforo para casa. E, caso não pudessem de todo estudar, que ao menos não ficassem completamente analfabetas, ignorantes. Que lessem sempre algum jornal, alguma revista, procurassem saber o que acontecia no país, no mundo. Que as mulheres apenas poderiam mudar a situação de dominação lutando elas mesmas pelos seus direitos. Que falassem, reclamassem até encher o saco! Aprendessem uma profissão! Procurassem ganhar seu próprio dinheiro! A  situação das mulheres já melhorara muito, dizia a moça, mas ainda havia muita coisa a ser consertada. Era preciso se manter alerta. Cida ia falando e bebendo cerveja e pinga. Estranhei ao vê-la bebendo cachaça! Detestava! Adorava vodca. Mas lá estava ela! Estava enchendo o rabo! E as mulheres dos operários, todas de copos nas mãos, iam ouvindo a militante falar e iam concordando com ela:

—- Ieu sempre falo com minhas fia! Quem num quisé istudá pode percurá dá um jeito na vida! Arranjá um marido trabaiadô e criá uma famia!

—- Minha fia cansô de iscutá essas coisas, mas num pode vê homi de jeito ninhum que cai de costa e abre as perna! Tá lá in casa, fudida, ium monte de fio, na maior merda!

—- Cumadi, ieu sempre falo: trabáio desde criança! Num perciso de fedaputa de homi ninhum! Pra nada!

—- Pois é, cumadi, meu marido num me dá nada, mais eu faço o qui ieu quero! Saio de casa sem avisá, demoro a vortá, tem dias qui nem vorto e num adianta ele me perguntá onde que ieu tava quei ieu nem respondo!

—- A “sá” moça só fala coisa importante, qui interessa muito pra gente!

 

Deixei que Cida se adiantasse um pouco no caminho. Aproximadamente duzentos metros de morro íngreme. A moça ia muito torta. Trocava as pernas, cambaleava, tropeçava. E ia com aquelas imitações que surpreenderiam a Simone de Beauvoir ou a Betty Friedan:

—- Intão, cumadi, nóis decidiu qui o mió pra nossa famía era pô us minino no patronato. Si nóis num pusesse eles lá, cedo nóis ia tê probrema com marginal dende casa. …. —- Mais, cumadi, oceis num sente sardade das criança?… —- Nóis sente, cumadi, mais todu fim de semana elas pode vim visitá a gente, sabe, cumadi?… —- Igualeu tava falano com o cumpadi….

Que feio! Cida ia desligada, aparentemente muito satisfeita com aquela palhaçada. Depois, parou. De falar e de andar. Colocou as mãos na cintura, dobrou ligeiramente o corpo para a frente, me esperou chegar perto dela e disse, ofegante:

—- Cum…cum…padi?

—- O que foi? Cansou de bobagens?

—- Num… tô aguentano… andá… mais… não, cumpadi!

—- Nós ainda tamos muito longe da universidade ou do meu quarto!

—- Intão, nóis… vai… vai… tê qui durmi no meio… do… mato, cumpadi!

—- Tá falando sério, cara?

—- Claro!

—- A madrugada tá meio fria, cumadi!

—- Nem tô… sintindo… cumpadi! Tô muito…torta, bicho! Tortinha!

Eu ja imaginava que Cida não ia conseguir chegar. Tinha mais de meio litro de pinga e um tonel de cerveja na barriga!

—- Vamos arrumar um lugar pra deitar então, cumadi!

Havia uma grande moita de cipós à borda da estrada. Pisei em cima daquilo, amassei à exaustão e a cama estava pronta!

Cida tinha se sentado à beira do mato. Disse-lhe:

—- Pode deitar, cumadi. Os aposentos estão no jeito!

—- Me ajuda a me levantar, Julinho?

Cida me estendeu as mãos, eu a puxei com força. Pesada!

 

Então, a moça se deitou de barriga para cima, eu lhe suspendi a sáia, lhe puxei a calcinha, passei um pouco as mãos naquelas coxas lisas, fortes, depois, me deitei por cima dela e fui empurrando bem devagar o peru. Cida estava inerte, os braços ao lomgo do corpo.

—- Cumadi?

—- Hum? – ela respondeu, a voz quase inaudível.

—- Mexe ao menos um pouquinho, querida!

—- Num tem jeito… cumpadi! Tô… tô… morta!

—- Tá gostoso, cumadi?

—- Áááiii!

Fiquei bombando a xoxota sequinha de Cida. Logo ela ficou molhada, escorregadia. Deliciosa!

—- Diga alguma coisa, cumadi! Fala se tá gostoso!

Cida ficou suspirando baixinho. Depois, eu a empurrei com toda a força contra o chão.

—- Ái… cumpadi! Ái! – ela gemeu, a voz quase inaudível.

Então, saí de cima de seu corpo, me deitei ao seu lado, e a moça adormeceu.

Pouco depois, fui pelo mesmo caminho.

 

Férias. O pessoal da universidade tinha sumido para casa. Fui atrás do Caxias, fui procurar um trampo. Fui andando e tentando imaginar o que dizer pro cara. Eu sabia o que ele me perguntaria:

—- O que você arrumou na universidade neste último semestre, Júlio César?

O que poderia eu responder pro cara? Que tinha sido aprovado em uma única disciplina – que nem era considerada matéria? Ou que ainda estava cursando matéria de calouro? Fui me aproximando da obra e pensan­do…

 

Era de manhã. Havia uma obra nova sendo iniciada logo ao lado da obra do Caxias. Parei para observar uns caras que tinham vindo procurar emprego temporário. Estavam sentados no passeio no outro lado da rua. Uma laje imensa ia ser enchida. Serviço pesado, mas mais lucrativo. Cobrava-se mais caro, tinha de ser feito rápido, atraía os caras que não gostavam de traba­lhar com freqüência e que tinham disposição pra enfrentar uma barra daque­las pelo menos algumas vezes. Normalmente pessoas fortes e agressivas. To­dos tremendamente debochados. Apareciam pinguços contumazes também. Esses geralmente eram descartados.

Lá estavam! Uns trinta peões. Faziam graça uns com os outros, riam em voz alta, se tocavam com as pontas dos dedos. Bastava tolerar algumas poucas horas de sofrimento e pronto! Já teriam defendido uma grana para a pinga, para um carteado, para uma trepada com uma putinha de primeira! Eles sempre falavam isso, sempre pensavam nisso. E o dia tava maneiro pra carregar concreto: bonito, ensolarado, céu limpo. Eu não tinha pressa de falar com o Caxias. Nem mesmo sabia se ele tinha alguma coisa, algum trampo pra mim. Me encostei a um poste e fiquei sacando os papos dos caras. Carregar concreto, por um dia que fosse, era mil vezes melhor do que tolerar obras todos os dias, todos concordavam. A grana era muito maior, a dureza era momentânea, e, sendo-se bom de serviço, se fazia o nome. Sempre que houvesse lages, eles seriam lembrados. O trabalho diário amolece a vontade, transforma os peões em morcegos, em chupa-sangue dos patrões! Apresentavam mil e uma razões pra enfrentar a lage.

O chefe da obra, o engenheiro, demorou a dar as caras no pedaço. E chegou apenas para dizer que não precisaria de peões ali. Ele tinha contratado uma betoneira. O concreto já vinha pronto, era só colocar o cano condutor – a bomba – ligar a máquina, e ela jogaria o concreto onde se quisesse. Questão de poucas horas. E a companhia concretadora tinha seus próprios funcionários.

Os enchedores de lages estavam perdendo espaço para as máquinas. Os caras já tinham visto este sistema algumas vezes, em alguns lugares, mas agora estava ficando por demais comum! Preocupante! E as firmas construtoras estavam revestindo as paredes externas com cerâmica, usando argamassa ensacada. Nem os serventes estavam tendo facilidade pra arrumar trampo! E as firmas estavam também colocando janelas de alumínio ao invés de janelas de ferro. E estavam usando vigas de aço ao invés de concreto. Paredes revestidas com cerâmica, janelas de alumínio! Logo, logo estaria também faltando serviço para pintores. Os caras permaneceram sentados durante algum tempo, depois se levantaram, saíram andando. Rostos sérios, não havia motivo para sorrisos. Era o progresso.

 

Entrei na obra do Caxias. Lá estava ele, no escritório. Nunca saía de cima daquelas plantas, daqueles cálculos. Caxias gostava de cálculos, de números! Nascera, ao meu contrário, para ser engenheiro.

—- E então, Júlio César?

—- Vim outra vez em busca de trabalho!

Caxias deu um sorriso pra me deixar à vontade. Disse:

—- Tá mesmo a fim de trabalhar, moço?

—- Pode ter certeza!

Caxias mexeu nuns papéis sobre a mesa. Perguntou:

—- Quando vamos ter as festas de sua formatura?

—- Hi, cara, vai demorar!

—- Mas a teremos, sem dúvida!?

—- Lógico!

—- Ótimo!

 

Foi um saco!

 

Eu não tinha feito pré-matrícula no semestre anterior. Tinha tentado fazer oito disciplinas – pelo segundo período consecutivo – e tinha sido reprovado em sete – pelo segundo período consecutivo! Por isso, meu currí­culo tinha vindo com todas as matérias do semestre anterior, menos uma delas, que só era oferecida no segundo período. Estava tendo problemas pra me matricular no princípio do ano. Queria acrescentar Entomologia Florestal, mas não sabia se havia modo. Minha orientadora tinha viajado, não estava no ginásio de espor­tes. Fui atrás do chefe do departamento de Engenharia Florestal. Também não o encontrei. E eu não podia perder tempo, pois tinha deixado pra fazer a ma­trícula na última hora do último dia. Todo semestre eu fazia a mesma coisa! Se não a fizesse naquele momento, per­deria a vaga na universidade. Eu estava realmente preocupado!

—- Vá atrás do chefe do Registro Escolar. – alguém me disse.

Fui.

O cara era conhecido meu. Expliquei-lhe minha situação. Ele pegou meu currículo, ficou olhando de cabeça baixa durante alguns minutos.

—- Huuumm, huuumm! – fazia ele.

Pausa.

—- Tsk, tsk, tsk!

Pausa.

—-  Tsk, tsk, tsk!

Depois me olhou de baixo para cima com os grandes olhos  pre­tos cheios de ironia. Perguntou, com voz jocosa:

—- Estas são as únicas matérias que conseguiu fazer até hoje?

—- São.

—- E levou sete ferros no semestre passado?

—- Isso!

—- E no atrasado também?

—- Isso!

—- E ainda tá querendo oito disciplinas neste período?!

—- Tô querendo acabar o curso rápido. Uma das matérias que perdi apenas é oferecida no segundo período. Vou colocar outra no lugar.

—- Acabar rápido?! A impressão que se tem é que você nem tem vindo às aulas! Quase só reprovações!

O quê o cara tinha a ver com aquilo, porra?! A universidade não era dele!

—- Vou pegar firme a partir deste semestre.

O sujeito fez mais uma pausa. Depois, disse:

—- A universidade vai recomeçar o jubilamento, sabia?

—- Ah, é? Não sabia!

—- E seu rendimento acumulado parece não ter jeito de ser recu­perado! É desligamento na certa!

—- Será que é mesmo?

—- E, mesmo que você se formasse, com este currículo ridículo não con­seguiria arrumar emprego em lugar algum!

—- Será que não, mesmo?

Silêncio. Dei um suspiro profundo.

O cara ficou calado por um momento, depois, disse, apontando o formulário impresso com os conceitos:

—- Sabe esta matéria aqui?

Adiantei os olhos.

—- Qual?

—- Solos 2.

—- O que tem ela?

—- Você a perdeu no último período!

—- Perdi!

O cara deu mais uma olhada atenta no fomulário, olhou pra mim, franziu a testa, e falou:

—- E no penúltimo também!

—- Também!

—- E neste ela vai ser ministrada por um professor que está vindo dos Estados Unidos! O cara é ferrador!

—- E daí?

—- Daí que os alunos têm de saber mais do que ele!

—- Não se preocupe. Eu vou saber mais do que ele!

O chefe do Registro Escolar, então, arranjou um horário na grade de matérias, acrescentou Entomologia, assinou, fez – hum! -, e me pas­sou aquilo.

O sujeito tinha a cara muito ruim.

 

Era um ato automático de princípio de semestre: primeiro a ma­trícula, depois – ir ao banco para fazer a reinscrição no Crédito Educativo! Se­não, em caso de meu pouco dinheiro ganho nas férias acabar, como ia me ar­rumar? Entre outras coisas, eu preciso dar umas trepadas, beber uns goles! Então fui, me sentei numa poltrona enquanto esperava o atendente se desocupar, e fiquei ali.

Finalmente, me sentei na frente do moço, e ele procurou meus papéis e afirmou não tê-los encontrado, e logo começou com rodeios:

—- Você tem certeza de que já esteve inscrito no programa de crédito educativo?

—- Lógico!

—- Há quanto tempo?

—- Desde a época de sua implantação.

—- Mas eu não consigo achar seus papéis!

—- Eles devem estar por aí, em algum lugar.

—- Então, deixe-me dar mais uma procurada.

O cara se pôs a mexer num monte de páginas no micro, abriu arquivos, fechou arquivos, mexeu, mexeu, abriu gavetas, e disse nada ter encontrado. Fiquei sacando a cara magra do sujei­to. O cabelo negro penteado num pequeno topete para trás. O nariz afilado, pontudo, fundo nos lados.

—- Engraçado, estes papéis deviam estar aqui!

Me acendeu uma luzinha! O banco era federal, a universidade era federal, logo, alguém da direção da instituição devia ter comunicado ao banco que minha situação escolar era muito ruim e que eu não ia me formar e que o banco nunca veria a cor de meu dinheiro!

—- Escute, me parece que o banco não tá querendo refazer mi­nha inscrição, não é isso?

O cara de rato deu um pigarro, fuçou qualquer coisa sobre a mesa e disse, sem me olhar no rosto:

—- Sabe como é, eles sempre colocam algum empecilho!

—- Mas a gerência fica sabendo da situação dos inscritos?

—- O pessoal aqui fica sabendo de tudo!

—- Bisbilhotice?! Que feio!

O cara nada respondeu, eu me levantei e me despedi.

—- Até mais. Deixemos isso pra lá!

—- Não me leve a mal! É que eu nada posso fazer!

—- Tchau!

E, assim, fiquei sem meu Crédito Educativo.

 

Tinha tanto tempo que eu não via o Classe Média! O cara tava realmente levando a sério as decisões que tinha tomado, os conselhos do pai: estudar, subir na escala social, ter  o procedimento correto. Certamente, toda noite antes dormir dava uma lida no bilhete com os lembretes que extraíra do livro de sociologia.

Então, eu estava sentado no D.C.E. e o cara se aproximou.

—- Bom dia, Júlio César!

—- Olá, Bastos!

Ficamos conversando durante algum tempo. Bastos estava alegre. Me disse que ficara muito amigo do sobrinho de um professor titular da universidade. E que às vezes saíam juntos à noite. Que o cara não bebia, não fumava, não se envolvia com mulheres fáceis. Gente boa! E que ia haver uma festa na casa do professor e o seu amigo o tinha convidado pra ir. Ele iria, lógico, e começaria a estabelecer laços sociais de alto nível – o networking. Seu curso estava já quase acabando e ele queria ter em quem se apoiar após se formar.

O cara disse estar impaciente pra chegar a hora da festa. Seu pai lhe tinha ensinado como proceder em sociedade, como pegar em copos com elegância, a comer de boca fechada, a não chupar os dentes, a rir com moderação, a fazer mesuras para as madames. A ouvir com atenção as conversas dos doutores, das pessoas de nível social superior, a não desmentir nenhuma afirmação dos sujeitos, mesmo que estapafúrdias. Era a primeira oportunidade que tinha de pôr estes ensinamentos em prática em sociedade!

O Classe Média estava limpíssimo. De óculos novos, sapatos brilhando, cabelos muito bem penteados. Desejei-lhe felicidades na empreitada. Que se desse bem com as pessoas da sociedade porque delas é a chave do reino dos céus! São elas quem têm as chaves do cofre do dinheiro do contribuinte.

O cara me agradeceu e desapareceu.

 

Uma e meia da tarde. Passo a mão em meu caderno e me dirijo à universidade. Aula de Microbiologia. Aula prática. Estou morto de sono, mas vou mesmo assim. Estou mal na matéria. Paro nas quatro pilastras e fico esperando uma bunda gostosa para seguir até ao campus. Neste horário, bundas boas não são problema. Centenas de alunas sobem a reta a pé. Algumas ficam paradas logo depois das pilastras, no princípio da avenida, esperando por alguma possível carona. Lá estão algumas. Todas bonitas. Fico olhando para as bundinhas delas e logo passa um carro e pára e as carrega. Estas eu perdi.

Mas dou sorte: logo aparece uma pra lá de gostosa e passa direto pelo ponto de carona: vai a pé! É alta, morena, de cabelos caidos nos ombros. Os cabelos estão molhados. Saiu do chuveiro agorinha, certamente. Os peitos pequenos. Usa sutião. Calça esporte branca, muito apertada. Calcinha miudinha. Parece muito séria.

Dou-lhe uns dez metros de dianteira e depois começo também a andar. A moça pisa com passos curtos, rápidos, pisa com os pés ligeiramente espalhados, o que lhe dá ainda mais charme. Tem a cintura fina, trabalhada no torno. Bundinha indescritível! Redondinha, firme, perfeita. Vou lhe seguindo a bundinha, lhe sacando a calcinha, tentando adivinhar a cor de sua calcinha, e tentando adivinhar a forma de sua xoxota: será que tem os lábios lisos ou enrugados? será que é cabeluda? ou talvez com pouco pelo? ou talvez sem pelos? será que tem o testeiro saliente? ou magro? ou mediano? Como será ela nua?

—- Será que a moça é boa de cama? – eu me pergunto.

— É lógico! – eu mesmo me respondo – Deus é perfeito em suas obras!

Então, vou seguindo a bundinha linda da moça e ela vai rebolando e entra num dos laboratórios do prédio de Biologia e eu vou atrás e entro no laboratório de Microbiologia.

 

Foi o Bunda Branca quem me deu a notícia. Era depois do almoço, eu estava sentado no D.C.E., o cara chegou, entrou no barzinho, e pouco depois, saiu com uma lata de cerveja na mão.

—- Quer tomar uma cerveja, bicho?

—- Obrigado, cara! Acabei da almoçar agorinha.

Bunda deu uma longa golada na lata. Disse:

—- E aquela guria que saía contigo, bicho?

—- Cida. O quem tem ela?

—- Você dançou nela!

—- Dancei?! O que você quer dizer?!

—- A gente ia pras férias, ela ia no ônibus, muito amuada. O Antônio Carlos se sentou na mesma poltrona que ela. O cara levantou o astral da menina. Foram no maior papo.

—- Antônio Carlos tem carro. Por que iria de ônibus? O cara mora muito longe daqui!

—- Acontece que o pai dele não tem mais onde ser pão-duro. Não é sempre que ele tem grana pra gasolina. Então, vez ou outra ele viaja de ônibus ou mesmo de carona.

—- E daí Cida ter ido junto com ele?

—- Daí que ela passou todas as férias na casa dele. Ele é podre de rico! Riquíssimo! Mora na mesma cidade que eu. Mora numa senhora mansão!

—- Ela não fica com gente esse tipo de gente que gosta de dominar as pessoas! Não gosta de burgueses. Estava apenas passeando.

—- Passeando?! – Bunda fez um gesto de escárnio e deu uma gargalhada.

—- Eu conheço a moça, cara! Cida é militante feminista. Já leu Simone de Beauvoir, Betty Friedan. Até aquelas militantes mais antigas, dos primórdios do movimento pela emancipação das mulheres! A Lucy Stone, que era do século dezoito! Principalmente a Flora Tristan, que disse que a obra de libertação das mulheres e dos trabalhadores deve ser realizada pelos próprios interessados. Ela estuda baseada nestes preceitos! Ela é maluca pra fazer as cabeças das mulheres que se deixam levar e dos trabalhadores! Nós costumávamos ir ao maior bairro proletário da cidade, e ela tava sempre tentando motivar as donas, as filhas, os filhos dos operários a não serem submissos. Que ganhassem seu próprio dinheiro. Aprendessem uma profissão. Fossem tão independentes quanto possível! Que estudassem! Ela vai implantar as idéias de justiça social, de participação democrática, nas terras do pai dela após se formar, logo que começar a movimentar o terreno!

—- Ha! Ha! – fez Bunda. – Quais terras? – perguntou.

—- O pai da moça tem alguns alqueires de terra. Ela vai se formar, vai fazer um empréstimo bancário, vai movimentar as terras, e vai ser dona de seu próprio negócio, mandar em seu próprio nariz.

Bunda acabou de tomar a cerveja, atirou longe a lata vazia, passou a manga da camisa nos lábios e disse:

—- Ela ficou dois meses na fazenda do Antônio Carlos, cara! Ela dormia com ele! Às vezes eles saíam juntos, passeando de carro. Um Mercedes cinza, conversível, reluzente. Costumavam andar de mãos dadas ou abraçados, também! Ficavam pelos bares nas tardes e madrugadas. Houve um churrasco na fazenda, eu fui convidado, e ela estava lá – e muito à vontade! Ficou o tempo todo na beira da piscina – e com uma tanguinha desse tamaninho! – Bunda fez um gesto de pequenez, aproximando as pontas dos dedos indicador e polegar da mão direita – e sem a parte de cima da tanga!

Bunda me aborreceu!

Fiquei em silêncio e Bunda perguntou:

—- Você comia aquilo, bicho? Boa demais! Moreninha! Engraçadinha! Bonitinha! Com o cabelinho molhado jogado na testa então… E tem jeito de ser muito boa de xoxota!

Talvez notando meu desconforto, Bunda se levantou, entrou outra vez no barzinho e saiu com duas latas de cerveja. Estendeu- me uma delas. Acabei ficando motivado a matar uma lata. Ficamos bebendo e ele ia me falando: que conhecia as mulheres. Elas podiam gostar demais de uma cara pobre – até que aparecesse alguém que tivesse dinheiro! Ou então elas se casavam com o cara pra não ficar pra titia e depois o chifre comia desembolado.

E o Bunda me disse uma coisa assustadora!

—- Eu tenho a impressão que ela já tá morando com ele, bicho! Tá morando com ele num apartamento lá na praça!

 

 

Foi um colega de quarto do Bastos que me contou o que tinha acontecido com o cara na festa na casa do doutor. Ele tinha realmente ido com o sobrinho do bacana. A festa era na garagem da mansão. O pessoal da cidade tinha a mania de fazer as coisas nas garagens! Estavam comemorando a indicação do doutor pra chefe de um dos departamentos da universidade e o aniversário de um dos filhos pequenos do sujeito. Então, o Classe Média che­gou à porta da garagem com o sobrinho do pessoal, a mulher do cara ta­va fritando bolinhos num canto da garagem, o moço o levou até à dona e o apre­sentou. A garagem estava lotada de pessoas de nível social superior, ho­mens e mulheres. Havia também algumas crianças de nível social superior. Ganha­ram um pratinho de salgadinhos, se sentaram no chão e ficaram co­mendo aquilo. Não havia cadeira pra todo mundo. Após algum tempo, se le­vanta­ram do chão, subiram uma escada lateral, o sobrinho do cara o levou pra dentro da casa, pra que ele tivesse uma idéia de como é uma mansão das pessoas de classe social superior. Se sentaram na sala, enorme, de piso mais do que brilhando, os móveis supimpas, e ficaram ali. Ficaram conver­sando. Depois, desceram a escada. Isto, o próprio Classe Média tinha contado pro colega de quarto dele: desceram a escada, e pararam à porta da gara­gem. Bastos queria tomar um copo de cerveja apenas para que o pessoal de nível social superior, ou seja, da sociedade, visse que ele sabia pegar no copo com classe, sabia sorver o líquido sem fazer barulho, enfim, que ele tinha bons modos – sabia proceder em sociedade. Nem gostava de bebidas alcoóli­cas. Então, o Bastos falou pro sobrinho do cara:

—- Vamos tomar uma cerveja para lavarmos a boca?

O doutor estava mexendo nuns troços sobre uma mesa, de costas para os dois, e falou alto, sem que ninguém lhe dirigisse a ele:

—- A cerveja acabou!

Ficaram em silêncio. O sobrinho do bacana disse:

—- Vem comigo, bicho! Vamos voltar lá pro primeiro andar!

Tornaram a subir as escadas, voltaram para o primeiro andar, entraram na mansão, o cara pegou um litro de conhaque, pegou um copo, pôs uma dose e estendeu aquilo pro Classe Média, dizendo:

—- Pra você lavar a boca, meu amigo! Leva pra tomar no aloja­mento. A cerveja acabou!

Então, o Bastos falou:

—- Vamos embora? Vamos dar uma volta na rua?

—- Vamos embora, bicho!

Tornaram a descer a escada. Tornaram a parar à porta da gara­gem. O que viram?! O doutor com uma garrafa de cerveja na mão direita e outra na mão esquerda! E o cara tinha dito que a cerva tinha acabado!

Classe Média ficou extremamente sem graça! Era primeira vez que ousava pôr os pés na casa de um figurão, tivera o cuidado de proceder di­reitinho e levara ferro! O cara deu um jeito de sair de fininho, pegou a rua e desapareceu! Jogou o copo com a birita fora. Os colegas de alojamento des­confiaram que tinha acontecido alguma coisa. Ele fizera tanta propaganda da festa e voltara muito jururu! Poucos dias depois, ele contou. Pediu que nin­guém falasse fora do quarto. Sua moral ia cair. O pessoal morreu de rir! Este negócio de classe alta, de sociedade, é um troço muito sério!

 

Princípio de período letivo.

Começo de tarde.

Havia sol na tarde. Sol fraco, de final do dia. A universidade es­tava alegre, festiva. Bem-ti-vis saltitavam sobre os gramados e cantavam nos cimos das palmeiras. Pardais faziam a algazarra de sempre entre as folhas das magnólias. Cães se esticavam indolentes nas portas dos prédios, sobre os gramados, como se fossem os donos do pedaço. O dia ia embora.

Estudantes retardatários passavam com seus catálogos gerais nas mãos. Iam renovar as matrículas, regularizar suas situações. E calouros aos montes. Eu estava sen­tado no D.C.E., sob o pé de champagnat.

Bunda se aproximou, com aquele sorriso manjado, os dentes todos à mostra:

—- E aí, cara, tudo bem?

—- Tudo.

—- As férias foram legais?

—- Muito!

—- Vamos tomar uma cerveja?

—- Eu não. Agora realmente não tô a fim.

Bunda parou de sorrir, ficou por um momento me encarando. Provavelmente percebeu meu dilema. Disse:

—- Vim apenas pegar meus papéis, bicho! Vou partir pra uma universidade particular. Aqui tá muito pesado!

—- Eu também tô achando.

—- Não quer mesmo tomar uma cerveja?

—- Não, agora não.

—- Então, depois a gente se vê.

—- Tá legal.

Se foi.

 

Fiquei pensando: o que eu ia ficar fazendo na universidade, porra? Eu sabia que não teria saco pra tolerar aquelas merdas todas, aqueles carrinhos idiotas de cinemática, as equações, da física, as mais de mil fórmulas das químicas, aqueles odores horríveis dos laboratórios, e mais numeros de cálculos e… e o quê? E mais os professores bobos, de nariz empinado, de peito estufado, e… mais inda o quê? E ainda havia todas aquelas disciplinas pra cursar! Eu não ia conseguir fazer tudo aquilo! Na verdade, eu não queria nem ver aquelas merdas na minha frente.

Eu tava perdendo minha vaga na universidade, não ia renovar minha matrícula, mas sabia que não havia outro modo. Continuei debaixo do pé de champagnat.

 

Classe Média passou pela reta. Ia sério, de nariz empinado, os óculos na ponta do nariz, a roupa muito bem passada, muito limpa, o cabelo bem cortado, sapatos brilhando. Sem dúvida, estava terminando o curso. E talvez fazendo poucas disciplinas. Leva­ra a sério os conselhos tirados do livro de Sociologia: mantivera a honradez, não jogara, evitara as mulheres fáceis e, provavelmente, mesmo as difíceis, o álcool, o fumo, e fora sempre pontual em seus compromissos. Depois, ia cor­rer atrás do mestrado. E depois, do doutorado. Logo a seguir, emprego! Tal­vez alguma empresa corresse atrás dele. Ou uma universidade! Assim o cara desejava. E, a seguir, ia só subir na vida! A classe média só pensa nisso! Ar­rumar bom emprego, juntar dinheiro, comprar carrão, casar com mulher boa de bunda, de preferência rica, alcançar posição social. Comprar iate, fazenda, se possível até avião! E ia poder entrar na casa das pessoas da sociedade pra tomar o que quisesse – cerveja, pinga, café… um monte de coisas!

Eu tinha a grana da matrícula no bolso. Continuei sentado no D.C.E., sob o grande pé de champagnat, e o dia foi morrendo, a noite vinha descendo, e alguns caras se amontoaram nos pequenos bancos de concreto pra tocar violão e cantar e beber cerveja.

Não renovei minha matrícula.

 

Depois, foi a vez do futuro doutor-sapateiro se aproximar de mim. Foi ao barzinho, comprou um refrigerante, sentou-se ao meu lado:

—- E aí, menino? Renovou sua matrícula?

—- Não. Decidi não mexer com este curso mais não!

—- Sempre achei mesmo que você não tinha queda pra essas coisas!

—- É mesmo?!

O cara deu uma risadinha. Estava satisfeito. Tinha voado na gra­de de matérias. Seguira o currículo e ainda fora mais além, adiantando o curso. Fizera sapatos e um curso superior: estava quase completando a Enge­nharia Florestal!

—- Você não ia se formar mesmo não, cara! Você é vagabundo demais! Muito vagabundo!

Não respondi. O cara deu mais uma golada no refrigerante e disse:

—- Em toda porta de boteco em que eu passo, ou em qualquer bar em que eu entro, você está!

Fiquei em silêncio. O sapateiro foi chupando o refrigerante até que acabasse. Perguntou:

—- Você já fez bastante bagunça em sua vida, não já, Júlio?

—- Fiz e continuo fazendo! Ainda não tô morto, cara!

—- Já trepou muito?

—- Lógico!

—- E bebeu alguma pinga?

—- Lógico!

—- E pitou algum baseado?

—- Também!

—- Muda para o curso de Letras. Você trabalha no meio das pes­soas de nível social inferior. Essas pessoas são agredidas, espoliadas continu­amente! A literatura é baseada em confrontos, em conflitos!

—- E daí?

—- Daí que depois você escreve livros! Basta que você estude muita teoria literária. E aprenda as manhas dos escritores: observar as pessoas, a natureza, o mundo como um todo. Você pode ganhar muita grana com isso, cara! Você já viveu muito! Primeiro viver – depois escrever! Acho que histó­rias você tem de sobra!

Fiquei maluco para aquele sujeito desaparecer e parar de me en­cher o saco! Disse, com desinteresse:

—- Ah, é? Então, vou pensar nisso!

—- Já leu alguma coisa de literatura americana, Júlio César? Es­tudou alguma coisa disso?

—- Às vezes leio algum livro.

—- Vários dos grandes escritores americanos eram operários. Sabia?

—- Não!

—- William Faulkner era pintor de paredes!

—- É mesmo?! Não sabia!

—- Pois era! Colega seu! E ele chegou a ganhar o Prêmio Nobel, menino! E revolucionou a literatura mundial com seus escritos pouco ortodoxos! Incrível, não?

—- É mesmo!

O sapateiro era mesmo foda!

—- E John Steinbeck era pedreiro! Ele também ganhou o Prêmio Nobel! Falando dos deserdados pelo avanço da tecnologia na agricultura. Na desumanização da sociedade!

—- Impressionante!

—- E Sinclar Lewis tinha um monte de profissões baixas! E es­crevia como um Deus!

—- Nossa!

—- E Mark Twain trabalhava num barco que subia e descia o Mississip. Antes, foi pintor autônomo – outro colega seu! Foi marinheiro – seu sonho desde criança – e, depois, comandante! E ficou famosíssimo como es­critor!

Dei um suspiro profundo. O sapateiro estava descarregando a alegria dele toda em cima da minha tristeza!

—- E Jack London?! Passou fome, foi pirata de ostras, foi bam­burrador de ouro, operário de fábrica! Depois, começou a escrever – e aos quarenta anos estava podre de rico! E ficou famoso para sempre!

Eu estava apavorado com aquele cara. Se ele se demorasse muito, falaria os nomes de todos os escritores americanos e meu saco ia estou­rar!

Mas ele parou em Jack London. Se levantou, deu uma espregui­çada e disse:

—- Pense no que estou lhe dizendo. Você merece se dar bem! É um bom menino!

—- Pode deixar!

O cara então sumiu. Foi embora. Provavelmente foi fazer sapa­tos.

Eu também não me demorei na universidade. Levantei-medo banco. Pus o pé na reta.

 

Desci pra cidade.

 

Altivo se levantou como que para ir embora. Em absoluto silêncio. Demorou a abrir a boca.

—- De modo que, depois do SENAR, nada feito. Nada mais apareceu. Fiquei definitivamente desempregado!

O engenheiro ficou olhando com raiva pro calçadão, segurando a pasta preta onde carregava o catálogo com as amostras de bebidas, e depois, disse:

—- Mas não estou frustrado, não, moço! Quando trabalhei no SENAR, deixei marcas de minha competência. Todos os meus alunos me adoravam. Me chamavam de professor!

Ficamos em silêncio e o professor fez que ia embora, deu uns poucos passos para a frente, deu os mesmos poucos passos para traz, e divagou:

—- Mas eu não sou o único que se formou com dificuldades e se fodeu, não, cara! Eu conheço vários ex-alunos que estão comendo capim em firmas pequenas, vendendo insumos agrícolas, máquinas agrícolas, fertilizantes, porque não se empregaram. Alguns viraram donos de botecos, de lojas de produtos baratos, ou mesmo se tornaram funcionários públicos de baixo escalão, porque não tiveram como devolver ao povo o dinheiro que ele investe na aquisição de conhecimento dos estudantes nas universidades.

Altivo ia falando e apertando a alça da pasta com a mão direita, e eu notava que ele estava muito puto com aquele catálogo de produtos baratos na mão. Ele:

—- Eu sei de um ex-aluno que se tornou dono de motel em beira de estrada! Se formou pra mexer com putas, com caras bêbados e drogados, porque não é parente de ninguém, na época da ditadura militar nenhum parente seu fez a cama, puxou o saco dos milicos, preparou o terreno pra família se arrumar! Agora, ele tá lá, tolerando ouvir os gemidos dos caras gozando a noite inteira em seus ouvidos. E a mulher morrendo de ciúme, com medo que alguma metedeira ponha as mãos em seu doutor.

Altivo deu outra vez uns poucos passos pra frente, parou, deu os mesmos poucos passos pra traz, e parou. Disse:

—- Mas, em compensção, eu conheço inúmeros filhos de papai, parentes de doutores, de professores, que estudaram nas coxas, fizeram as matérias tocadas, na certeza de que se empregariam logo após a formatura e, de fato, foram acabando de pegar os canudos e entrando em empregos!

—- Em todo caso, eu ainda tive a felicidade de terminar um curso superior. Tive esta glória, esta coragem. Pior é o povo, que nem sabe ler direito. Nem tem oportunidade de aprender direito.

….. reapareceu à porta e gritou, com raiva:

—- O POVO TÁ FODIDO! FODIDO! ELE NÃO TEM COMO DEIXAR DE PAGAR OS IMPOSTOS!

Enfim, desapareceu.

 

Continuei bebendo e pensando: o Altivo tava fodido mas ao me­nos tinha conseguido uma esposa. E provavelmente bonita, porque ele ERA um engenheiro-agrônomo, porra! e o cara chegava em casa, tomava um ba­nho pra tirar o cheiro de pinga, jantava e ia pra cama com a esposa. Então, ele abria as apostilas com as disciplinas que tinha cursado na agronomia (ele devia ter guardado as apostilas, porque tinha sido um aluno diligente) e ia fa­lando com a esposa, contando pra ela sobre as experiências genéticas de Mendel, o ciclo de Krebs da Bioquímica, aquelas merdas todas de outras disciplinas, e ela deitava a cabeça no ombro do engenheiro-vendedor de pinga e dizia:

—- Oh, que ótimo, que marido inteligente eu arrumei!

E, mais tarde, antes de dormir, eles trepavam.

De manhã, no outro dia, o engenheiro passava a mão em sua pasta, dava um beijinho na esposa, e ia vender mais pinga e bebidas ordinári­as!

—- HA, HA!

Emocionante!

 

Fiquei bebendo até não sei que horas. Até acabar o dinheiro da matrícula. Era alta noite já quando saí dali. Estava torto! Tortíssimo!

Estava puto! Triste! Cheguei ao meu quarto de madrugada, me deitei, acordei de manhã na maior ressaca, fui a um boteco, bebi outra vez, à tarde acordei de ressaca, fui ao boteco, bebi outra vez, voltei pro meu quarto, me deitei, no outro dia acordei de ressaca, fui ao boteco e bebi outra vez e…

Fiquei muitos dias indo ao boteco e bebendo e dormindo e acordando de ressaca e indo ao boteco e bebendo e dormindo e acordando de ressaca e…

E, assim, me despedi do curso de Engenharia Florestal.

De modo que foi isso: eu não tinha conseguido!

 

O pessoal da obra foi complacente comigo. Eu costumava ir à construção nos princípios de semestre para fazer graça com os caras e daquela vez cheguei sem cadernos, sem livros, de cara amarrada. Provavelmente todos já estivessem sabendo que eu estava fodido na universidade. Cheguei, entrei pelo portão, parei por algum tempo, alguns dos caras me olharam em silêncio, e me dirigi para o escritório. Lá estava o Caxias, sentado atrás de uma  escri­vaninha.

—- Deu sorte, Júlio César!

—- Por quê ?

—- Nós íamos mesmo colocar uma placa pedindo pintores. Há muito serviço, falta mão-de-obra na cidade. Você chegou em boa hora!

—- E por que você sabe que vim em busca de serviço?            Caxias mexia nuns papéis e assim ficou. Lógico que o cara sabia! Fiquei olhando pra cara do cara. Os óculos de fundo de garrafa. O rosto sério, inchado. O cabelo ralo, com um pequeno topete caído na testa.

Ficamos em silêncio e ele disse:

—- Venha comigo. Vou lhe mostrar o serviço.

Fui com ele. Subimos pelo guincho.

Havia uns caras lixando as paredes pra passar o selador que fa­zia o fundo para a pintura em alguns dos andares.

Entramos em um apartamento vazio, com as paredes no ponto de lixa e pintura. O Caxias me tratava com todo o cuidado.

—- Acha que vai ter coragem de enfrentar este serviço, Júlio Cé­sar? Lixação de parede é muito desagradável!

—- Pode deixar comigo. Eu vou.

—- Use uma lixa mais grossa. Número oitenta. As paredes fica­ram bastante ásperas. Depois você arremata com uma mais fina. Facilita para a massa corrida.

—- Tudo bem.

Dobrei a folha de lixa em quatro. Comecei a lixação. O Caxias se colocou de lado e ficou me observando por algum tempo. Depois, desapare­ceu.

 

O bispo da igreja do Arlindo tinha sido empregado de uma com­panhia telefônica. Não sei se era escriturário ou se trabalhava em cima de es­cadas na rua. Ou se trampava nas galerias subterrâneas. Era empregado de uma companhia telefônica. Mal relacionado socialmente, lógico, porque a “sociedade” não ia se relacionar socialmente bem com um reles empregado de uma companhia telefônica. E o cara possivelmente não era parente de ne­nhum membro do Lions nem do Rotary nem de nenhum reitor nem de pró-reitor nem de professor universitário nem de mulher de professor e nem de chefes de departamento e nem de políticos nem de qualquer outro tipo de pes­soas importantes! Então, como estava na pior e precisava ganhar dinheiro, re­solvera se ordenar bispo por conta própria. Deu uma lida na bíblia e começou a pregar a palavra de Deus lá do jeito dele. E ensinara as marretas para um monte de “pastores”. Muita gente acreditou na conversa do cara. E, após co­locar milhares de pessoas falando aquelas palavras de ordem, mudara para o exterior. Tinha comprado mansões, uma rede de televisão, um banco, e inú­meros imóveis. E espalhara templos por todo o país. E estava estendendo os tentáculos no exterior. Encanara a perna. Os filhos do cara também tinham fi­cado numa boa. A mulher também, lógico! Os pastores do bispo também ga­nhavam uma grana maneira, sem dúvida! Muita gente levava dinheiro para eles, quase todos os dias, porra! Depois, provavelmente, eles dividiam a grana com o bispo. No exterior, o bispo andava de lancha. Frequentava ótimos res­taurantes. Rodava em carrões. Morava em um super-condomínio fechado, com dezenas de seguranças! Possivelmente trepava com boas mulheres. E começara a ser bem aceito socialmente, lógico!

 

Era manhã, a hora em que Cida entrou na obra. Chegou até ao apartamento onde eu trabalhava. Eu estava em cima da escada, tinha a de­sempenadeira de aço em uma das mãos e a espátula na outra. Estava catando uns buracos no teto. Ao me abaixar para começar a descida, dei com os olhos da moça em meu rosto. Usava uma sáia novinha, cor-de-rosa, transparente. Dava para se ver a calcinha. Não tinha mais aquela ridícula fitinha ensebada no tornozelo. O cabelo, ainda encaracolado, mas dava para se ver que tinha passado por tratamento de luz no cabeleireiro. Dois enormes brincos dourados pendiam das orelhas morenas. Ficamos nos olhando por algum tempo.

Interrompi meu movimeto.

Permaneci em cima da escada.

—- Você desapareceu, Júlio César!

—- Tô por aí mesmo!

—- Tá tudo bem com você, Júlio César? – perguntou.

—- Tá tudo bem.

Cida correu os olhos pelas minhas roupas sujas de pó, de tinta.

—- Vim lhe trazer um convite de minha formatura.

Fiquei em silêncio olhando pela janela.

—- Gostaria muito de te ver no ginásio. Vai ser uma festa muito bonita.

Olhei para ela.

—- Há um convite para o baile também.

Para o baile!? Por um momento pensei que a moça estivesse de­bochando de mim.

Continuei olhando para ela.

—- Posso esperar você?

—- Vou fazer força.

Cida ficou me olhando. Perguntei:

—- Como descobriu que eu tava trabalhando aqui?

—- O Antônio Carlos já o viu entrando várias vezes neste prédio. Ele tá morando logo aqui na frente.

Eu sabia que ela tava morando com ele!

Cida correu os olhos pelas paredes do cômodo, pelas minhas roupas e disse:

—- Júlio, eu fiz sua inscrição para o curso de Letras. Basta que você faça o vestibular.

Fiquei calado. Fiquei sacando o corpo de Cida. Ela nunca fora de se jogar fora, mas depois que começou a sair com o Bobão, ficara muito me­lhor. Mais esbelta, mais refinada, mais distinta, mais o quê? Mais tudo de bom! Até os peitinhos maravilhosos pareciam mais empinadinhos. Gostosi­nha!

—- Você viu o que que a polícia fez com os operários na favela outro dia, Júlio? Meteram o pau nos caras, mataram um deles. Se você esti­vesse lá, e com um diploma de curso superior, provavelmente eles não mexe­riam com você! O diploma faz muita diferença!

Fiz um gesto de assentimento com a cabeça, mas não disse ne­nhuma palavra.

—- Cadê a chave do meu quarto? – perguntei.

—- Oh, me esqueci dela! – Cida exclamou, pondo a mão direita na testa – Depois a  trago pra você. Ou então a enfio debaixo da porta de seu quarto mais logo.

—- Certo.

Fiquei olhando o corpo de Cida e nem acreditando que eu já ti­nha me deitado em cima daquelas carnes. Enfiado o peru naquela bundinha. Lambido aquela beleza de xoxota. Rangado inúmeras vezes aquela pererequi­nha. Mordido aqueles peitinhos. Passado a língua naquelas curvas todas. Mas de fato eu já tinha feito tudo isso!

—- Vou embora. Vou descer.

—- Quer que eu a acompanhe até lá embaixo?

—- Pode deixar. Não é preciso.

Cida atravessou o cômodo, deu uma olhada na rua lá embaixo, pela janela, voltou para a porta, deu mais uma olhada em meu rosto e disse:

—- Tchau, Júlio!

Fiquei observando Cida se afastar.

—- Tchau – respondi baixinho.

 

Esperei Cida sair do prédio, depois, desci da escada, me encostei ao batente da janela e fiquei vendo as pessoas andando na rua, lá em baixo.

O sol batia bonito nas fachadas das casas, nas folhas das árvores, nas pedras do calçamento, mas eu não conseguia enxergar nada de beleza na­quilo.

 

Fiquei olhando a rua, os carros, as pessoas, lá embaixo…

Lá embaixo…

 

A reta se encheu novamente de carros. De gente. De alegria. De festas. Mais uma formatura. Era para ser também a minha. Cida ia pegar seu canudo. Antônio Carlos – o Bobão – ia pegar seu canudo. Válber, o lambedor de xoxotas de putas, ia pegar seu canudo. Até Zezete, a maluca, já tinha pe­gado o seu e desaparecido! Centenas de caras iam pegar seus canudos. Douto­res!

Fiquei bastante tempo sentado na grama. Ressaca!

Quando os carros pararam de passar para o ginásio, e as pessoas rarearam na reta, me levantei. Gritei:

—- PORRA!

Desci para a rua.

Fiquei zanzando pela noite.

A noite… Os bares… Os botecos…

Em um deles, um bêbado dizia, a voz anasalada, fina, apertando a garganta com as pontas dos dedos:

—- Eu perdi, sim? Desculpe, sim? Eu sei que eu perdi!

Depois, repetia, vagarosamente, escandindo as palavras:

—- Eu… sei… que… eu… perdiiiii…

O que será que ele tinha perdido?

Será que eu também tinha perdido alguma coisa?

Fiquei bebendo.

 

Havia muita algazarra dentro do bar, mas eu estava completa­mente absorto.

A mulher tinha me tocado o joelho, agachada à minha frente, mas eu nem tinha me apercebido disso. Ela disse:

—- Hei, cara! Tá com algum problema? Tem muito tempo que você tá olhando pra aquele ponto ali sem mover os olhos ou a cabeça!

A moça tinha segurado meu joelho, e o balançou. Olhei pra ela. Vi que também estava torta. Era branca, magra, os cabelos castanhos cachea­dos caídos na testa. Lábios sem pintura. Saia curta.

Ela insistiu:

—- Tá com algum problema?

Não respondi. Apenas olhei pro seu lado e virei lentamente o rosto.

—- Não quer minha companhia? Eu não quero terminar minha noite sozinha, bicho!

Fiquei olhando pra ela.

Ela pegou meu queixo, puxou meu rosto pro seu lado e disse:

—- Eu moro sozinha. Vamos pro meu quarto, bicho. Eu tenho uma geladeira cheia de bebidas. E eu enrolo um baseado massa pra nós, cara! Se você preferir uma carreirinha…

A maluquinha!

—- E a gente pode dar a trepada mais gostosa! A gente pode tre­par a noite inteira, bicho!

A fisionomia da moça era suave. Traços finos, perfeitos. Mas apenas respondi:

—- Hoje não, por favor!

—- Por quê?

Fiz um gesto de impaciência:

—-  Eu quero ficar sozinho! Eu preciso ficar sozinho! Por favor!

A moça ainda demorou algum tempo antes de se levantar e se ir. Antes, me encarou bem dentro dos olhos durante alguns minutos. Depois, de­sapareceu cambaleando.

 

Minha cabeça zunia quando acordei. Ouvia passos de pessoas lá fora. Passos apressados. Conversas à meia voz. Hesitei antes de abrir os olhos. Finalmente, abri. Pelas frestas da porta, entrava a luz da tarde. O quarto na penumbra.

—- Olá, Júlio?

Cida! Havia entrado no quarto enquanto eu dormia! Estava sen­tada num canto, os cabelos bonitos caindo ao lado do rosto, a saia florida le­vantada até os joelhos. Os dentes branquíssimos, a pele morena. Linda! E as coxas! E os enormes brincos de argola!

—- Tá de ressaca outra vez?

Não respondi. Fiquei olhando para a cara bonita de Cida.

—- Tô indo embora. Vim  trazer sua chave.

—- E o churrasco de formatura? – perguntei, com esforço.

—- Não vou. É muita bagunça.

Cida ficou me encarando fixamente, em silêncio. Eu fiquei olhan­do pra ela. Eu sabia o que ela estava pensando! Estava se lembrando de tudo que tínhamos feito durante o tempo que ficáramos juntos: as trepadas, as be­bedeiras, os amassos, as andanças. O vento soprando e a lua… as estrelas… a luz do sol… o cheiro de mato… os grilos cricrilando… os pássaros… os cre­pús­culos… as estradas poeirentas… às vezes o barro… as conversas com as senhoras dos trabalhadores.

Tudo!

Agora ela tinha de ir embora. Ia se casar com um ricaço, a moci­nha. Ia andar de Mercedes, a feminista. Morar em mansão. Ter um monte de empregados. De vez em quando, molhar a bunda na piscina. Herdeira das idéias da Simone de Beauvoir, da Betty Friedan! Não ia engordar nem ficar com os peitos caídos. Não ia pôr as mãos na massa pra fazer bolos nem ficar contando os tostões pra tratar da família nem precisaria aprender trabalho de agulha nem lavar roupas e nem o que mais constitui prenda do sexo feminino!

E ia deixar para os filhos alguma coisa mais do que um monte de tijolos vermelhos na frente de um barraco e uma charrete velha com os arreios apodrecidos.

Mas Cida não estava alegre.

Fiquei lambendo o rosto de Cida com os olhos.

 

Cida deu um suspiro profundo. Disse:

—- Júlio, tira minha calcinha?

Eu me levantei um pouco da cama, Cida se aproximou e eu lhe puxei a calcinha, lhe puxei a saia pela cabeça. Sem sutiã!

A moça se deitou.

Me sentei ao lado de Cida e fiquei passeando os olhos pelo seu corpo. Era o mesmo corpo moreno que eu já havia lambido, apertado, chupa­do, amassado tantas vezes. Só que parecia muito mais gostoso.

Cida me pegou os ombros, me puxou contra seu corpo e eu me deitei sobre ela. Cida beijou minha boca babenta com força e nós ficamos ali. Me passou os dois braços em volta do pescoço, as duas pernas em volta do tronco, e nós ficamos trepando bem devagar, gostoso, gostoso. E eu ia lam­bendo as bochechas de Cida e Cida ia gemendo e falando umas bobagens nos meus ouvidos, como uma puta de Zona, e me enfiando a língua dentro da boca e me passando bem devagar as mãos pelo corpo, pelas costas, pelas per­nas, pela bunda, e peneirando, eu ia apertando os peitinhos de Cida e pene­trando a xoxota macia, apertada, de Cida, e buscando os cantinhos, e Cida gemendo, dizendo:

—- Queria que isto não terminasse nunca, Júlio! Nunca!

Depois a xoxota de Cida ficou completamente molhada, mas nós não paramos e eu lhe segurei as nádegas para encaixar nela com mais força o peru e ela começou a gemer alto outra vez, suspirando: — Vou gozar mais, Júlio! Outra vez!

Então, Cida gozou outra vez e eu continuei lhe penetrando a xoxota e ela estendeu as duas pernas sobre a cama, e sua xoxota ficou extre­mamente apertada e ela deu um grito e eu dei um grito e gozamos e nos apertamos com toda a força e caí de lado.

O suor escorria pelo meu corpo. Minha cabeça ainda zunia. De fora, vinha o barulho de pessoas passando na calçada. De carros em movi­mento. Fiquei de olhos fechados e sentia a claridade atravessando minhas pál­pebras.

Cida se levantou. Ouvi o farfalhar de sua roupa sendo vestida. O ruído de seus sapatos sendo calçados. O barulho do fecho de sua bolsa sendo aberto e o deslizar do pente pelos seus cabelos.

Depois, se sentou ao lado de meu corpo, passou a mão direita em minha testa molhada, em meus cabelos. Disse:

—- Júlio César?

Olhei para os olhos castanhos tristes de Cida.

—- Você vai fazer aquilo que eu lhe disse, não vai?

Encolhi os ombros num gesto de desconhecimento:

—- Você vai voltar pra universidade, bicho! Volte pro curso de Letras. Você é poeta, cara!

Quase Cida em fez rir! Poeta?!

—- Todos os poetas são malucos, cara! Beberrões, fodidos!

Cida nunca esteve tão linda!

—- Depois você escreve livros! Vai se dar bem!

Eu nunca ia me esquecer da imagem bonita dos cabelos casta­nhos de Cida lhe caindo pelo rosto moreno!

—- Diga alguma coisa, Júlio! Você me promete?

Vacilei em responder.

—- Promete, Júlio?

Cida tinha a voz chorosa!

—- Prometo! – disse, baixinho.

—- Eu ainda quero ler livros que você escreveu.

—- Pode deixar!

E Cida continuou a me passar devagar a mão direita pela testa, pelos cabelos, pelas bochechas. Depois parou e fez silêncio. Ficamos no mais profundo silêncio, um olhando com a mais profunda ternura para a cara do outro.

Cida deu um suspiro profundo. Disse:

—- Vou embora daqui a pouco com minha família.

Fiquei calado.

—- Eles não querem ir nem ao baile nem ao churrasco. Eles não gostam de festas!

Continuei em silêncio.

Cida deu outro suspiro muito profundo, ficou olhando fixamente pro meu rosto, e disse:

—- Daqui a quinze dias vou me casar com o Bobão.

Abaixei os olhos para meus pés e nada respondi.

 

Depois, Cida se dobrou sobre meu corpo, deu um beijo bem rá­pido em minha boca e disse, os olhos marejados:

—- Adeus, Júlio!

Não respondi.

Virei-me de bruços. Cida se levantou, abriu a porta, e a puxou pra fechar e passar a chave. Fiquei ouvindo Cida tentando encaixar a chave no buraco da fechadura. Depois, ouvi a chave deslizando pra dentro do quarto, por debaixo da porta. Ouvi os passos de Cida se afastando com pressa. Eu ouvia passos e conversas de outras pessoas na tarde. Barulhos de carros pas­sando na rua. Tristeza no quarto e na tarde da rua.

Então, coloquei o travesseiro sobre a cabeça e puxei o cobertor sobre o corpo. Eu estava suado. Fazia calor, mas, mesmo assim, me cobri com o cobertor.

Dobrei o braço direito sob a testa e me afundei no mais profundo torpor.

E fiquei sozinho na penumbra do quarto, no escuro de meus pensamentos.

Eu estava tremendo.

Fazia calor, mas eu tremia.

Então, dei um suspiro tristonho.

E chorei.

 

 

A RELVA NO CAMPO

Eu pensei que tivesse dado sorte. Eu tava pintando um apartamento pra um colega meu num prédio na praça central, e aí ele entrou com um cara bêbado bem vestido no apartamento, os caras en­traram em todos os cômodos, olharam o carpete bem protegido por jor­nais, observaram se eu tinha feito um recorte maneiro nas ferragens junto aos vidros e na junção do teto com as paredes, e o bêbado ia cambaleando, tropeçando nos jornais e escorando as mãos nas paredes e depois os caras foram cochichar na cozinha.

Não demorou muito e meu patrão me chamou lá e me apre­sentou pro bêbado e falou que eu era um rapaz muito esforçado, porque trabalhava e estudava e tinha abandonado um curso de Enge­nharia Florestal por absoluta in­compatibilidade de gênio com as matérias e tinha rein­gressado na universi­dade pra cursar Letras, que era um curso mais de acordo com meus propósitos.

O bêbado esfregou os olhos, deu uma cuspida nos ladrilhos do chão e gaguejou:

—- Vo… você trabalha pra… pra qualquer um, Júlio?

—- Trabalho, lógico! Tô sempre correndo atrás de serviço, moço!

—- Vou… vou… vou deixar meu… meu endereço com você! Me… me… procure de vez em quando… que… que sempre tenho serviço!

—- Oh, ótimo!

O bêbado, então, tirou um cartão do bolso da camisa e me passou. Em seguida, os caras se despediram de mim e desapareceram.

O porteiro tava sentado cochilando na portaria, quando desci pra almoçar. Parei ao lado ele, enxugando as mãos na camisa, e disse:

—- Pô, cara, dei a maior sorte!

—- Por quê?

—- Sabe aquele cara que entrou aqui, acompanhando meu patrão?

—- O bêbado?

—- É.

—- O que tem ele?

—- Me disse que gostou muito de meu trabalho e que sem­pre tem serviço de pintura e vai me dar preferência. Vou trabalhar com muita freqüência! Sou calouro de Letras na universidade e sempre vou ter grana pra comprar livros e materiais escolares.

O porteiro esticou as pernas, deu um suspiro, e disse:

—- Pô, cara, você deu o maior azar!

Assustei-me!

—- Por quê?

—- Esse cara é um dos maiores pinguços da cidade e o maior explorador da mão-de-obra dos operários. Se ele fosse bom pa­trão, teria um pintor exclusivo. Não estaria lhe oferecendo serviço. Há tanta gente precisando trabalhar… A grana que você vai ganhar na mão dele mal, mal vai ser suficiente pra você comprar algumas cane­tas…se é que você vai conseguir receber!

O Bêbado era foda! Nem gostava que eu me sentasse nas cadeiras do escritório e ainda me chamou pra pintar a casa dele! Fui assim mesmo. Qualquer tostão que caísse era bem-vindo, eu tava na pior. O cara em mostrou a casa, havia também uma quitinete nos fun­dos do terreiro. O patrão queria tudo supimpa. Havia ainda uma es­ca­da, uma garagem. Muita coisa. Pintei aquilo. Demorado.

Meu patrão bêbado apreciava sobremaneira um carteado. Eu observei. Juntava os vagabundos que moravam na vizinhança e pu­nham mãos à obra. Bebiam todos e todas. E gritavam e davam murros na mesa. Vida feita. E fritavam carnes e cebolas envoltas em papel lami­nado. Era bom pras vistas, alguém afirmou. Comiam aquilo.

Meu patrão era exigente. Me ordenou que eu não me apro­ximasse do terraço quando ele estivesse jogando baralho e bebendo pinga e cerveja e uísque com os amigos. Não gostava de ser incomoda­do. Se precisasse tirar alguma coisa lá, tinha de ser antes de começar a jogatina. A presença de pessoas estranhas tira a concentração, perturba.

—- Tá certo! – eu respondi.

Demorei naquilo, naquela pintura. Naquela merda. Termi­nei numa sexta-feira. Fui no sábado de manhã buscar minhas ferra­mentas. Estavam no terraço. Pensei que pudesse colocar os pés no ter­raço, pois não havia ninguém jogando baralho nem bebendo no lugar. Nem batí à porta da cozinha. Estava fechada e eu ia mesmo apenas passar a mão em minha lata de ferramentas e cair fora. Assim fiz.

Pode parecer implicância minha com a mulher, mas não era. As aulas da dona – da Prima-não-Chefe – eram chatas, eu não era o único que dizia isso, e eu sempre tomava umas pinguinhas antes de ter de enfrentar aquilo. Fazia a cabeça, chegava à sala, me debruçava so­bre o tampo da carteira, e ficava ali. É lógico que a professora notava que eu tava bêbado, mas nunca falou.

Certa noite, ela estava particularmente insuportável. A dona tava achando que meu ouvido era paiol, porra! Afirmava a toda hora que a literatura, assim como a língua portuguesa, era uma coisa linda, maravilhosa. E eu estava particularmente bêbado. Deitei a ca­beça sobre o tampo da carteira e adormeci. Acordei com alguém me cutucando com a ponta da caneta:

—- Hei, cara, a professora tá falando com você!

Acordei sobressaltado. Balancei a cabeça. Olhei pra pro­fessora. A turma estava toda olhando pra mim.

—- Júlio César!

—- Sim, senhora, professora!

—- A resposta pra esta pergunta que estou lhe fazendo?

Eu não sabia, lógico! Chutei:

—- Ah!… é que a língua portuguesa é uma coisa maravi­lhosa! Muito linda mesmo!

A dona me olhou com olhos duros. Disse:

—- Eu estou dando aula de língua portuguesa, Júlio César? Esta é uma aula de literatura brasileira!

A dona acentuou a “literatura brasileira.” Ficou me olhando.

—- É mesmo?!

—- Então, qual é a resposta?

—- É que a literatura brasileira é uma coisa maravilhosa!

A mestra balançou a cabeça vagarosamente, com ar de consternação, discordando de minhas palavras, deu um suspiro profun­do, depois, disse:

—- Esta á uma resposta científica, Júlio César?

—- Pensei que servisse.

A dona resolveu me contar prosa:

—- Júlio César, você precisa se dedicar mais à disciplina!

—- Sim senhora, professora!

—- Você precisa se formar, Júlio César! Você é um rapaz pobre! Todo mundo sabe que você precisa se formar!

—- Oh, desculpe, professora! Foi distração!

—- Mas você concorda que você precisa se formar?

—- Concordo sim, professora!

—- Muita responsabilidade, sim, Júlio César?

—- Sim, professora!

—- Você é um bom menino! Tem a cabeça boa, mas é muito vagabundo, Júlio César!

—- Certo!

—- Obrigado por não ter me respondido com grosseria, Júlio César!

—- Não há de quê, professora!

A mestra ficou satisfeita. A turma deixou de me olhar. E ela continuou:

—- Então, gente, nós podemos considerar a literatura, que é uma coisa linda, como um retrato de época e…

Havia a Professora Loura do Inglês, mulher de professor de outro de­partamento, que chegava à sala de aulas batendo os calcanha­res com força no chão, carregando aquela pasta marron lotada de pa­péis, com o nariz empinado, talvez se achando a melhor professora de língua inglesa do mundo.

Havia a outra professora de Inglês, que tinha traba­lhado na Macy’s em Nova Iorque, não tinha sido descoberta por ne­nhum agente de Hollywood, mas tinha conseguido se casar com um pós-doutor que tinha se empregado na universidade e tinha se tornado, por conseguin­te, profes­sora do departamento de Letras.

Havia a parente dos políticos, de pessoas influentes, de famílias tradicionais da sociedade da cidade, que tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e que dava aulas de Litera­tu­ra, e era a chefe do departamento, prima do prefeito, mulher de um cara que se considerava poeta.

Havia o cara que se considerava poeta, claro, esposo da Prima-Chefe, e que tinha comprado diploma em uma faculdade particu­lar e tinha se tornado, através de seus laços matrimoniais, pro­fessor de Literatura portuguesa no departamento de Letras.

Havia a Irmã-do-Pró-Reitor, que também tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e tinha sido colocada pra dar aulas de português pro curso de Letras, não tinha segurado as barras, e tinha sido transferida pros cursos de área 1, onde os alunos faziam dis­ciplina de nivelamento, e onde ela ficava sempre repetindo as mesmas coisas – sujeito-verbo-predicado –  e onde ela estava tendo oportunidade de apren­der a matéria.

Havia a Prima-não-Chefe, que também tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e dava aulas de literatura e por­tuguês e do que mais fosse necessário, e que dava pulinhos dentro da sala de aulas, e que conferia a matéria num caderno de segundo grau, e rodava a saia, e escrevia garranchos no quadro-negro, e que afirmava amiúde que a língua portuguesa era uma coisa maravilhosa e fazia raiva em todo mundo.

Havia a mulher de um professor de outro departamento, que tinha comprado diploma em uma faculdade particular, e tinha pas­sado debaixo dos panos num concurso interno e estava ocupando o lu­gar do marido da Prima-Chefe, que tinha saído pra fazer doutorado.

Havia a professora de Francês, mulher de professor de ou­tro departamento, que tinha estudado na França e falava sempre que ti­nha horror de se lembrar do Quartier Latin, e do Montparnasse, porque estes locais são cheios de artis­tas e os artistas são muito sujos e os pombos cagavam em toda a praça e os franceses nunca tomavam banho e que ela nunca mais gos­taria de voltar à França.

Nós pensávamos que os parentes já tinham dado sua cota. Era muita gente! Qual nada! Logo no princípio do período entrou uma mulher na sala de aulas. A dona parecia uma pata choca. Baixinha, gordinha, de cabelos castanhos, de óculos de grau com aros dourados, andar vagaroso, e aquela pasta marron nas mão direita. Não sei porque tanto os professores do departamento de Letras gostavam de carregar aquelas pastas marrons cheias de papéis!  Então, a dona entrou na sala e se apresentou: era uma das professoras do estágio de portu­guês. Ia dar as aulas teóricas. A mulher fez uma série de exigências: que os alunos nunca deixassem de dar uma lida na matéria antes das aulas. Isto seria cobrado sempre. Que os alunos sempre participassem das aulas. A não participação implicaria em perda de pontos. E que nin­guém perdesse aulas! Alunos relapsos depõem contra a universidade, sujem o nome da instituição.

Certo! Muito certo!

Que tristeza! Lá estava: o nome da Prima-não-Chefe no meu horário. A dona ainda ia ficar me enchendo o saco durante meu último período de universidade! Era foda! No meu último Português. E logo nos meus dois últimos horários, duas vezes por semana! Eu podia pre­parar o espírito. Seria preciso fazer muita força pra não dormir. Logo, logo ela estaria rodando a saia, dando pulinhos, conferindo os tópicos no caderno, e fazendo merda, e falando merda, e interrompendo a aula, e dizendo:

—- Parece que há alguma coisa errada aqui, não é, gente?

E a turma nada responderia. Nas aulas da coroa sempre havia muitas coisas erradas!

E a dona ia dizer:

—- A língua portuguesa é uma coisa maravilhosa, mas é um tanto complicada, não é, gente?

E os alunos balançariam as cabeças, concordando.

Que saco, porra!

Antes da festa de formatura costumava se fazer um jantar com os formandos e os professores homenageados. E assim foi feito. Alguns alunos formandos não compareceram ao nosso jantar. Eu fui, lógico! Aconteceria em um restaurante chique e os professores homenageados é que iam pagar a conta!

Havia chovido, o ar estava ótimo! Fresco, aromático! Nos reunimos ao redor de uma mesa, toalha alvíssima, garçons prestativos, ambiente de pessoas de nível social superior. Havia apenas quatro formandos e três professoras: A Professora Loura, do Inglês, a Mulatona do Português, e a Professora de Francês. Sorte o resto da turma não ter aparecido. Assim, sobravam mais comida e bebida!

Enquanto alguns de nós ocupávamos nossos lugares, a Professora Loura mais a Mulatona tinham ido ao banheiro. Preparar o estômago e a bexiga para a comilança e a bebedeira, sem dúvida!

Voltaram!

A Professora Loura se sentou entre a Mulatona e eu. À nossa frente se sentaram outra professora do departamento, professora de Francês – esposa de professor de outro departamento – lógico! – e uma formanda esposa de outro professor – talvez futura professora da universidade, se desse a 1ógica costumeira, claro!, além de um formando com sua namorada.

— O que você vai fazer após sua formatura, Julio César? – a lourona me perguntou.

—- Não sei! Talvez eu estude mais!

—- Isso mesmo, rapaz! Você deve explorar sua inteligência! Você tem muita facilidade para essas coisas, não é mesmo?

—- É!

Em seguida, a Professora Loura abriu o cardápio com as pontinhas dos dedos longos, deu uma olhada e perguntou:

—- O que nós vamos comer?

Ficou olhando para nossas caras por alguns segundos. Como  ninguém se manifestasse, ela completou:

—- Eu sugiro um medalhão!

Medalhão! Que era aquilo? Eu não sabia e era melhor prestar atenção no produto, porque eu estava em vias de subir na escala social!

—- Vamos de medalhão! – todos concordaram. .

—- E, para beber, eu sugiro um Liebfraumilch! É um vinho branco alemão ótimo! – ela disse, escandindo as silabas, arredondando excessivamente os lábios.

—- Vamos de alemão! – todos concordaram.

O garçom estava de pé ao lado da mesa, humildemente esperando as ordens da madame e de suas colegas. A Professora Loura fez os pedidos, o garçom, pressuroso, anotou tudo em uma cadernetinha e se foi. Foi buscar os breguetes!

Eu dei uma cubada na Professora Loura, do Inglês: a dona havia se produzido sobremaneira para o nosso jantar. Provavelmente ficara muito tempo na frente· do espelho fazendo escova, porque dava para se ver perfeitamente os sulcos nos longos cabelos louros. Os lábios estavam perfeitamente delineados com batom excessivamente vermelho.

E ela ia falando com voz metálica, fazendo olhos de· peixe morto, e fazendo boca de peixe morto, e fazendo aqueles gestos estudados, e entortando a cara ora para a esquerda, ora para a direita, e jogando a cabeleira escovada para um lado e para o outro, e dizendo:

—- Quando eu lecionava na Universidade de Brasília, os alunos nunca me perturbaram. E olhem que eles são extremamente rebeldes! Eles nunca interromperam uma. aula minha! Apenas ficavam do lado de· fora da sala, batendo com os punhos fechados nas paredes e fazendo:

—-TUM! TUM! TUM!

E ela arregalava os olhos e nós ficávamos olhando pra ela de olhos também arregalados, abismados com a chiqueza da dona. O garçom se aproximou, colocou um balde de gelo sobre a mesa. Dentro, uma garrafa verde – o Liebfraumilch!- o alemão!

A Professora Loura:

—- Meus filhos vão estudar nos Estados Unidos! Os cursos de matemática dos colégios americanos são muito melhores do que os cursos de matemática dos colégios brasileiros e …

O garçom novamente se aproximou, colocou uma travessa sobre a mesa – o medalhão! Olhei. Ora, em apenas um grande pedaço redondo de ticha – una carne tostada, provavelmente pernil – recheada com alguma coisa!

—- …. e, à medida que eles forem aprendendo matemática, eles também vão ficando fluentes em Inglês. Assim, ao terminarem o curso, serão bons em matemática e bilíngües!

Chique!

Eu tinha pegado meu canudo e estava pensando que era o fim da jornada.

Não era.

Na verdade, a jornada estava apenas começando. E estava na parte mais difícil! Uma longa e tormentosa estrada!

Foi logo no começo do ano. Princípio de janeiro. Me disse­ram: um cursinho de Inglês tava precisando de professores. Mesmo sem ex­periência. Estavam fazendo seleção. Boca boa, dava status, projeção social. E alguma grana, lógico! Passei a mão em meu canudo e corri lá. Pen­sei de o pes­soal nem me deixar passar pela porta. Enga­no. A chefe, lá também havia uma chefe, me atendeu com toda a aten­ção, me ofereceu um cafezinho. Me aplicou uma prova escrita, me pediu pra voltar no outro dia. Ela ia dar uma lida no troço.

Voltei lá no outro dia. Os pro­fessores riam pra mim. Sem dúvida, minha prova tinha feito sucesso. A chefe me chamou pra uma sala e se pôs a falar inglês comigo. E eu ia entendendo tudinho.

—- If you had much money what would you like to do, Jú­lio?

Se eu tivesse dinheiro?! Porque ela sabia que eu não tinha? Como ela tinha adivinhado que eu não tinha?!

—- If I had much money I would like to travel all over the world. I would like to know as many countries as possible!

—- Good! Very good!

A chefe ia me falando e rindo e eu ia também rindo e pen­sando: olha aí, cara, se você não tivesse tolerado o nhém-nhém-nhém do Topete Louro, se você não tivesse tolerado as gororobas da Prima-não-Chefe, se você não tivesse suportado a morrinha da mestra de lite­ratura e a encheção de saco de todo aquele pessoal e aquelas merdas todas, você não teria pegado o canudo, e você não te­ria estado no res­taurante com as madames e os formandos de classe média bebendo aqueles troços to­dos e comendo aquelas carnes nem es­taria aqui agora conversando em língua estran­geira com esta mulher finís­sima, da soci­edade – de nível social superi­or!

Dei um sorriso de mim para mim e a mulher notou e me perguntou:

—- What is happening? Why are you laughing? Have I said anything amusing?

Eu respondi:

—- No, no! I have just remembered a very pleasant fact!

E nós continuamos falando inglês e a mulher, pra finalizar minha entrevista, disse:

—- Well, I can observe you are a very good promise as an English teacher.

Fiquei atento. Sem dúvida a dona ia me empregar! Estava saindo da universidade e estava logo conseguindo minha primeira co­locação! Asim eu pensava.

E ela logo completou:

—- Unhappily enough I have two pupils who are sons of a teacher of the university. And he told me at the term begginning: I can put my two sons in your school if you put my wife as a teacher of the school. And I could do nothing but accept! The teacher’s wife is a disas­ter as an English teacher… but I need the money of her husband! And things like these never let to happen! It’s a tradegy!

A tradegy!?

Fiquei puto! Gritei:

—- PORRA!

Mas certa vez me aconteceu uma coisa diferente. O cara me chamou, tratei o preço com ele. O sujeito foi com minha cara. Me dei­xou sozinho no apartamento. Ou melhor, me deixou com seu filho ma­luco. Eu nem sabia que o sujeito não batia bem dos pinos. Logo após o pai do cara deixar o apartamento (ele era separado da mulher, traba­lhava fora da cidade e só tinha aquele filho), o maluco, baixinho, care­ca, saiu do quarto e veio:

—- Sabe aquela pedra grande que tem lá assim?

O pinel fez um gesto em concha pra dentro da barriga e eu perguntei:

—- Que pedra?

—- Aquela grandona.

Olhei pro cara. Os olhos do bicho não tinham o brilho da normalidade. Ele olhava pra mim, mas certamente enxergava minha nuca. Olhos vazios, mortiços. Mas de um bonito azul-claro.

Eu não sabia de nenhuma pedra, mas falei que eu conhecia a pedra e ela era realmente grande.

—- Sei. O que tem ela?

—- É… é… é… tem urubu lá e….

Oh, saco! Urubu!

—- … e, quando eles vão voar eles fazem a volta assim e…

Era muita sorte!

—- …e Deus faz as coisas e…

Ele sabia da existência de Deus!

—- … e Ele pôs os urubus lá e eles fazem limpeza!

Ora, os urubus!

Eu estava sentado lá no bar.

Havia chovido alguma coisa, o sol tinha reaparecido, a tar­de estava bela, bela e eu tomava cerveja. Tesourinhas brancas e ne­gras davam vôos picados no ar e abriam belamente suas longas caudas, pipilando prazerosamente. Os pneus dos carros provocavam um bonito som contínuo no asfalto molha­do, a tarde era bela, o mundo era belo, passavam belas mulheres na rua ensopada, estava tudo belo. Um burro cinza-claro molhado co­mia ile­galmente o capim mo­lhado no gramado da universidade. Comia ile­galmente o capim mo­lhado e abanava o rabo, satisfeito. Fiquei be­bendo. Aquela tarde pro­metia! Estiquei as ca­nelas e aspirei o ar quente da tarde bela. Estava em paz e queria que aquela tranquilidade conti­nuasse indefinidamente. Que ninguém viesse me encher o saco!

A cerveja ia descendo macio e eu logo ia acabando com uma garrafa e pedindo outra. Estava bom, sossegado demais pra ser verdade! Lá longe, perto das quatro pilastras, o Robério apareceu. Pen­sei em correr pro banheiro. Depois, desisti. Ele não ia parar pra me torrar o saco! Era de veneta, o cara, e tinha muito tempo que nós nem nos víamos. Desde quando ele apresentara o seminário e sumira. Cer­tamente, ficava os dias enfiado no meio do mato, sentado num toco. Pensando. Altas filo­sofias. E os passarinhos cagando na cabeça dele. Estava barbudo, cabe­ludo, desleixado. Era de fato triste a sina dos inte­lectuais.

Não dei sorte. Robério se aproximou de minha mesa, pôs as mãos à cintura, e disse, com desdém, a voz rouca:

—- Então, está a beber cerveja?

Barroco, o cara!

“Bom, uma tarde fui à casa me encontrar com ela e a puta tinha desaparecido, a dona dos cômodos me disse que a tinha dispensado de sua residência, não a queria mais ali. Por que? eu indaguei. Ela pita muito baseado, a dona disse. Tem dias que eu tô aqui em cima com meus filhos e nem preciso fumar aquela merda pra ficar de cabeça feita: minha casa se enche de fumaça! E já tinha ameaçado ela antes. Muitas vezes.”

“Ela pita o troço, então?”

“Pita o troço?! Ela toma pico nas veias, toma chá de cogu­melo, faz qualquer negócio! Se você lhe disser que bosta dá grilo, ela bebe chá de bosta, toma na veia. É maluquinha!”

“Oh, que pena, eu exclamei, ela é tão boa de xoxota!”

E a dona dos cômodos disse:

“Não se iluda com esta sirigaita não. Ela tem mais de trinta homens. Tem um velho aí que vive enfiando grana nela. Eles fi­cam horas a fio em cima da cama de um hotel aí na cidade”.

“Ela tem muitos amantes, então?”

“Tem. Todo mundo fala que ela é muito boa de xoxota. Boa demais.”

“Então, eu fiquei conversando com a mulher durante alguns minutos, e pra não perder a viagem, fui pra cama com ela. Ela tinha quarenta e cinco anos e era muito larga, aguada, ruim. Mas comi aquilo assim mesmo.”

“E nunca mais viu a Luziinha?”

LUZES VERMELHAS (romance)

Este romance (LUZES VERMELHAS) ainda não foi finalizado, mas, eu deixo aqui alguns excertos para a apreciação dos meus possíveis leitores.

Era certo: nas madrugadas, bem antes das galinhas começarem a se movimentar nos poleiros, LPM se levantava, e, após sapecar um café ralo (ele nunca conseguia, e nem sabia, coar um café decente), saía para uma caminhada, de passos lentos, e ficava se lembrando:

                       “A vida é assim mesmo. Não se deve reclamar. Mas ela costuma ser insuportavelmente dura. E é preciso ser forte, ser resistente e ir tentando as coisas – até que apareça uma oportunidade.”

                       Então, andando na beira do asfalto, ele recordava os anos de trabalho nas lavouras de café.

                       “Quando eu trabalhava no Xisto. Trabalhei bem uns oito anos pro sujeito. Trabalho duro, sem nenhuma garantia. Só muito tempo depois apareceram os fiscais do Ministério do Trabalho. Vieram pra colocar ordem nas coisas. Mas, naquela época, a gente começava cedo no serviço. Cedo que eu digo é tanto na idade quanto no horário – nas madrugadas mesmo. Os dias ameaçando nascer, e as caminhadas morro acima, limpar o terreno, furar as covas, colocar adubo e fincar as mudas. Isso, se se estivesse fazendo plantio. Era mato, então, é desnecessário dizer que existiam cobras e escorpiões. Mais de uma vez, algum empregado foi picado e deu problema pro patrão. E ele sempre rodeando: é preciso aproveitar o tempo, gente! Pode vir chuva!”

                       E, na época da colheita, aquele amontoado de gente, as cantorias, e Xisto em cima, tomando conta. E se, por mal dos pecados, acontecia de chover?! Nada de parar. O serviço continuava mesmo assim, debaixo de qualquer aguaceiro. E Xisto ali. Pior ainda, a maior tristeza, se a chuva caísse durante a colheita. Os grãos podiam mofar, era quase certo de acontecer, então, Xisto exigia mais e mais rapidez. E, na hora do almoço, as marmitas eram abertas ali mesmo, nas plantações, e as gotas de chuva escorriam das abas dos chapéus pra dentro da comida, mas eles, os peões, ignoravam aquilo, tinham de ignorar, e engoliam aquela meleca.

                   “Verdade que eu aprendi muita coisa – Luis reconhecia – Xisto gostou do meu modo de trabalhar, do meu expediente, e me pôs pra ajudá-lo a administrar o movimento, a lidar com os empregados.” Donde ele, LPM, tinha pegado o traquejo, adquirido o hábito de dar ordens, de tomar a frente das tarefas, de ao menos tentar dar uma solução para os problemas. “Vamos, gente! Vamos!” – dizia. “Mas Xisto era chato e eu até que tolerei durante muito tempo: oito anos.”

Se algum estranho perguntasse a qualquer morador da região o porquê do abandono da usina na beira do asfalto, aquele conjunto enorme, tão interessante, a ferrugem comendo as máquinas e o lodo tomando conta das estruturas de concreto e ferro, além do mato envolvendo tudo, certamente ouviria: “Foram as dívidas, moço. O governador, os políticos da época, foram enfiando dinheiro no dono da usina, enfiando dinheiro, concedendo crédito a ele, que era seus amigos e vivia alegando dificuldades, e eles, preocupados com as pessoas que poderiam perder os empregos e com as conseqüências danosas para a população e para a região, escutavam as conversas. Por fim, talvez tenham vindo a saber que as dificuldades aconteciam porque seu dono preferia gastar o dinheiro dos financiamentos com carrões e com mulheres nas cidades próximas. Hoje a usina está assim. Esse abandono. Se o senhor for à Colônia, verá a que a situação é pior do que parece. É uma desolação!”

         E, se o passante desejasse saber o que era a “Colônia”, ouviria como resposta que era o conjunto de casas que a usina oferecia, como moradia, às pessoas que trabalhavam nela. “Basta entrar naquela estrada atrás da usina, estrada de terra, e, um quilômetro e meio à frente, encontrará as primeiras casas, as maiores e mais bem acabadas, que eram oferecidas aos funcionários de certa importância na usina. Mais uns quinhentos metros, e aparecem as casas dos empregados subalternos, os pau-pra-toda-obra. Casinhas, todas agora em condições deploráveis, telhados caindo, paredes descascadas, desbotadas. A usina fechou e eles continuaram nas casas. Eles não têm pra onde ir.”

                       O canto esquerdo da porta da sala era o refúgio de Ednéia. De lá ela podia ver o movimento no asfalto e, às vezes, reconhecia algum passante que a gritava e elevava a mão. Não raro, chofres buzinavam – gentes do Serra, que sabiam que ela estava morando ali. Com um livro nas mãos – horóscopo – ela se aboletara na soleira. A batida da porteira a fez levantar a cabeça e, ao ver LPM caminhando para casa, a cabeça abaixada, passos curtos, os bicos da bota de caubói levemente direcionados para fora, chapéu também de caubói, (ele tem o hábito de tirar o chapéu e carregar na mão direita) abas largas que lhe escondiam a cabeça já quase sem cabelos, cochichou:

                   “Vê só o fingimento deste filho de uma puta! Matou a mulher de desgosto e fica se lamuriando por ela ter morrido! Filho de uma puta! – E ainda tem o apelido de Bão!”

“Mas eu não briguei nem discuti com meus pais. Não houve nada disso. Eu apenas não queria aquela vida que eles levavam: a mesmice; não tinha nada a ver comigo, você compreende, e cedo já tinha meus namorados. Meus namoros duravam pouco tempo. Então, foi uma conseqüência. Mas eu trabalhei alguns meses como balconista. Balconista de loja, você sabe como é. É perturbação o dia inteiro, os fregueses perguntando os preços, experimentando os artigos, e indo embora sem comprar, alguns deles tentando surrupiar mercadorias, e a dona da loja sempre exigindo pontualidade e o sorriso permanente nos lábios. Eu sorria, o que diferente eu podia fazer?! Até que um dia uma amiga minha entrou na loja, debochou de mim porque eu estava – nas palavras ela – dando meu tempo de juventude de graça para a patroa, e me falou de suas aventuras e de sua filosofia de vida.

                       “Eu faço a vida, moça. Vendo o meu corpo. Eu já tava dando mesmo antes – e de graça, mesmo pra homens que não eram meus namorados, até a troco de bebidas – e não existe diferença entre uma mulher casada e uma puta. Se os homens não chegarem em casa com dinheiro, se eles não derem conforto pra elas, elas partem pra gandaia. Eu quero me casar, ter segurança, filhos. Mas não vou ficar esperando homens. Se um homem acontecer na minha vida, aconteceu. O que tiver de ser, assim será.”

                       E Ana Maria, a minha amiga, fez umas compras, contou uns casos – ela estava adorando a vida que estava levando -, riu muito, e foi embora. Aí, poucos dias depois, eu também fiz minhas trouxas e me mandei. Só que eu fui pra beira-linha, pra Vila Alvarenga, com a intenção de ficar pouco tempo. Meu desejo era aprender as manhas com as mulheres experientes, perder a inibição. Mas, veja bem, eu tinha bem pouca inibição no trato com os homens. Nunca tive vergonha de tirar a calcinha e abrir as pernas na frente de ninguém. Então, fui.

                       Mas Donelena, como contou pra Ednéia, agarrou-se na beira-linha. Fez amizade com muita gente, arranjou uma freguesia grande, estava ganhando bom dinheiro. Estava gostando, enfim. Mas a beira-linha não era lugar onde pudesse fazer o pé de meia, ela sabia. Mas Léia, encantada com sua doçura, com seu corpo bonito, e vislumbrando uma possibilidade de aumentar sua renda, encheu a cabeça da moça, investiu nela e lhe ensinou como proceder para parecer atraente e agradável para os homens. “A missão principal, a tarefa mais importante de uma mulher que faz a vida – aprendeu ela (mas ela já desconfiava) -, é tirar o máximo possível de grana dos homens e, se você não tiver pejo, também das mulheres. Tirar a grana toda, se possível. E não se importe de ir para a cama com qualquer tipo de pessoa: branca, preta, morena – se estiver com grana, é freguês.”

         Mas nem tudo eram recriminações. “Algumas moças, principalmente as que ficavam agarradas durante todo os ida atrás de balcões de lojas, me diziam, na surdina: — eu não faço a vida por causa de minha família – meu pai e minha mãe. Trabalhar ganhando pouco é o pior caminho. Você olha pra frente, pro desenrolar de sua vida, e vê, com antecedência, que nunca vai ter nada de seu; nem uma casa, nem um bem de melhor valor! Nunca vai ser ninguém! ” Não sei se elas gostariam de tivessem de se deitar com alguns daqueles homens que chegavam sujos, com mal hálito, com chulé e com a cabeça da pica toda cheia de angu. Homens que – não era necessário perguntar – passavam dias a fio sem tomar banho ou mesmo fazer a barba. Muitos nem mesmo tinham roupas decentes!

“Foi um rapaz que apareceu no salão num começo de tarde, bem depois do almoço. Mirradinho. Entrou arrastando os pés, os punhos fechados, gingando o corpo levemente pros lados à medida que se movimentava; um tufo de cabelos castanho-alourados lisos deitados na testa, levemente puxados pro lado. Muito bem vestido, um par de tênis bonito nos pés. Andava com tanta dificuldade, arrastava tanto os pés, que fiquei receosa de que tropeçasse no piso e caísse. Mas, não. Aí, ele entrou no salão, apoiou a mão direita no banco, jogou o corpo pra cima, se sentou ao balcão, com muita dificuldade, e pediu uma cerveja. A voz arrastada, anasalada; o moço tinha problemas até pra articular as palavras. Abri a cerveja pra ele e ficamos conversando. Ele era gente boa, e eu, que tinha aprendido que a função principal das mulheres era ‛tirar o máximo possível de grana dos homens’, principalmente se eles tiverem cara de trouxa, pensei: “taí uma boa oportunidade de encher os bolsos com este frangote! Tem tipo de quem tem dinheiro pra gastar e, na cama, certamente, não vai me dar trabalho nenhum!” Esperei que uma colega chegasse (eu estava sozinha) pra me substituir no balcão, e arrastei o mirrado pro quarto. Fui com ele e com mais algumas cervejas – por conta dele, lógico! E lá, sozinhos em cima da cama, após haver brincado com ele, lhe tirei as roupas, e fiquei alisando aqueles ossos. Eram ossos mesmo; carne não havia nenhuma. Fiquei alisando os ossos e, como eu já presumira, o pau do franguinho não subiu e ele me falou, consternado: “Fisicamente eu não sou ninguém; estas coisas que os homens fazem, as sacanagens todas, eu não consigo”. Então, ele me contou que, quando criança, tinha sofrido uma doença grave, paralisia infantil. A pólio. Crescera pouco, além de ter ficado com  problemas de locução e de locomoção. E, chateado, afirmou: “Eu não sou nada! Não sirvo pra nada. Não sou ninguém!” Em puteiros a gente vê pessoas de todos os tipos; sabe das deficiências, das angústias de muitos tipos, e tenta aliviar os sofrimentos. Eu o consolei. Afirmei – o que era verdade – que seu cabelo era muito bonito, seus olhos verdes eram atrativos e meigos. “Nâo é necessário que o pau de um homem suba pra que ele seja alguém ou pra que a gente goste dele!” – disse-lhe. “E sexo não é tudo. Quando você quiser conversar, trocar algumas palavras, venha pra cá. Só não posso pagar bebidas pra você, mas, podemos passar bons momentos juntos. Traga dinheiro, nós viemos pro quarto, e ficamos aqui, papeando. Eu vou ter de lhe cobrar alguma coisa pois vou estar empatando o meu tempo, mas, vai ser pouca coisa. A dona da casa exige que seja assim.” Ele concordou e assim passou a fazer. Umas três vezes por semana, durante o dia, quando o salão estava vazio (depois do almoço, raramente aparecia alguém), ele chegava. Sentava-se ao balcão uns minutos, depois, nós íamos para o quarto com as cervejas e as carnes. Eu fritava as carnes pra nós. Ficávamos brincando pelados em cima da cama e ele fingindo que estava gozando, fazendo: ai, ai, ai, e torcendo a cabeça para o lado. Mas eu ajudava ele: eu abria as pernas, mostrava a xoxota pra ele, e dizia: “– Vamos, benzinho, seu peruzinho não sobe mas você pode fazer outra coisa!”, tentando convencê-lo a por a boca entre minhas pernas; muitos homens fazem isso: lambem as xoxotas. Mas ele nunca quis, nunca se deixou levar. Dizia: — Não tem jeito. Eu não consigo. Se não subir em baixo, nada funciona! Mas ele enfiava o dedinho trêmulo na minha perereca; ao menos isso ele fazia. E, antes de sair (o que demorava) minha grana estava no papo – e não era pouca! Até que as outras mulheres descobriram que eu estava – nas palavras delas – “ganhando sem trabalhar” – e decidiram nos acompanhar, mesmo sem serem convidadas. Aí, o negócio passou a ser uma festa. Muita bebida, muita carne, muita música, muitas risadas. Todo mundo pelado; sem roupas. E você pensa que houve algum problema? Nenhum! E, certa tarde, o mirrado apareceu acompanhado, de carro, um cara barrigudo ao volante, cabelos grisalhos, e nos apresentou, dizendo que era seu pai. E o pai do moço, falante, agradável, nos agradeceu muito, dizendo estar sentindo muita felicidade em seu garoto. A amizade das putas estava fazendo “um bem danado pra ele”. Nós rimos, lógico!, e pensamos: não há problema; enquanto ele tiver dinheiro pra gastar, e não estiver dando trabalho pra gente, nós ficamos amigas dele. O único trabalho que tínhamos, as putas, era tirar a roupa. O pau dele não subia mesmo E o pai, que era muito chegado numa gandaia, passou a vir mais vezes com o filho. Vinha e ficava trancado no quarto de alguma das mulheres. E demorava! Vieram inúmeras vezes. Até que, de repente, o moço sumiu. Será que morreu? Ou adoeceu? Ficamos curiosas. Depois, viemos a saber: o pai do moço havia arranjado um mulher pra morar com o mirrado. Alugou uma casa, mobiliou, e pôs ele lá. E, assim, nós perdemos nosso franguinho do pau murcho e dos ovos de ouro. Mas, às vezes, falávamos a respeito dele, sentíamos saudade, e ficávamos nos perguntando: o peruzinho dele não sobe, e ele não gosta de chupar, o que será que ele tá aprontando com a mulher? (Risos)

“Donelena? Foram as amigas que me arrumaram isso lá, na beira linha. Na Vila Alvarenga. O apelido de Donelena: quando eu cheguei, novinha ainda, mocinha, era Helena. Algumas pessoas até me chamavam de Heleninha. Com o tempo, fui ficando velha de casa e, de certo modo, meio que sócia do negócio – eu apreciei o ambiente, sabia me dar ao respeito, e a proprietária tinha confiança em mim e me pedia pra ajudar a administrar o movimento e, por ser novinha e bonita (é até chato dizer, mas, é verdade), eu aprendi depressa como fazer com que os homens gastassem todo o seu dinheiro; limpava os caras numa boa – passei a ser a Dona Helena; depois, com mais muitos anos, fiquei isso que você ouviu até hoje – Donelena. É mais fácil de ser dito. Mas, moça, eu gosto demais deste apelido! Ah, se gosto! Ele tem dois aspectos, eu acho: dá uma idéia de intimidade e outra de respeito. Ah, ah! – eu gosto disso! E eu impunha as regras com rigidez. O salão limpinho, ela fazia questão; dá boa impressão.”

E, como Ednéia pedisse que Donelena lhe contasse algumas dessas regras, ela falou: era proibido andar pelado nos corredores, tanto homens quanto mulheres, porque os quartos eram vistos da rua e os passantes podiam se escandalizar e reclamar com a polícia; a proprietária, a Léia, preferia que as mulheres não arranjassem namorados no bordel; elas podiam namorar, mas, na rua; nada de brigas no salão ou nos quartos – a aparição de retratos de mulheres, de endereço da vila, nas páginas policiais, era um péssimo cartão de visitas para o negócio (podia espantar os fregueses); e, ao andar no salão, se exibindo para os homens, não era permitido que os homens passassem a mão nas coxas e nas bundas das putas. Tudo era permitido – mas dentro dos quartos, de comum acordo. Todo o respeito era exigido.

                  “A gente via sofrimento, você pode imaginar. Muito sofrimento. O que você pensa que é ver mulheres chorando de saudade dos filhos, mulheres que deixaram a família para trás, longe, e saíram pelo mundo num rumo incerto, sem nada de garantido, a não ser a certeza de que vão ter de abrir as pernas pra homens (quaisquer que sejam eles), homens que elas nem conhecem? Algumas terminam as noites com os olhos cheios de lágrimas e com os retratos de filhos na mão. Muitas se embriagam pra acalmar a dor e acabam se tornando alcoólatras. Mulheres que ficam pulando de cidade em cidade, oferecendo-se nas esquinas, correndo o risco de serem escorraçadas pela sociedade ou pela polícia. Mas eu sinto saudades, lógico! Às vezes sinto muita saudade, mas, você sabe como as coisas são: o tempo passa e, quando isso acontece, não há nada que você possa fazer. Se você fica velha, engorda, ou, ao contrário, às vezes emagrece, enruga, os peitos caem, os cabelos embranquecem, os homens só olham pra você pra fazer graça, pra debochar – quando olham. Quando acontece de você conseguir alguma coisa, um biscate, como se diz, é porque o cara tá na pior, tá atrasado, e come qualquer coisa, e normalmente, tá sem dinheiro. E não é incomum o sujeito se deitar com você, gozar a mil, fazer uma infinidade de exigências, e sair sem pagar, dizendo que você não tá com nada, que já deu o que tinha de dar – que nem sabe como conseguiu comer ‛esse bagulho’. E quando você ao menos olha pro lado dos garotos novos, adolescentes, que entram no puteiro?! Um olha pra cara do outro e eles caem na gargalhada! Quando isso começou a acontecer comigo, os homens parando de olhar pro meu lado no salão, não querendo nem dançar comigo, mesmo se não houvesse outras mulheres disponíveis, não me convidando pra tomar um copo de cerveja, percebi que minha hora tinha chegado. Às vezes, eu estava sozinha no salão, mexendo nas garrafas, fazendo um limpeza, chegava algum homem, olhava pros lados e perguntava: “Não tem mulher nenhuma ai, não?” Como se eu não estivesse ali! (Donelena não contou pra Ednéia, mas, no princípio da rejeição, ela se oferecia para os caras [Tem eu; eu não sirvo?, e eles respondiam, com rispidez: você não! Até que ela deixou de se oferecer.] Eu precisava fazer alguma coisa, tomar alguma atitude. E havia um agravante: o puteiro estava em decadência, algumas das casas já estavam começando a ruir. Fiquei imaginando: pra onde correr? “Porra, será que eu também vou ser obrigada a enfrentar uma firma de conservação?” E, veja, menina, o Laércio, que era velho freguês e conhecido meu lá da beira-linha, deu pra aparecer com freqüência (certamente estava se sentindo sozinho), se sentar numa cadeira, e ficar, também, ouvindo música e imaginando. Eu me sentava com ele, e nem saía assunto de sexo. A gente trocava idéias, falava da vida, das coisas boas e das ruins. Do que nós tínhamos feito e deixado de fazer. Ficava remoendo feridas. Eu falava com ele e olhava pra ele e notava que ele também estava sentindo que as águas tinham rolado: as águas do tempo tinham levado os cabelos dele, ele estava quase careca, os poucos cabelos que lhe restavam nas têmporas estavam brancos e ele estava muito pensativo. E – isso não era dito – evidente que ele olhava para aquelas paredes, aquele salão, e se lembrava de quantas noites e, às vezes dias, havia passado ali, bebendo, dançando (mal, mas dançando) e trepando comigo e com outras mulheres, e de como gastara toda a pouca grana que ganhara como ronda da usina. Aliás, ele chegava ao puteiro, no dia do pagamento, com o dinheiro nos bolsos, e só ia embora quando estava sem nenhum; às vezes, saía na madrugada sem grana nem mesmo para o lotação; caminhava a pé até à usina: dez quilômetros de asfalto! Agora, estava ali: do mesmo modo que as mulheres, estava sem dinheiro, sem casa (ele morava nesta casinha da usina), sem família, e sem ter pra onde correr. Ficara velho e sem outra qualificação. E ele me falou que estava em vias de se aposentar e que, como eu estava encurralada, se quisesse, podia vir morar com ele aqui na Colônia. Nem pensei duas vezes: vim. Mas não fiquei insatisfeita, não. Eu gostei daqui. Quando me mudei pra cá, a usina já estava decadente, mas, ainda havia plantações de cana em todos estes morros que você vê e em muitos outros que não vê. Quilômetros e quilômetros de canaviais. E eu gostava de ver os caminhões subindo os morros pra buscar os montes de cana que os homens iam amontoando. Era muito bonito, após a colheita, ver os morros cobertos de palha seca, com os sulcos e os tratores, os jatos dos aspersores de manhã, recortados contra a luz muito clara do sol e o azul do céu, os ônibus dos empregados subindo nas trilhas, os caminhões de transporte de cana, as nuvens brancas, as mulheres troçando com os tratoristas e choferes, os cortadores de cana, as tendas. O barulho dos caminhões. De manhã, mais pra perto da colheita, o avião sobrevoava o campo lançando os nutrientes e os moradores se aborreciam com o ronco do motor. Ele pousava bem aqui na frente. Na primeira noite em que vi o fogo consumindo os canaviais, eu me assustei. Era uma fogueira só, durante toda a noite e durante todo o dia. Menina, os canaviais desapareciam de repente! Havia aquele movimento espetacular. Mas, durou pouco: não demorou, a usina foi fechada. Já havia boatos a respeito do fechamento, muitos boatos. Ninguém administra uma empresa como o antigo dono da usina…! Ele ia com regularidade à beira-linha. Eu mesma cansei de me deitar com ele e de passar a mão no dinheiro dele. O moço gostava de dar grana para as mulheres. E ele apreciava muitas mulheres, sem distinção. Então, fiquei morando aqui. Eles deixaram que o Laércio ficasse nesta casinha. Todos os empregados que quiseram ficaram porque a usina não tinha o dinheiro pra pagar os direitos trabalhistas. Mas não era nada disso que imaginei pro fim de minha vida. Mas eu não tinha pra onde correr. A gente, as putas, não consegue ajuntar grana, você pode imaginar. Algumas conseguem amantes, até maridos, mas, é um acidente. A maioria sai da zona arregaçada e paupérrima! É a mais pura verdade! E, veja que engraçado, deixe-me lhe contar uma história. É como as pessoas dizem: quando as coisas têm de acontecer, elas acontecem. Uma tarde eu estava fazendo uma limpeza lá no bar, mexendo pra lá e pra cá; não havia freguês nem mulheres no salão. Uma das putas das piores casas da Vila Alvarenga – a Zélia – entrou no bar, sentou-se numa cadeira, e começou a reclamar da vida.

                       Donelena olhou para as costas do homem que ela havia conseguido para acompanhá-la até o fim de seus dias: seco, careca, meio maluco, desdentado, sem grana. Dia e noite, se fosse possível, debruçado na janela, querendo saber dos passantes “por mal pergunta, qual é a sua graça? O que você ta fazendo aqui?”, mesmo se já conhecesse a pessoa.”  E Donelena contou para Ednéia de como ela também quase tinha conseguido se safar.

“Foi um rapaz branco que apareceu lá uma vez. Eu lhe digo moça: um dos rapazes mais bonitos que eu já conheci – e veio logo pro meu lado. O cabelo liso, um topete muito grande, mas muito magro o moço. Magrinho, baixo e com um cigarro pendurado da boca. Eu contei para ele que o achava muito bonito e que era raro homens daquele tipo aparecerem nas zonas, pelo menos em puteiros do tipo da beira-linha, da Vila Alvarenga. Ficamos amigos. Nem sei quantas vezes nós trepamos. Uma infinidade de vezes. E você pensa que ele ia lá, me comia, e saía sem pagar porque notou que eu tinha parado na dele?! Como muitos homens faziam com as putas que se apaixonavam por eles? Nada disso! Era tudo ali, preto no branco. Assim que a gente terminava a trepada, o moço nem me esperava limpar a perereca e vestir a calcinha – ia logo enfiando a mão no bolso, tirando a carteira, e me passando meu ganhame. Aí, nós íamos para o bar e ele ainda gastava um monte com cerveja e carnes e fichas da vitrola automática. Era uma maravilha. E, com o passar do tempo, a gente se envolvendo cada vez mais, saiu o assunto de nós morarmos juntos – quem sabe nos casarmos? Foi ele quem falou nisso. Ah, moça, isso mexeu com a minha cabeça! As mulheres ficam ali, rindo, bebendo, tentando ser agradáveis, mas, na verdade, tudo o que elas querem é arranjar alguém firme e sair fora. Elas só pensam nisso. Daí em diante, depois do assunto de morarmos juntos, passei a caprichar mais em nossos amassos. Ele me contava casos de sua família, me falava de planos de dar um ‛direcionamento diferente’ para sua vida: mudar de amigos, comprar uma casa, arranjar um serviço. Então, fiquei sabendo que ele era filho de gente boa, o pai era médico antigo e famoso, com posses, e era o pai quem lhe dava toda a grana que ele esbanjava. E ele ia fumando um cigarro atrás do outro, coisa que eu nunca consegui fazer – fumar. E me contava mais casos: que já tinha comido todas as ‛crioulas’ que moravam nos altos dos morros, já cheirara muita cocaína (depois passou a cheirar menos porque a droga estava lhe comendo o septo nasal), e fumava maconha com certa regularidade. Não me importei – lógico! Eu disse: tudo bem; se você tá pensando em mudar de vida, em dar um direcionamento diferente para suas ações, basta que você encerre essas coisas e pronto. E é isso que vou fazer – ele me respondeu, resoluto. Eu sei que não é fácil. Conheci muitas pessoas, homens e mulheres, que falavam a mesma coisa – abandonar os vícios; não abandonaram e morreram por causa deles. Mas acreditei no rapaz. Mas não demorou muito e ele teve um ataque dentro do salão. Moça, eu lhe digo: eu nem sabia que a gente tem tanto sangue assim no corpo. Ele vomitava sangue, e saíam aquelas golfadas enormes e caíam longe, nas mesas, nas cadeiras, até na vitrola automática, que era o xodó da dona do estabelecimento, o líquido escorrendo pelas paredes, as mulheres apavoradas, gritando, pedindo ajuda na rua. Depois, o moço caiu no piso, caiu como um toco podre que o vento derruba, e não mais se levantou. Não demorou, o pai dele chegou. Tinha sido avisado. Eu nunca o tinha visto. Em tudo diferente do filho: alto, cheio de corpo, sério, muito elegante. Ele deve ter estranhado ao ambiente, mas, não disse nada. Ao entrar no salão, lhe foi dito o que acontecera, ele viu que o filho já estava morto, o pôs no carro e desapareceu. Como médico, penso que ele já estava esperando por isso. Mas é isso: se ele não tivesse morrido, se ele não fumasse tanto (pois foi o cigarro que o matou), hoje eu podia estar em uma situação diferente. Muito diferente!

Eu gostei de ficar ali. É feio dizer isto, mas, eu nasci pra ser puta. Agora, no fim de minha vida, não me importo de falar isso: eu gostei de ser puta e era boa no troço! E deixe-me lhe contar uma história: certa noite, madrugada já, a lua muito alta e cheia, calor, e as mulheres sentadas na linha férrea, conversando. Àquela hora, mesmo o bar da Léia já estava fechado, pois era dia de semana e, se houvesse homem no salão num dia de semana, e àquela hora, era vagabundo. A única coisa que ele poderia arrumar seria confusão; não haveria como mulher nenhuma tirar nada dele. A cidade estava em silêncio, nem havia carros nas ruas. Estava gostoso. As águas do rio batiam nas pedras, o vento soprava as folhas dos bambus e dos pés de banana que existiam na beira do rio e ficava aquele sussurro. Nós estávamos lá, sentadas, rindo, algumas com latas de cerveja. E não é que, quase fim de noite, apareceu um cara grandão, gago, fazendo graça?! Eu não conhecia ele, e as mulheres começaram a brincar com ele, e ele rindo e gaguejando:

                       “N… n… não é nada disso, q… q…que voç… voç… vocês ´stã… sta… stão pensando não!”

                       Aí elas me explicaram: mulher nenhuma gostava de trepar com o moço porque ele tinha um peru do tamanho de um pé de mesa. Elas ficavam com medo.

         E ele veio para o meu lado.

RUAS TORTAS

(contos)

95 páginas – R$ 10,00 (ISBN: 463.669)

“Fiel à linguagem e às mazelas dos trabalhadores da construção civil, de onde provém a maioria dos seus personagens, o autor não camufla situações nem modera palavras. Nesta mistura de realidade com ficção, onde as coincidências haverão de ser muitas, um apelo à cultura e à vida da classe operária, sem dúvida, é o ponto chave. Com um estilo despudorado, intrigante, inteligente e interessante, narra suas histórias e prende o leitor, mantendo-o perambulando por Ruas Tortas.” (Nota do editor)

1 – Encontro com o Vampiro: “A mulher, enquanto dava o peito pro bebê, lhe tinha dito: vai lá e fala com ele. Deve ser gente boa. Ou, se preferir, vai ao salão de beleza da esposa e lhe exponha tudo. Ele mais a esposa são trabalhadores e já passaram dificuldades e saberão reconhecer nosso problema. Eu não tenho jeito pra isso… O filhinho não era pra ter vindo mas escapuliu. As madrugadas em cima da cama quente, eles inventavam tanta coisa! Durante o namoro, era tudo beleza; nos fins de semana tomavam umas pingas, faziam a cabeça e iam a um  baile qualquer… Depois, até pra comprar uma vassoura era complicado… Era como com as putas: os caras estavam a fim de dar uma trepada, então, eles iam lá, tratavam o preço com as putas, comiam aquilo, e davam no pé… Nem precisou bater à porta da casa do Armando: lá estava ele, na rua, lavando o carro… Eu te dou um terço do salário mínimo pra fazer este serviço… Um terço do salário?! Tá achando pouco? Eu conheço pessoas que fazem mais barato… Você deve pensar o seguinte, Bebeto: não é muito, mas, é uma grana da qual você pode precisar… Eu pago impostos sobre meus imóveis alugados. Pago doze impostos! Doze! E o que eu ganho com isso? Eu preciso economizar, moço!…  Meu primo… Meu primo! Nesta vida a gente não vale uma pinóia, Bebeto. A gente não vale uma pinóia! Armando veio dizendo, escada acima… Então, ele, Bebeto, começou a andar para casa. Armando é quem não valia nada!…”

2 – Aparição: “Não havia ninguém olhando, por isso Grilo largou a enxada sobre a masseira, entrou coxeando na casa toda bagunçada pela reforma e… Olhou no espelho procurando fixar bem com seu olho esquerdo aquele ponto esbranquiçado de catarata que lhe cegava o olho direito e o fazia ficar tão puto… Além da catarata, o pé direito do cara era todo torto. Só conseguia pisar com as pontas do dedos, o calcanhar ficando alto; com o tempo, o pé do moço estufara e ele ia andando e era aquela coisa! Como diziam os colegas: Mula Manca ou Galo Cego? Mas a santa estava aparecendo na cidade próxima e ela certamente ia fazer um milagres e curá-lo, se não do pé torto, ao menos da catarata. A bem da verdade, ele não acreditava em milagres; a mãe, sim… Fora a única ocupação para a qual ele tivera alguma serventia: servente de obras; puxar o cabo da “rabuda”, como as pessoas falavam, debochando… então, o Capitão Gancho chegava ao serviço, o pulso direito faltando a mão, pagava a enxada não se sabe de que modo, e começava no trampo… Grilo ficou ouvindo a voz de Zé Virgílio… Zé Virgílio era a única pessoa de quem Grilo sabidamente não gostava na obra. E Zé Virgílio era pinguço também! Chegava ao desplante de trazer cachaça pra obra. E pedaços de carne! Zé Virgílio lhe aconselhou a não ficar trepando só papai-com-mamãe…  A mulher invoca com a mesmice e sai procurando quem gosta de fazer coisas diferentes… E as minhocas que havia dentro da cabeça do Comandante ficavam azucrinadas. E ele ia pro meio da rua e era só comandante pra cá, comandante pra lá – e as continências!… E os caras da obra ficavam matutando: como alguém podia tratar de família vendendo panelas de pedra, porra?!… Grilo se assustou ao ver o filho dos velhos: branco, magrinho, magrinho. Um graveto!… Era mascate – o sujeito respondeu – vendia artigos de lingerie, bijuterias, cosméticos, perfumes baratos… Tá fodido! – o pai ia repetindo, em voz baixa – tá fodido!… Grilo ia andando no meio do povo e perguntando : você conhece alguém que tenha sido curado?  Não, é a primeira vez que venho. E você, conhece alguém que…? Ninguém conhecia… Grilo nem sentiu o tempo da viagem. Silêncio constrangedor, rostos tristonhos… Chegar em casa foi fácil. A mãe era compreensiva, esperançosa, conformada. Corre, Grilo, corre! Nossa Senhora tá aparecendo! Vem depressa! Pede uma graça, Grilo, pede uma graça! HA! HA! HA! – faziam os homens…  Ao levantar os olhos outra vez para o céu, Grilo viu que o avião já tinha desaparecido, o penacho de fumaça ainda estava se desfazendo.”            

3 – Na Volta do Rio: “Havia algumas casas antigas ladeando a estrada depois da ponte, na saída da cidade. Casas pequenas, de telhas de barro, sujas, algumas de pesadas janelas de madeira lavrada a machado, nas quais se podiam ver as irregularidades deixadas pelas lâminas da ferramenta… A cidade era velha, as casas eram velhas, mas ambas estavam de pé… Em outros tempos passava um trem nos trilhos que agora o mato encobria… Depois, o guarda-chave se aposentara, a estação diminuta fora fechada, e mais nada de trem… Dimas tinha soltado foguetes logo em frente da casa de seu primo. Política… Dimas nem era de briga mas seu partido havia ganho, ele estava alegre, havia facções políticas diferentes naquele fim de mundo… E havia brigas por causa de política… Vocês têm de matar o Dimas! – ‛seu’ Honório disse aos três filhos; – vocês têm de matar aquele rapaz!… – O que foi, moço? Você parece preocupado! Foi o Dimas, meu cumpadre. Eu lhe dei uma porretada e ele caiu… Era noite já quando dois cavaleiros – Lino e Beto – passaram pela volta do rio e deram com o corpo. — É o Dimas, coitado!… e o cri-cri intermitente dos grilos e, pela primeira vez na vida, notou o quanto a noite era bonita… E, vendo a cabeça de Beto recortada contra o luar, envolta pela fumaça do pito que ele levava nos lábios, ficou matutando com seus botões por que o mundo era tão belo e os homens eram tão maus. ”

4 – Moça na Noite: “Por que eu faço uma coisa destas, porra, por que eu faço uma coisa destas? Ontem eu fiz, anteontem eu fiz e transanteontem foi a mesma coisa: eu fiz! Na verdade, há muitos anos eu venho fazendo e ficando chateado comigo mesmo: eu parei em todos aqueles botecos e demorei a sair pois achei a pinga gostosa e os tira-gostos impecáveis e os papos dos caras interessantes mas agora eu tô aqui fodido outra vez rastejando morro acima… Se eu não tivesse bebido tudo isso já teria subido este morro e não estaria sem graça de passar perto daquela moça que vem lá longe…  Mas ela também troca as pernas e escora a mão direita na parede e ao invés de deixar o passeio vem em minha direção… De onde você vem? Eu tava fazendo via-sacra – respondo – tava catando todos os botecos da parte baixa da cidade e ela soluça – tá com soluços – e tenta rir e diz pois eu também tava fazendo via-sacra tava catando todos os botecos da parte alta da cidade Me diga seu nome, querida, posso te chamar de querida? Faço questão, meu nome é Dodinha…  Então eu aperto de leve o corpinho de Dodinha contra o meu e fico ciciando uma canção de ninar – nã, nã, nã – e… sua bocetinha é a coisa mais linda do mundo! Permaneço encostado algum tempo e… Alguém passa depressa  e olha rapidamente pro meu rosto e diz ‛boa noite, amigo, espero que tenha bons sonhos se estiver indo se deitar para dormir agora!’ mas eu estou muito distraído e não respondo. De madrugada – penso – vou ter de me levantar pra tomar água gelada e chupar um pedaço de limão – mas não importa! Eu rio sozinho e paro pra tomar um fôlego. Então respiro fundo e começo a subir, quase engatinhando, o último morro.”

5 – Eu e Minha Condição:  “Tô fodido – eu pensava – tô fodido!  Eu tinha acabado de deixar o escritório de contabilidade, meu  patrão tinha me despedido (contenção de despesas, segundo ele), e me tinha mandado receber meus direitos com seu contador, e mandara descontar os muitos vales que eu havia feito (eu sempre fazia muitos vales) e ali estava eu: parado numa esquina, fodido!… Passo pela praça. Não quero, mas não tenho destino certo… Hei, moço, me dá um dinheiro? Eu não tenho dinheiro. Oh, que pena!… Eu lhe dou dinheiro se você namorar comigo! Namorar que você diz é fazer isso? Ela diz, fazendo gestos rápidos, com a mão direita em concha para baixo, num arremedo de trepada. É isso mesmo! Mas você acabou de dizer que não tem grana, cara?! Pra essas coisas a gente arruma. E como nós vamos fazer? Indico-lhe uma pensão perto da praça e digo:…” “Por que você começou a fazer programas? Ah, procurei emprego e não consegui; moro na casa de uma tia e ela vive me exigindo dinheiro… Deite-se de bruços um pouco. Deixe-me alisar sua bundinha. Eu não vou te dar a bunda!… Quer experimentar aquilo? Aquilo o quê? Uma chupada? Você enlouqueceu? Por que enlouqueceu?! Não gosta? É muito nojento!… Olho para a rua de onde vim e vejo as duas putas descendo abraçadas e rindo às gargalhadas. Olham pra mim e me sinto um tanto trouxa… Tô duro e leso! Atravesso rápido a avenida e entro ligeiro na praça. Vou falar um pouco de merda com os homens. Tô fodido!”

6 – O Fruto Proibido: “Tinha um boteco perto de minha casa, na vila em que eu morava – o menino dizia – e os homens ficavam o dia quase todo lá. Eles se assentavam em volta das mesas, acendiam cigarros, mandavam colocar bebidas nos copos, se debruçavam sobre cartas de baralho, e iam jogando, bebendo e fumando… É uma infelicidade – minha mãe dizia a respeito daqueles sujeitos que ficavam tanto tempo dentro do boteco… E o filho do tenente com aquele palavreado e aquela bebedeira?! Como um homem pode ser tão à-toa assim, meu Deus? …Eustáquio não falava palavrões. Ao ouvir relatos de casos de homens com mulheres, perguntava: é mesmo!? Ele comeu ela mesmo? E ela dá mesmo sem problemas? É preciso dar dinheiro pra ela? Onde ela mora?… Foi numa tarde escura e triste que a família do barbeiro se mudou para uma casa em frente à nossa. Ventava muito, o pé de amoras lançava folhas retorcidas e gravetos secos e espinhentos pra todos os lados… Era como que o prenúncio de alguma tragédia que estivesse a caminho… Algum tempo depois, a mulher do barbeiro abriu o jogo com minha mãe: meu marido não vale nada! – disse ela – Fica pulando de cidade em cidade, de salão de barbeiro em salão de barbeiro… Minha mãe dava graças a Deus: seu marido era exemplar, correto, trabalhador, nada deixava faltar em casa… Havia chovido bastante na noite em que meu pai chegou bêbado pela primeira vez em casa, após o serviço… Nós vamos passar dificuldades – minha mãe me disse, certa noite, muito preocupada. Por que? – eu perguntei – mas eu já sabia o porque. Seu pai se juntou com o barbeiro e caiu na vida. Tamos ferrados!… Sabe o que o seu pai tá aprontando, rapazinho? Não! Tá comendo todas as mulheres derrubadas da cidade!”… Dona Lulude esteve aqui ontem à noite.  Aquela crente maluca e futriqueira? O que ela veio fazer? Veio ler a Bíblia e dizer algumas orações… Mulher crente mais idiota, porra!  Nem sabe ler a Bíblia direito; tá escrito lá com todas as letras: Deus criou o homem e a mulher e disse: ‛Crescei e multiplicai-vos e enchei todas as terras!’ Tem muita terra vazia no mundo ainda. O lance é metê o piru mesmo!… Saulo veio chegando. Quantos anos teria ele?… Eu fui lá na casa das mulheres ontem!… Quem te levou lá na casa das mulheres? O filho do tenente…  O trem é gostoso, bicho! Depois que você deita em cima da mulher e enfia o peru e ela começa a se mexer, você não quer sair de jeito nenhum. De jeito nenhum mesmo!… Cresce depressa, moço, pra você ir lá também!… Aí a moça me puxou pra junto dela e eu fiquei passando a mão nas pernas dela e… E então, não tá vendo nada? Olhei pro meio das pernas da moça e vi que ela não tava usando calcinha e lá estava! … O rachado vermelho com uma pontinha de carne apontando na parte de cima…  Vou lhe dizer uma coisa moço: meu pauzinho começou a subir!… O que é isso, dona?! Você tá ficando maluca? Ele! O filho do tenente!…  Então foi isso: eu fiquei muito puto! Antes de se mandar, mata a minha curiosidade, garoto: por que você não veio buscar o seu pai aqui no boteco, que é perto, e foi buscar ele lá no meio do mato… E ainda foi quase no começo da noite?… Filho de uma puta! Ele tinha matado a charada!… Ele desconfiou que eu tava a fim de ver o troço, o fruto proibido… Vai direto pra casa, rapazinho, e procede direito!… Minha mãe estava triste e pensativa quando cheguei em casa… Vou me lavar primeiro, mamãe , depois, eu janto e me deito… Eu estava chateado. A mulher tava sem calcinha e sutião e os peitos dela eram morenos e muito bonitos e tinha aquele negócio lá, brilhando no meio das pernas… Se o filho do tenente não tivesse aparecido eu… Eu teria chupado aqueles peitos, eu… O garoto parou de falar e ficou olhando pro chão, o semblante sério. Era muito novo ele ainda.”

7 – Os Pretos:  “Foi a dona de uma escolinha. Loura ela, branquinha, baixinha, gordinha, de óculos. Ia passando de carro, me viu na rua, me chamou, e disse: Sei que você trabalha de pintor.Tenho um serviço de pintura a ser feito. Quer pegar? Quero, sim, dona. Tô a fim de trampar… Conhece um preto que conserta telhados que mora à beira linha? Não, senhora, não conheço, mas, posso perguntar… O marido da senhora é o homem que conserta telhados? É sim… Não vou; definitivamente, não vou!  … de modo que, ao se trabalhar para estas pessoas, nada se ganha. Não vou!… Como foi; conseguiu se encontrar com o homem? Respondo que consegui e lhe conto o que o consertador de telhados falou: que ela era ruim de conta, pagava pouco, além de ser muito exigente e ele não desejava mais trabalhar para ela… Aparentemente, a dona não se toca com as minhas palavras… Então veja se você arranja alguém para fazer este serviço pra mim – mas que não seja preto… Os pretos são muito problemáticos.”

HOMENS TRABALHANDO

(romance)

(ainda não publicado)

                        Era princípio de setembro e eu estava sentado em frente à escrivaninha do encarregado da obra. Ele me perguntou:

                        —- Trabalha de pintor, então?

                        —- Sim! – respondi.

                        —- Há quanto tempo você pinta prédios?

                        —- Três anos.

                        —- Tá sem serviço no momento?

                        —- Sim!

                        —- E espera uma colocação nesta empresa?

                        —- Por isso eu tõ aqui.

                        —- Tem sua carteira profissional?

                        Levantei um pouco a bunda da cadeira, enfiei a mão no bolso traseiro direito da calça, tirei a carteira, a entreguei para o encar­regado, e ele principiou a folheá-la; a princípio depressa, as primeiras pá­ginas, depois, mais devagar, as páginas que registravam entradas e saídas em serviço. Antipático, o cara observou:

                        —- Vê-se que não era muito ligado aos locais de trabalho! –  comentou, com a carteira aberta nas mãos, sem me olhar.

                        —- Normalmente, eram serviços de pouco tempo. Nada de monta.

                        Ele ficou em silêncio olhando para a carteira, depois, per­guntou:

                        —- Mora na cidade desde que nasceu?

                        —- Não; há cinco anos.

                        —- Veio da roça?

                        —- Não; da zona metalúrgica.

                        —- Perto da capital, então?

              —- Isso!

                        Zé Antônio me mostrou os cômodos, determinando o que gostaria que fosse feito: lixação das paredes, uma demão de selador nas paredes, duas demãos de massa corrida, lixação bem feita da massa corrida, de modo que não fosse visto um único risco na superfície li­xada, outra demão de selador, para fixar o pó. Queria também uma demão de tinta a óleo nas janelas e uma de tinta plástica nas paredes. O serviço, então, seria interrompido neste ponto, para que fosse aplicado o sinteco. Eu deveria passar a outro apartamento. Passei a mão sobre algumas paredes para lhes sentir a textura:

                        —- Dá pra você?- ele me perguntou.

                        —- É simples!- respondi.

                        Descemos pelo guincho até ao térreo. O encarregado me mostrou a garagem subterrânea do prédio, enorme, atulhada de tijolos, de sacos de cimento, marcos, portas e montes de areia. A um canto se amontoavam as bicicletas e algumas  motos dos operários.

                        —- Vê aquele monte de tijolos escurecidos ali?

                        —- Sim.

                        —- O pessoal chama aquilo de fogão. É usado pra esquen­tar o almoço dos peões.

                        Fiquei lixando até que o encarregado chegou. Ele ficou de pé durante algum tempo, me olhando, depois, foi até ao banheiro onde o pedreiro assentava azulejos. Em seguida, foi encher o saco do carpin­teiro. Quando voltou da inspeção, eu estava de pé perto da janela, ba­tendo o pó dos cabelos, da cara, da roupa e assoando o nariz. Ele olhou para o relógio, ficou um minuto me encarando com as mãos às costas, depois, subiu pela escada para o andar de cima. Pouco depois, desceu e eu mudava a escada de lugar. Ele tornou a parar me fitando. E disse, tirando uma calculadora do bolso e olhando o relógio:

—- Júlio César, veja bem – apertou a tecla de ligar e digi­tou o número sete – você começou a trabalhar às sete horas, não foi?    

    —- Foi! – respondi.

—- Das sete às oito e meia você trabalhou sem interrupção, certo?                                                    

—- Certo!

—- Quando você interrompeu o serviço e desceu da escada pra olhar as ruas pela janela…

—- Hei! – eu exclamei – nada disso! Eu parei um pouco pra bater o pó que penetra na roupa e no cabelo da gente! Também pra en­xugar o suor que cola a sujeira no corpo!

—- Mas você demorou dez minutos! – ele falou.

—- E daí? Todo mundo faz isso! Sempre se descansa um pouco! 

—- Aqui, não! – ele insistiu.

—- Como não? Este serviço é foda!

               —- JULINHO, VEM CÁ!  

Eu fui. Ele destampou a garrafa de café e me passou, fa­lando:

                        —- Toma aí. Um cafezinho.

                        —- Agora? Eu vou acabar de almoçar primeiro, porra!

                        —-  Não! Toma! Toma!                                                  

                        Para satisfazê-lo, dei uma golada boa. Cruzes! Era pinga e da brava! Se o Puxa-Saco descobrisse, ele estaria perdido! Eu lhe disse e ele me respondeu:

                        —- Discobre não, bobo! Se discubri tamém, foda-se! Este sirviço num vale nada, mesmo! Sirviço fudido assim a gente arruma in quarqué lugar! Arruma à-toa!

                        Gente boa o Esmeraldo!

                        Os homens não trabalhavam sempre juntos. Quando havia um projeto de prédio, o engenheiro da firma construtora arregimentava os operários e os punha para trabalhar. Podia acontecer de eles serem deslocados para outra cidade, a serviço da firma, ou cedidos a outra. Caso ocorresse algum imprevisto, como inadimplência dos comprado­res dos apartamentos, ou mesmo um possível calote dos engenheiros responsáveis, os homens eram imediatamente dispensados e, se não conseguissem outro emprego, passavam a atuar como au­tônomos. A obra parava. Isto fazia com que os operários de obras se conhecessem praticamente todos uns aos outros, embora muitos deles passassem longos tempos, mesmo anos, sem se verem, ainda que mo­rando e trabalhando na mesma cidade.

                        Sexta-feira! Toda sexta-feira a rotina era a mesma: cachaça, zona e, no sábado de manhã, ressaca. Para outros ainda era: cachaça, zona, cadeia, ressaca. E, ainda para outros, era: cachaça, zona, cadeia, ressaca e, seis dias depois, gonorréia.

                             Ivair se levantou. Foi ao balcão:

                             —- Duas pinga! Uma Coca!

O rapaz negro pegou dois copos, chegou-os à torneira do barrilzinho. Pôs sobre o balcão. Abriu a geladeira. Tirou um refrige­rante. Topete pegou um copo, virou na boca. O outro ele levou, junto com a pinga, para Calcanhar de Cebola. A mulher arredou-se mais para beirada do banco e colocou o copo e a garrafa sobre ele. Topete se sentou na outra beirada. Calcanhar de Cebola misturou a Coca com a pinga e começou a beber.

                             Joãozinho Botina estava vermelho. Ele via a mulher gritan­do na sua cara, Topete gesticulando sem parar, como dois seres disfor­mes. A luz amarela parecia escorrer pelas paredes. Sem pensar muito, ele tirou uma garrucha de sob a camisa. Apontou para qualquer lugar e as paredes pareciam balançar e entortar na sua frente e puxou o gatilho. Depois, virou as costas e saiu desabalado, tropeçando, caindo, corren­do. O rapaz desligou o som.

                             Topete ficou um momento surpreso. Depois, gritou:

                            —- AI, MEU DEUS – pondo a mão direita sobre o lado es­querdo do peito, onde começava a brotar uma flor vermelha, de sangue – TÔ MORTO! – completou. E caiu.

Eu e o rapaz do balcão ficamos desnorteados. Algumas pessoas apareceram à porta e eu lhes pedi que arranjassem um carro. O meu cinema acabara! Levamos o Ivair para o hospital. A mulher desa­parecera. O doutor de plantão examinou o ferido. Disse que o caso não era grave. A bala rasgara realmente a carne, donde o sangue, mas não atingira qualquer órgão. O cara ficou na enfermaria. Eu fui sozinho e a pé para casa.

                            Quando Madalena apareceu no meu caminho, eu ia pra casa, bêbado, cansado, dormir sozinho. Depois do serviço, ficara be­bendo até tarde. Seriam já dez horas quando comecei minha trôpega caminhanda. A mulher vinha em minha direção, em sentido inverso e em iguais condições de zonzura. Trocava as pernas, cambaleava, errava o passeio, escorava as mãos nas paredes e grades dos prédios. Reduzi os passos; fiquei observando. 

                             —- Vai cair! – pensei. Mas ela não caiu.

Ao passar por mim, gritei:

                             —- HEI!

Ela parou, cambaleante.

                             —- Você tem cigarros?- perguntei.

Eu não fumava, mas procurava uma brecha de conversa pra ver se conseguia atolar nela o peru.

                             À noite, nos encontramos. Madalena vestia a mesma roupa da noite anterior. Estava sóbria. Daquele jeito, sem zonzura, pude ver que ela era muito mais feia do que eu achara antes. O cabelo era fino, mas pouco, e muito anelado. Seus dentes superiores eram pequenos demais em relação aos de baixo.

                            —- Não vai estudar hoje, não?

                            —- Estudar?! Que idéia é esta?

                            —- Você me falou ontem. História de pós-graduação…

                            —- História mesmo! Não sei o que é livro e nem quero sa­ber! Mal e mal sei ler algumas palavras!

                            Fez silêncio por um instante.

                            —- Vamos onde?

                            —- Sabe dançar?

                            —- Muito pouco.

                            —- Qualquer coisa serve.                                              

                            Tirou a roupa. O corpo eu já conhecia: peitos pequenos, caídos; pernas finas, lisíssimas. Abriu as pernas. Demorei a gozar. Ela também estava sem ânimo. Não correspondeu. Eu falei:

                            —- E a minha proposta?      

                            —- Qual?

                            —- De você dormir aqui com freqüência?

                            —- Até os dias em que eu estiver menstruada?

                            —- Lógico que não! Não quero saber de mulher com a avó atrás do toco me enchendo o saco, não, porra!

                            —- Quero!

                            —- Vou lhe dar uma chave. Sempre que vier, não traga ninguém e nem deixe a Zefa vê-la entrando aqui nem saindo; seja a qualquer hora, entendeu?

                            —- Certo!

                            —- Ao sair, feche a porta!

                            —- Vou fazer café.

                            —- Faça.

                            Outra vez, na cama, de noite:

                            —- Madalena?

                            —- Hein?

                            —- Quando você começou a dar, você tinha quantos anos?

                            —- Não sei, cara! Vá pro inferno!

                            —- Eu quero saber!

                            —- E eu vou me lembrar, bicho? Eu tenho muitos anos de estrada, porra! Só sei que, depois que abri o rabo pela primeira vez, eu saí dando a xoxota pra todo mundo!

                            —- Olhe aqui, durante o tempo que você estiver trepando comigo, não quero saber de bagunça não! Tá falado?

                            —- Por quê?

                            —- É perigoso!

                            —- Como assim?

                            —- E as doenças?

                            —- Que doenças?

                            —- Gonorréia, sífilis, herpes… esses montes todos de merdas que ‘stão aparecendo por aí!

                            —- Tá achando que eu sou alguma galinha, tá? Nunca tive desses troços!

                            —- Pois é!

                            —- É o quê?                                                       

                            —- Ficamos assim: tá com vontade de dar… vem cá! Certo?

                            —- Tá bem! E você?

                            —- Você o quê?

                            —- Vai ficar comendo só a mim também ou vai sair cor­rendo atrás de tudo enquanto é sirigaita que atravessar na sua frente?

                            —- Vou fazer força pra ser fiel!

                            —- Eu também! Enquanto você estiver agüentando, eu fico fiel!

                            —- Mas pára de encher o rabo, porra! Eu gosto de mulher fogosa, que me joga pra cima, me aperta, me faz suar!

                            —- Humm! Logo quem tá falando! Só anda mordebebo essa praga!

                            —- Madalena?

                            —- Humm?

                            —- Vira essa boceta pra cá, amor?

            Havia já algumas semanas que eu trabalhava no prédio quando, um dia, às nove horas, o benedito chamou. Nem todos ouvi­ram. Alguém subiu pelo guincho, entrando em todos os andares, avi­sando, aos gritos:

                            —- REUNIÃO NA GARAGEM! VAI ACONTECER UMA REUNIÃO IMPORTANTE NA GARAGEM! O DOUTOR AMORIM TEM UM RECADO PRO PESSOAL NA GARAGEM! 

                    Descemos rápido pro local. Era a primeira vez que o manda-chuva reunia o pessoal, por isso os operários não esperavam boa coisa.

                    O lugar se encheu de gente. Em cima dos montes de areia, de tijolos, em cima dos caixotes. Havia um forte cheiro de suor e de fumo de má qualidade naquele lugar abafado. Coquinho e o Puxa-Saco estavam de pé no fim da rampa, cochichando. Eles haviam colocado dois caixotes com o fundo virado pra cima, junto à parede dos fundos.

                  De repente, o doutor Amorim chegou. Vinha apressado, com a bundinha arrebitada e a barriga saliente de bebida. A pastinha marron estava debaixo do braço, como sempre. O celular pendurado à cintura roliça. Com ele vinha outro sujeito. Alto, branco, peito estufado, de nariz grande, forte, de cabelos grisalhos. O sujeito dava passadas pausadas, firmes, como um autêntico soldado SS alemão.

                   Todos ficaram em silêncio. Os dois homens subiram cada qual em um caixote. Ficaram olhando, com o peito empinado, os ope­rários de cima pra baixo, por um momento. O acompanhante do dou­tor Amorim cruzara as mãos sobre o saco, exibindo uma bela camisa de mangas compridas e duas reluzentes abotoaduras douradas. Tinha o peito excessivamente estufado, o nariz excessivamente empinado, a tez avermelhada, os dentes trincados! O doutor disse:

                   —- Pessoal, como vocês sabem, daqui a alguns dias tere­mos eleições. Há alguém aqui que não saiba disso? – ninguém respon­deu.

                   —- Pois bem – continuou – há muitos candidatos na cidade. Candidatos a vereadores, candidatos a prefeito!

                   Ele fez uma pausa. Olhou pra todos os pontos da garagem, intimidador, e completou:                                                         

                  —- Para vereador vocês podem votar em quem vocês quise­rem. Mas, para prefeito – ele deu um tapinha nas costas do sujeito que o acompanhava – o meu candidato é este!

                  O doutor disse o nome do candidato e houve um silêncio profundo na garagem! Os operários já tinham ouvido falar (na verdade, tinham aprendido) que o voto era secreto, livre, embora obrigatório, e agora vinha aquele doutor!

                  —-Votem em meu candidato! – continuou – porque ele é do mesmo partido do presidente da república! Se ganhar um prefeito de partido diferente, não haverá verbas para nossa cidade e muitas pessoas perderão o emprego!

                  O cara fez silêncio para criar suspense. Depois, apontando o dedo indicador da mão direita para alguns dos homens, ameaçou:

                   —- Se meu candidato não ganhar, você pode ser manda­do embora, você pode ser mandado embora, você pode ser mandado embora…!  

                     Silêncio.

                            Cruzes! Muita gente podia ser mandada embora!

                  Então, o doutor finalizou;

                     —- Não se esqueçam do que eu estou dizendo: votem em meu candidato… e digam para suas famílias também! E expliquem lá pra elas tudo direitinho! Direitinho!

        Em seguida, os dois desceram dos caixotes, viraram as costas para os operários, tomaram a direção da rampa e desapareceram. O Puxa-Saco e o Coquinho foram atrás.        

                            Os operários ficaram imóveis por um momento, um olhando pra cara do outro. Logo, logo veio o som do benedito sendo acionado. Devagar, nós começamos a subir os andares. Uns pelas es­cadas, outros pelo guincho. Hora de retomar o serviço.

                            Pouco tempo depois de o doutor ter saído com seu candi­dato, o benedito chamou pro almoço. Nós nos amontoamos em si­lêncio na garagem. Coquinho montava guarda no fim da rampa. Após o almoço, quando todos procuravam um lugar para se esticar, Maneco quebrou o silêncio e trouxe à tona o assunto:

                        —- Tem gente qui acha qui nóis é retardado!

                            —- Num reclama, gente! Num reclama! Pelé já disse qui o povo brasileiro num tá preparado pra votá, porra!

                            —- Ora – o Ivair falou – o Pelé é um grande filho da puta!

….     …..     …….     …..

                            —- O serviço nem era meu. Um outro pintor tinha pegado o trampo, feito o orçamento de material e me posto lá. A velha não me queria lá de jeito nenhum. A casa era antiga e eu era muito novo. A muchibenta achou que eu ia fazer cagada na casa dela. Mas o outro pintor insistiu. Eu iria trabalhando, ele trabalharia nas horas vagas e faria a supervisão. A mulher estava morando ao lado, na casa do filho, enquanto a morada dela não ficava pronta. Eu trabalhava num calor infernal e Pedro – o outro pintor – pegava a grana da velha e me dava uma ninharia. E toda hora a velha tava lá me enchendo o saco:

                            —- Que sujeito porco, porra! Sujando o meu chão todo!

                            —- E eu nem tava pintando ainda ! Tava apenas calafetan­do o teto daquela cafua do tempo do onça. Um dia, ao chegar ao servi­ço, Pedro tava lá. Era de manhã e ele costumava ir só à noite dar uma ajudazinha.

                        —- Eu fiquei puto! A velha me enchera o saco, me fizera raiva. E eu lá, de dia, de noite, aos domingos! Ela me chamando de porco, de lerdo, de não sei mais o quê! E agora vinha com palhaçada! Cheguei a boca no ouvido da velha e gritei:

                        —- VELHA FILHA DE UMA PUTA! MUCHIBENTA! PAGUE SEM RECLAMAR QUE EU NÃO QUERO TE VER NA MINHA FRENTE NUNCA MAIS! E VÁ TOMAR NO CU!

                        —- Pedro ficou muito vermelho. A velha ficou pálida. Pas­sou a mão no dinheiro e pagou depressa.

                        Nós saímos.     

                            Quando parei de falar, notei que Coquinho me observava atento, do lado direito, com  a bunda encostada na parede. Não resisti à tentação de provocá-lo. Disse:

                            —- Bom dia, Coquinho!

                            Ele se enervou. Desceu os braços ao longo do corpo, abriu a imensa boca babenta e fuzilou:

                            —- VAI TOMAR NO CU, DISGRAÇADO! FILHO DE UMA PUTA!

                            Os homens tamparam as bocas com as mãos para esconder o riso, virando as caras para o lado. E ele continuou:

                            —- PINGUÇO! VAGABUNDO! OCÊ VAI MORRÊ CEDO! OCÊ VAI VÊ! CACHAÇA VAI TE MATÁ!

O benedito assinalava o fim do almoço e eu subi correndo as escadas. Quando estava no quarto andar, ainda podia ouvir a voz do malu­co praguejando, lá em baixo, na garagem.

                            Toda vez que eu me embriagava na noite anterior, nem tentava disfarçar os sinais da bebedeira, de manhã. Eu não conseguia rir. Não agüentava ficar sem um encosto qualquer e jamais olhava para a frente. Só para o chão. A maior vítima de tudo isso era o trabalho. O rendimento ia a zero. A toda hora eu parava pra descansar e, quando tinha certeza de que o Puxa-Saco não apareceria no meu setor, sentava-me em uma lata de tinta, dobrava os braços sobre os joelhos, deitava a cabeça sobre os braços, e ficava horas a fio sem me mover. Quando era inevitável que fizesse qualquer coisa, eu procurava algum acontecimento bom da minha vida e o ficava relembrando durante o expediente, de modo a não me lembrar da obrigação do dia. Naquela manhã, eu tinha chegado arrasado à obra. Pensei: — Vou ficar me lembrando, até mais não poder, da trepada mais gostosa que já dei até hoje! Ao chegar perto do guincho, Zé Maria perguntou:

                            —- Você bebeu ontem?

                             —- Enchi o rabo!

                            Eu fora à Zona. Havia uma mulher parada, com os braços cruzados, encostada à porta de uma das muitas casas velhas e decadentes da vila. Era baixa, falsa-loura, meio coroa de olhos castanhos meigos. Estrias profundas sobre os lábios. Em volta dos olhos, mil e um pés de galinha. As pelancas já começavam a dar trabalho. Dentes amarelados postiços aparecendo por detrás dos lábios carnudos. Boca toda lambuzada de baton. Brincos de latão ou alu­mínio. Vestido surrado vermelho. Sapatos também vermelhos, esfolados, bicudos, feios.   

              —- Quer dar uma trepada de noite inteira comigo, amorzinho? – perguntei.

              —- Não posso, querido! – ela respondeu, educada – toda terça-feira um cara dorme comigo. Se pudesse eu ia mesmo!

                        —- Pois é, eu tô a fim de uma perereca!

 

                            Quando coloquei o pé na plataforma, senti a mão de alguém em meu ombro direito. Olhei. Era Coquinho.

                            —- Zé Antônio tá chamano ocê lá no iscritório.

                            —- Pra quê?

                            —- Sei lá!

                            Entrei no escritório e me sentei à frente do Puxa-Saco.

                            —- Júlio César?

                            —- Hein?

                            —- O que tá acontecendo aí na obra?

                            —- Hein?

                            —- Essas conversas que estão saindo aí?                                                         

                            —- Sei não.

                            —- Como não sabe?! Eu tô sabendo!

                            —- É? Mas eu não tô!

                            —- E não é só isto, não!

                            —- O que tem mais?

                            Apareceu a mulher. Era baixinha, magra, moreno-clara, risonha. Cara chupada. Estava enrolada num roupão de banho. Os cabelos negros e molhados caindo sobre parte de seu rosto não impediam que se notasse sua feiúra. Trepar com ela não era uma perspectiva das mais animadoras, mas, como estava com fome, decidi-me por ir com ela.

                            —- Você é o cara de quem minha colega falou?

                            —- Eu mesmo!

                            —- Vem comigo!

             —- Que sociedade, cara?

                            —- As pessoas importantes!

                            —- Huumm…!

                            O meu saco já estava arrastando lá no chão. Logo antes do almoço, aquela bosta vinha me encher a paciência! Era dose!

                            —- Zé Antônio – eu disse – tudo que eu faço dentro da obra ou fora dela está dentro da constituição. São atos legais. Além disso, a liberdade de expressão é garantida na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

                            —- Ah, é? Pode até ser, mas o doutor não gosta! E ele não gostará de saber que isto acontece aqui dentro da obra! E o pessoal da cidade, o povo mais antigo, persegue as pessoas que tenham tendências e opiniões contrárias às suas, principalmente políticas!

                            —- Foda-se! Tá escrito na constituição!

                            —- Júlio César, posso lhe contar uma história?

                            —- Real?                                    

                            —- É!

                            —- Não! Não me interessa!

                            —- Mas eu vou contar assim mesmo!

                            —- Oh, saco!

                            —- Apareceu aqui uma vez um rapaz…

                            —- Aqui onde?

                            —- Na cidade. Apareceu aqui e trabalhou aqui e estudou. Ele tinha as mesmas idéias suas.                                                          

                            O que o sujeito sabia de minhas idéias, porra?!

                            —- Estudou na universidade?                                                                                                    

                            —- Isso! E vivia criticando a sociedade: fulano é isso, sicrano é aquilo, beltrano é assim…

                            —- Mas pode! Tá na constituição!

                            —- … criticava o pessoal que ia à reunião do Lions…

                            —- … e a constituição?

                            —- … o pessoal que ia à reunião do Rotary…

                            —- … e a constituição?

                            —- … os doutores…

                            —- … e a constituição?

                            —- … os professores…                                         

                            —- … e a constituição?

             —- Vamos começar? – Gracinha perguntou.

                            —- Vamos. Você por baixo ou por cima, primeiro?          

                            —- Por baixo.

                            Gracinha se deitou de costas e abriu as pernas. A mulher me pegou no meio das coxas. Passava os membros lisos, lisos, entre­laçados em volta de meu tórax, para cima e para baixo. A gente se amava.

                            —- Ai, Júlio César, sua pica é gostosa demais! Ai! – gemia ela, nos meus ouvidos.

                            Nós trocamos beijinhos, de olhos fechados, na penumbra do quarto. Só o abajur estava aceso. Quando eu a pe­netrava, ela firmava a sola dos pés sobre o colchão e levantava o corpo. Trazia a boceta para encontrar o meu pau. Nós ficamos nos socando até que eu a empurrei com força sobre a cama. Ela gozou e gemeu. Me apertou com mais força ainda. Me passou vagarosamente a mão pela nuca. Eu desfaleci em cima dela. Fiquei exausto, com os dois braços estendidos ao longo de sua cabeça. Ficamos, depois, dei­tados em silêncio. Ela fumou um cigarro. Fiquei de barriga pra cima e de olhos fechados. Lá de fora, vinha o barulho do vento soprando as folhas das bananeiras, do farfalhar das folhas das bananeiras, das águas do rio que passava logo atrás da casa se chocando contra as pedras do leito.

                            Após algum tempo de descanso, recomeçamos.

                            Eu disse recomeçamos; na verdade, foi Gracinha quem o fez. Ela ficou de lado na cama. Eu continuei de olhos fechados. Ela, então, começou a me alisar o rosto. Mordiscou-me a ponta do nariz. Foi descendo com as mãos pelo meu peito, enfiou o dedo indicador no meu umbigo. Abri os olhos. Seus peitos estavam na altura de minha boca. Apertei-os com carinho. Mordi-lhes os bicos com os lábios pra não doer. Gracinha continuava me passando a mão. Outra vez, meu pau endureceu. Gracinha o segurou, ficou olhando em silêncio pra ele por um momento, depois, disse:                                

                            —- Hummm, grande!

                            —- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?

                            —- Não! E nem me interessa!

                            —- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!

                            —- O QUÊ? – eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco – é mentira isso!

                            —- É verdade!

                            —- É mentira!

                            —- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!

                            —- Ele trabalhava de quê?

                            —- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!

                            —- Mas isso não existe!                                       

                            —- Como não existe? Aconteceu aqui!

                            —- Como foi o nome dessa punição?

                            —- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!

                            —- Mas num regime democrático isto não existe!

                            —- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!

                            —- Meu Deus! – eu exclamei – e a constituição?

                            —- … entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega… ninguém respondia…

                            —- … e a constituição?

                            —- … entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro… os funcionários o ignoravam completamente!

                            —- … e a constituição?

                            —- … e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças… e não respondi­am!

                            —- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais indepen­dente se fica!

                            O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou: 

                            —- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!

                            Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!   

                            —- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada? —- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?

                            —- Não! E nem me interessa!

                            —- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!

                            —- O QUÊ? – eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco – é mentira isso!

                            —- É verdade!

                            —- É mentira!

                            —- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!

                            —- Ele trabalhava de quê?

                            —- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!

                            —- Mas isso não existe!                                        

                            —- Como não existe? Aconteceu aqui!

                            —- Como foi o nome dessa punição?

                            —- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!

                            —- Mas num regime democrático isto não existe!

                            —- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!

                            —- Meu Deus! – eu exclamei – e a constituição?

                            —- … entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega… ninguém respondia…

                            —- … e a constituição?

                            —- … entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro… os funcionários o ignoravam completamente!

                            —- … e a constituição?

                            —- … e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças… e não respondi­am!

                            —- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais indepen­dente se fica!

                            O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou: 

                            —- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!

                            Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!   

                        —- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada?

                            O Puxa-Saco ficou olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra cara do Puxa-Saco com cara de não-tô-nem-aí.

                            Então, depois de termos ficado alguns minutos nos analisando, eu lhe perguntei:                                                                                            

                            —- Escute, esse sujeito que inventou essa lei especial de isolamento pro rapaz era o prefeito da cidade, você disse?

                            —- ERA! – gritou ele.

                            —- Mas isso é ditadura, moço! O isolamento era um siste­ma usado no comunismo da extinta União Soviética. Os dissidentes, os linguarudos, apodreciam nos campos gelados da Sibéria!

                            (As coisas não apodrecem no gelo, mas, o bobo provavelmente nem sabia disso!)          

                            —- NÃO INTERESSA! ELE ERA O PREFEITO!

                            —- Mas como o pessoal da cidade votou nele?

                            Eu perguntei e fiquei encarando o Puxa-Saco. Ele ficou, durante algum tempo, olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra ele com cara-de-não-tô-nem-aí.

                            —- Como? – insisti.

                        O Puxa-Saco, então, ficou sem graça e virou a cara-de-bosta pro lado da estante encostada na parede à sua direita e não me respondeu. Eu, então, me lembrei da reunião na garagem: a pressão! Era de praxe!

                            Eu nunca mais vi Gracinha. Algum tempo depois, alguém me disse que ela saíra da Zona e se juntara com um velho grã-fino da periferia da cidade. E que ela passara as mãos nos pertences do velho e até o chapéu panamá legítimo que ele usava pra cobrir a careca tinha desaparecido. E que ela xuxara a perereca com tanta fúria no velho que ele entortara o esqueleto pra frente e pro lado e andava com dificuldade, arrastando os pés e trombando pelas paredes e estava com voz de taquara rachada, falando guinchando como um rato quica. E que, mesmo quando estava usando dentadura, a boca muchibenta do velho ficava chupada pra dentro, parecendo um cu de galinha.

                            A mulher acabara com o cara na cama!

 

 

                            Aquele dia amanhecera muito chuvoso. Olhando-se lá de cima, da cobertura do prédio para a rua, quase nada se podia ver por causa da cortina de água. O riacho atrás do prédio tinha transbordado e a água já ameaçava invadir a garagem. Trazer material do almoxarifado para a construção estava difícil: a chuva era intermitente e a lama cobria todo o chão. A plataforma do guincho estava que puro barro e, pra complicar, vários homens haviam faltado.

                            Parecia que o Esmeraldo escolhera logo o pior dia pra chegar ao serviço quase caindo. Os olhos vermelhos como olhos de pomba. A carapinha, mais ouriçada do que nunca. Seu cheiro de suor era penetrante e seu chulé estava deveras incomodando. Provavelmente não dormira à noite. O bafo de cachaça que exalava deixava notar que passara a noite em claro, talvez no jogo de baralho e, indubitavelmente, na pinga. Para testá-lo, eu disse:

                            —- Esmeraldo, traz água lá de baixo pra mim?

                            Esmeraldo tinha a cabeça rachada, o corpo todo mole devido às inúmeras fraturas nos ossos. Os olhos, esbugalhados, quase saltavam das órbitas. As botinas, enormes, não saíram dos pés.

                            O Puxa-Saco veio apavorado. Ficou com raiva pelo acidente. Chamou a ambulância e a polícia. Logo Esmeraldo era levado para o hospital e daí para casa.

                            Após tudo isso, ninguém tinha mais espírito pra trabalhar. O encarregado nos dispensou do resto da tarde e quem quisesse ir ao enterro no outro dia também podia. A obra parou na hora, grande e cinzento esqueleto de ferro e concreto molhado, fincado dentro do dia escuro.

 

                                      Ela despejou a pinga no copo e eu virei. Em seguida, pôs a garrafa  sobre a  mesa de onde a tirara e voltou  para conversar comigo. Nascera ali havia trinta anos. O lugar era triste de ruim. Não tinha nada! Só trabalho na cozinha de algum sitiante e plantar alguma coisa na pequena roça dos pais. A negra era bonita. Os dentes claros. Embora mal vestida, deixava antever uma bunda volumosa e pernas fortes. Os braços eram grossos e a pele lisa, sem pelos. Calçava sandálias de couro.                                                    

                            —- Velórios são muito deprimentes. Há algum lugar onde se possa dar uma volta? – perguntei.

                            —- Vamos à beira do rio?

                            —- Vamos!

                            —- Vamos vestir as roupas! – opinei.

                            —- Espera um pouco! – Maria Helena parou na minha frente, deu-me um abraço apertado. Eu também a abracei. Pegou o meu pau, apertou-o carinhosamente, deu-me um beijo cálido na boca e                                                       

disse:– Gostoso!

                            Ao chegarmos à casa, no terreiro o pessoal, embriagado, nos notou.

                            —- Onde ocês foram? – alguém perguntou, com voz pastosa.

                            —-  Fomos passear! – respondi.

                            —- Tava chuveno lá fora? – o sujeito insistiu, se referindo às nossas roupas e aos nossos cabelos molhados. Todos caíram na gargalhada.

                            Eu tranquei a cara. Fiquei muito sério. Maria Helena entrou na casa. Peguei um copo:     

                            —- Me dá uma pinga aí, porra! – pedi, com raiva, a alguém que estava com uma garrafa na mão. O cara derramou o líquido no copo. Eu bebi.

                            No outro dia, de manhã, nós enterramos o Esmeraldo.                               

                            Depois de ter almoçado, comecei a subir, devagar, as escadas de trás do prédio, pra dar uma cochilada no chão do oitavo andar. Queria ficar livre da zoeira que os homens sempre aprontavam com o jogo de baralho.

                        Lá estava o Fábio olhando, absorto, o riacho correndo lá em baixo. Fábio não trabalhava fixo na obra. Quando havia serviço de bombeiro, ele era contratado de empreitada. Era responsável. Agia como um operário fichado. Chegava às sete horas, fazia o horário de almoço com a gente e saía no horário. A idade já começava a lhe marcar o rosto de rugas e havia pouco cabelo, embranquecendo, em sua cabeça quase completamente careca. Perto dele, nós evitávamos falar de assuntos deprimentes. Fábio chorava à-toa!

                            O rapaz era cioso da língua do povo da cidade, por isso, aos domingos, ele dava o braço à sua bonita namorada e, sempre de manhã, ia à missa na igreja da praça principal. Ficava na primeira fila. Todos o cumprimentavam. Elogiavam a seriedade daquele casamento. A beleza de sua namorada.                                                            

                            Fábio dera a Cleir bonitas roupas, belos sapatos. Pagara-lhe um tratamento de dentes. Ficaram noivos. 

                            Mas Cleir queria mais! E as trepadas? O tesão era muito e o cara não fazia nada, porra! E o fogo da paixão lhe queimando as entranhas! Ela se esfregava no namorado, mordia-lhe os braços, encostava a coxa no meio de suas pernas. Fábio mantinha a fleugma. Por fim, Cleir dizia:

                            —- Amor, eu não agüento mais! Me leva pra cama! Eu não posso esperar!    

                            —- Não – ele respondia – isso é feio! Depois de nosso casamento, sim!

                            —- Não, querido! Agora!

                            Pouco depois, a sogra chegou:

                            —- Fábio, querido, o que aconteceu?                                                            

                            Ele não respondeu. Pegou-a pelo braço, levou-a até o quarto e apontou-lhe, em silêncio, o lençol: nem uma gota de sangue!

                        A sogra o levou para a sala. Sentou-se ao seu lado na poltrona e falou: que isto para ela também fora uma surpresa, que sua menina era por demais quieta dentro de casa; que isto só podia ter sido um  lamentável passo em falso. Mas que ele a perdoasse – o casamento seria o princípio de uma nova vida e que, principalmente, a virgindade não era, nos dias atuais, uma condição essencial para que uma união ocorresse e os casais fossem felizes.

                            Quando alguém lhe indicou um doutor que estava saindo de carro com Cleir, Fábio, numa noite, o esperou até tarde, na garagem do prédio onde ele morava:

                            —- Doutor, o senhor é meu amigo! Larga a minha mulher! Não faz isso comigo, não! Eu morro!

                            Num fim de ano, Cleir fugiu com o doutor. Fábio quase morreu. E quando alguém lhe perguntava:

                            —- Fábio, onde tá sua mulher?

                            Ele respondia:

                            —- Tá dando igual galinha, lá na capital!

                            —- Ieu sô gente boa, cara! Num tem probrema, não! –  ieu só sei qui ieu tanto inchi  o saco qui o tabelião me deu o sirviço. Ieu tratei pra cumeçá no otro dia, mais demorei um poco. Ieu tava numa ressaca danada, porra! Alguns dias dispois, ieu fui pra lá. Só a impregada tava in casa. Ieu cumecei a pintá. O tabelião intrô na hora do armoço e avisô:

                            —- Oia, ieu num quiria nem qui ocê cumeçasse o sirviço. Já atrasô vários dia, num cumpriu o promitido, cumeçô mal!

                            Tirei o pau pra fora do macacão, inchi a lata de mijo! Saí sastifeito! Só qui o tabelião tinha ouvido o baruio e tinha abrido a porta de cima. Ele viu tudo o qui ieu tinha feito! E tinha chamado a pulícia! Quando ieu ia saíno, ainda com o pau na mão, balançano pra secá, a pulícia tava acabano de chegá!

                            —- O qui é qui ocê tá fazeno aí, cidadão?

                            —- Vim dá um recado aqui!

                            O dotor veio chegano:

                            —- Recado? Ieu dispensei esse sujeito de meu sirviço hoje! Ele tá é com arguma treta aqui dibaxo da iscada! Vamo dá uma olhada!

                            Logo, logo o tabelião viu a lata distampada. Tava qui era só ispuma, até in cima!

                            —- Fodeu por que?

                            —- Logo agora, que eu pretendia me aposentá e ficá sussegado ele deu pra chegá drogado e bicudo in casa! Enche o saco!

                            —- Dá um tiro nele, cara!

                            —- E a mãe dexa? Ele tá precisano é de um tiro, mesmo!

                            —- O quer ele faz?

                            —- Tudo de ruim! Xinga palavrão, chuta móveis, portas, reclama de sê pobre! A véia tá um canguiço, coitada! O pior é aquele chero horrive de maconha dentro de casa!

                            —- Dá um jeito de interná-lo, Geremias. É a única saida!   —- Agora, porra? Agora eu quiria qui ele saísse de casa e se arrumasse! Vem ele me inchê o saco!        

                             —- É uma pena!

                            Ficamos bebendo durante mais algum tempo. Geremias ficou bêbado. Eu também.

                            Cheguei ao meu quarto cansado. Meu pensamento era cair na cama de roupa e tudo, mas eu estava de suor, tinta e poeira até na menina dos olhos. Abri a porta. Vi a brasa do cigarro de Manuela brilhando no escuro. Nem acendi a luz. Joguei minha marmita num canto e corrí para o chuveiro. Tomei um banho rápido. Depois, vesti uma cueca, uma camiseta e pulei na cama. Manuela ainda fumava. Fumava apertando o cigarro com força, fechava os olhos e puxava a fumaça, fazendo – shshshshsh.                          

                            —- Que diabo é isso, cara?

                            Ela não respondeu. Continuou puxando e fazendo – shshshshsh – até que o cigarro ficou ínfimo. O cheiro era filho da puta de ruim.

                            —- O que é isso, porra?

                            —- Não enche o saco, cara! Não conhece, não?

                            —- Não! O que é?

                            —- Baseado!

                            —- Maconha?

                            —- É!

                            Ela pegou a calça sobre a cadeira. Tirou o maço de cigarros do bolso. Em seguida, tirou o papel laminado que envolvia os cigarros. Cortou-o, tirando uma fatia razoável. Guardou o resto. Tirou um pequeno embrulho do outro bolso da calça. Dividiu um pouco daquele mato verde-escuro, esturricou-o na palma da mão esquerda, esticou-o sobre a faixa de papel. Enrolou o cigarro e o apertou com muita força. Eu acabei de comer e fiquei olhando. Ela molhou a ponta solta com a pontinha da língua, no sentido longitudinal. Dobrou a extremidade a ser acesa um pouco para trás. Estendeu-me aquilo e disse:

                               —- Põe na boca!

                            Peguei o cigarro. Tomei respiração. Puxei. Uma vez. Engoli a fumaça e segurei. Dei um tempo. Outra vez. Prendi a fumaça. Dei outro tempo. Três vezes. Entreguei o baseado pra ela, que ficou fazendo – shshsh – cortadinho. Deitei a cabeça no travesseiro. Logo, logo eu estava viajando. Mas havia como que uma bola de vento na boca de meu estômago! Um frio estranho me invadia as entranhas! Eu não estava acostumado com aquilo! Minha cabeça estava leve, leve! Minhas pálpebras quase se fecharam por completo! Eu não queria ficar deitado. Levantei-me tateando. Mas eu não queria ficar de pé! Sentei-me na cama. Mas eu não queria ficar sentado!

                        —- Fica quieto, porra! – disse Manuela.

                            —- Júlio César?

                            —- O quê? – respondi de longe, muito longe.

                            —- Você tem dinheiro aí?

                            —- Pra quê?

                            —- Comprar vinho. Em cima do fumo bate legal e limpa a boca. Vinho gelado!

                            —- No bolso da calça.

                            —- Volto já.

                            Não vi Madalena sair nem chegar. Apenas ouvi sua voz me dizendo: — toma; e senti sua mão me estendendo um copo gelado. Eu bebi. Mais um. E outro.

                            Afundei no torpor. Não sei quanto tempo depois, senti a mão da xinxeira pegando o meu pau debaixo do cobertor, por dentro da cueca:

                            Ela sussurrou:

                            —- Júlio César?

                            —- Humm?

                            —- Me come?

                            Não respondi. Pouco depois, outra vez:

                            —- Júlio César?

                            —- Humm?                                                       

                            —- Olha a minha ximbica aqui!

                            Adormeci. Quando o dia começou a clarear, acordei. Madalena estava de calcinha, desacordada. Tirei-lhe a peça:                                                        

                            —- Madalena?

                            —- Humm?

                            —- Acorde!

                            —- Hein? O que foi?

                            —- Cadê?

                            —- Hein?

                            —- O negócio?

                            —- Qual?

                            —- Abra as pernas!

                            —- Pra quê?

                            —- Hein?

                            —- Humm?

                            Eu estava escorrendo suor quando, na parte da manhã, o doutor Amorim me mandou chamar à sua sala.                                                         Logo imaginei que era encheção se saco. Ele nunca conversava à-toa com os operários! Sempre mandava o Puxa-Saco. Desci da escada, lavei o rosto de qualquer maneira e fui. A porta da sala estava aberta, entrei sem pedir licença e me sentei à mesa.

                            O pinguço estava escrevendo qualquer coisa sobre um papel e não levantou a cabeça ao me ver entrar. Quando me sentei, perguntou apenas:

                            —- Alguém o mandou sentar?   

                            —- Não!

                            —- Então, levante-se!

                            Empurrei a cadeira com a bunda e fiquei de pé, com as mãos à cintura.

                            —- Sente-se! – disse-me o idiota, mas continuei de pé.

                            —- Sente-se! Eu estou mandando! – ele insistiu.

                            O doutor continuou:

                            —- Seu tio, homem caridoso, preocupado com os pobres, com os doentes, com os meninos de rua! Ele foi quem me pediu para lhe arrumar serviço, se você em procurasse! O Zé Antônio já estava avisado!

                            O meu titio! Rapidamente ele arrumou carrão, comprou casarão, juntou dinheiro! O cara arrumou até serviço para mim! Olha só!                                                         

                            —- Ele me falou mesmo: arranja serviço para ele, coitado! Ele é meio doido, mas trabalha direitinho!

                            Fiquei calado.

                            —- Não vamos encompridar esta conversa, não! Pense no que estou lhe falando! Pode ir trabalhar!

                            Eu me levantei, sai com o saco arrastando lá no chão, peguei o guincho e voltei para o apartamento.

                            Entrei no décimo-terceiro andar. Capacete estava debruçado sobre o cabo da enxada, absorto, com um cigarro aceso dependurado no canto esquerdo da boca. O suor lhe ensopara completamente a camisa e lhe escorria em grossas gotas testa abaixo.

                            O cara não me viu chegar. Parei para vê-lo puxar a enxada. Ele a pegava na pontinha dos dedos, pela pontinha do cabo, e a atirava do outro lado do monte de areia, que tinha uma poça de água no centro. Quando a puxava para seu lado, ela quase lhe escapulia das mãos. Era necessário misturar a areia com o cimento à água, por isso, o cara ia girando ao redor da masseira e puxando a mistura de areia para dentro d’água, aos poucos. Capacete era muito vagaroso, mesmo displicente.

                            Se num tivesse usano, ele falava:

                            —- Capacete!                                                             

                            —- Porra, um trem quente daquele! Fiquei puto! Vimimbora!

                            O pessoal lhe deu o apelido de Capacete. O cara levou na brincadeira.

                            Então, eu me aproximei e falei:

                            —- Já pensou, Capacete?

                            Ele se ergueu num susto.

                            —- Hein?

                            —- Já pensou, você na praia uma hora desta?

                            —- Num brinca, rapaz!

                            —- Com uma menina gostosa, lisinha?

                            —- Hummm!

                            —- Com os cabelinhos da perereca até saindo dos lados da tanga?              

                            —- Puta qui o pariu!

                            —- Depois, pegar uma cama fofinha, num motel  com quarto de frigobar e ar condicionado?

                            —- Nossa!

                            —- E transar e beber e beijar a tarde inteira?

                            —- E a noite tamém!

                            —- E, de madrugada, ir passear de carro, os dois, no alto da floresta da Tijuca? 

                            —- Ocê tá brincano comigo!                                                           

                            Ele parou de trabalhar por um momento. Deu uma olhada lá embaixo, na rua. Deu uma cuspida no chão, depois, disse:

                            —- Meu negócio é puxá cabo de inxada e bebê pinga, mesmo!

                            Triste Capacete!

                            Eu empurrei, depois, o resto da manhã, me escondendo nos apartamentos.

                            —- Se eu contar mais um história hoje não vai atrapalhar  a digestão, não, gente?

                            —- E o trato do sindicato? 

                            —- Não! Vamos deixar pra depois. O dia em que o Co­quinho sumir, a gente acaba de discutir isso!

                            —- Então, conta logo sua história!

                            —- Foi um serviço que eu fui fazer pro Dany da padaria. O cara era forte e gordo. Rico não sei, mas parecia. Eu tratei com ele de pintar a galeria do prédio onde ele tinha as instalações de comércio e onde morava. A galeria tinha quase oitenta metros de comprimento, dez metros de altura. Minha escada não dava altura. Ele me arranjou um cavalete quadrado de cima abaixo, como um caixote. Eu subia na escada. Da escada, passava pro cavalete. O serviço deveria ser feito com caiação. O cara queria economizar. Primeiro eu lixei a galeria toda. Parede e teto. Depois, comecei a dar a caiação. Tempo frio, a cal entrava entre meus dedos, cortava, ardia como fogo. Quando qualquer pedrinha de cal penetrava na carne era um inferno! O serviço era muito grande e pesado. Arranjei um sujeito pra me ajudar. Ele trabalharia na escada de abrir, da metade da parede para baixo.  

                            —- Dany, eu preciso fazer um vale pra mim e outro pro meu ajudante! O total é tanto!

                            Ele nem ali; nem uma palavra! Ficava olhando para a rua, atendia a um freguês, a outro, e nós lá, parados. Eu gritei:

                            —- DANY, CADÊ NOSSO DINHEIRO? TEMOS PRES­SA!

                            Finalmente, o cara respondeu, com voz quase inaudível:

                            —- Enquanto o mestre de obras não aparecer por aqui pra opinar sobre o serviço, eu não lhes dou um tostão!

                            —- MAS EU NÃO PEGUEI O SERVIÇO NA MÃO DELE! EU TRATEI ESTA MERDA COM VOCÊ!

                            O desgraçado falou:

                            —- Foda – se! O responsável é o mestre de obras!

                            —- MAS O SERVIÇO É SEU!

                            —- É mesmo?! Eu não sabia!

                            —- PORRA!

                            Meu ajudante pegou o tutu dele e se despediu:

                            —- Morro de fome mas não trabalho pra esse filho de uma puta nunca mais!

                            Terminei o serviço dentro de duas semanas. O mestre de obras recebeu o restante para mim.                                                                           

                            A voz da campainha preta!

                            A história do sujeito foi se repetindo até que a sogra apare­ceu no serviço:

                            —- Bom dia.

                            —- ‘Dia.

                            —- Aquele negro taí?

                            —- Qual negro? Tem um monte deles aí!

                            —-  Eu procuro o Tonico, meu genro.

                            —- Ah! Vou dar uma olhada.

                            A gente foi onde ele estava:

                            —- Tonico, sua sogra manda chamá-lo.

                            —- Fala com ela pra ir para puta que a pariu!

                            —- Nun vai lá mesmo, não?                                                       

                            —- Não!

                            —- Ele nun tá. Saiu ou nun veio trabalhar hoje.

                            —- Negro ordinário! Vagabundo!

                            —- Ele apronta em casa?

                            —- Virge! Chega bêbado todo dia! Tem dia que chega todo lambuzado de baton! Quebra aqueles cacarecos fodidos que ganhou no casamento, bate na mulher! Outro dia bateu no sogro, meu marido! Bateu no sogro dele, um velho de setenta anos!

                            —- Passe no escritório, pergunte por ele ao Puxa-Saco!

                            —- A quem?

                            —- Ao encarregado.  

                            A mulher saiu da obra e entrou no escritório. Daí a pouco, saiu vermelha, pisando duro. O Puxa-Saco provavelmente a mandou ir para o inferno.

                            Tonico continuou chegando com raiva mesmo depois de o filho dele ter nascido. Alguém perguntou pra ele:                                                       

                            —- Tonico, você não vive bem com sua mulher. Como você ainda arruma filho?

                            —- E eu vou dormir perto de uma boceta todo dia e deixar aquele trem bão passar de liso? Arrumar pra lá!

                            No primeiro dia de serviço após o Natal, quando todos da família do sogro haviam se reunido para a ceia, Tonico chegou posses­so:

                            Havia algumas pessoas de pé na escada que levava ao an­dar térreo. O prédio da fazenda era muito antigo. Mourões quadrados, de madeira lavrada a machado, constituíam a armação da construção. As paredes, certamente, seriam de pau-a-pique, pintadas de branco. Os mourões e as janelas eram azul escuro. As telhas, velhíssimas, eram puro cinza-escuro lodoso.

                            Zé Maria nos apresentou ao dono da fazenda – “seu” Venâncio – e à sua esposa – dona Francisca. Era um casal já velho, muita muchiba. A mulher era sorridente; o homem, não. Havia uma moça de saia comprida, quando chegamos, os acompanhando. Sumira dentro de casa.                                                        

                            A propriedade era herança dos tetravós, o homem foi nos explicando. A  terra já fora boa. Agora, já não respondia com tanta força ao manejo, por isso as culturas que circundavam o local não pa­reciam tão robustas. Um rapaz que estava junto ao casal era o irmão de Zé Maria – Marquinhos, o noivo. Um otário. Trocou algumas palavras com o resto da turma e o velho nos levou à casa.

                            —- Lolotinha, eu não tô querendo ofendê-la, não, mas, posso lhe fazer uma pergunta?

                            —- Indiscreta?

                            —- É.

                            —- Pode.

                            —- Você pode ficar com raiva.

                            —- Fico não, bobo! Quem viaja para as cidades grandes se acostuma com tudo!

                            Então, eu lhe perguntei:

                            —- Se eu namorar com você, você me dá a perereca antes de casar? Eu quero experimentar a fruta antes, porra!

                            A moça ficou puta! Possessa! Avermelhou a cara, levantou-se de pronto e falou:

                            —- Sujeito sem-vergonha! Descarado! Eu só vou tirar mi­nha roupa na frente do meu marido! Não se pode conversar direito com os homens! Vou falar com papai!

                            Ela saiu andando pelo trilho de onde viéramos, pisando com força, batendo a areia da saia. Fiquei sentado mais um pouco, de­pois, me levantei e segui o mesmo caminho.

                            Lolota ia ficar vestida pelo resto da vida!   

“Festa na roça ai, ai ai qui bão qui é

É no caipira e arrasta pé

Festa na roça é a festa no arraiá

Todo povo dança e pula

Vamo tudo chacoaiá…”

                            Zeferino se ria todo, deliciado vendo aquela balbúrdia no terreiro. Ele entrara no meio do pessoal e jogava o corpo de um lado para o outro. Os pés descalços, com os dedos abertos, pareciam dois leques sujos de barro, jogados no chão. Tinha as calças esfarrapadas arregaçadas até às canelas.                

“Festa na roça é o sanfoneiro

Que vai dançando lá no terreiro

Festa na roça é a festa no arraiá

Todo povo dança e pula

Vamo tudo chacoaiá…”

 

                            Desde quando me mudara para a cidade já perdera a lem­brança da última vez que vira a manhã nascendo na roça. O ar da fa­zenda, que senti ao abrir a porta da cozinha, me fez pensar nisso. Muito longe, no alto das montanhas, as silhuetas das árvores se recortavam contra a cor azul-escuro do céu, que começava a sair do quase preto. A estrela d’alva era tal e qual um enorme farol de luz fria, brilhando com força, enquanto, aqui e ali, estrelas menores pinicavam, aos montes, no céu. À medida que a luz se tornava mais viva, alguém pintava as nu­vens de cores vivas, metálicas, brilhantes: azul, vermelho, marron, amarelo, e o verde-escuro das árvores começava a se destacar. Soprava uma brisa penetrante, cheirando a flores e capim, que arrepiava leve­mente os cabelos dos meus braços.

                            Eu ouvia o canto de centenas de pássaros, que nascia de entre as folhas ainda escurecidas, e os passos do gado que se movimen­tava no curral. Zeferino já se levantara e se preparava para tirar o leite, como fazia todas as manhãs, mesmo sendo domingo.

                            —- Dormiu bem, Zeferino?

                            —- Dimais da conta!

                            —- Eu acho que vou me casar com a filha do chefe e vou ficar morando na fazenda! – disse, de brincadeira – eu tô fodido lá na cidade! 

                            —- Vale a pena, não! Ela é muito magrela, muito feia. Pa­rece meio doida, também!

                            —- Ela nunca namorou aqui?

                            —- Todo homi qui aparece aqui ela leva pra beira do tan­que de pexe, mais num acontece nada, não.

                            —- Por que você sabe?

                            —- Ieu já vigiei. Qué um copo de leite cru?

                            —- Quero.

                            Zeferino amarrou as pernas traseiras de uma vaca, pôs um banquinho a seu lado, sentou-se, puxou as tetas do animal, de onde es­guichou leite quente e espumoso. Encheu um caneco e me estendeu. Engoli aquilo fazendo força para não vomitar.

                             Não gostei nem um pouco.                                                           

                            —- Gostô? – me perguntou o cara.

                            —- É bom demais!                                                     

                            Pela hora do almoço, todo mundo estava de pé. O pessoal fez uma toalete de qualquer maneira, tomou um café com queijo que “seu” Venâncio tinha mandado preparar. O ônibus encostou no terreiro. Nós nos despedimos do pessoal da fazenda. Entramos no veículo e voltamos, estraçalhados, pra cidade. 

                            Impressionante a rapidez com que os operários levantam um prédio do chão! Logo depois de os bate-estacas fazerem as funda­ções, ergue-se o esqueleto da construção. Enchem-se os vãos vazios com tijolos. Faz-se a instalação da fiação elétrica, da rede sanítária — pronto! Começam-se o revestimento de reboco, o assentamento de por­tas e janelas. A colocação de azulejos, de pisos de cerâmica, de tacos.

                            Os donos dos apartamentos, se os tiverem comprado na planta, nesta ocasião começam a aparecer para encher o saco. Suas pre­senças na obra constrangem os operários. Eles são imponentes, impor­tantes! Discutem tudo, colocam defeitos, fazem restrições, mesmo às coisas que não entendem!

                            Fui ficando puto com aquilo! Falei pro professor:                                                        

                            —- Tem pinga aí?

                            —- Não!

                            —- O que tem de álcool?

                            —- Vodca.

                            —- Quero uma dose!  

                            —- Tá fechada.

                            —- Abre! O senhor vai ter de abrir pra beber de qualquer maneira, porra!            

                            —- Minha casa não é botequim, não!

                            —- Quero uma dose!

                            Juntei minhas ferramentas, passei a mão no meu cheque, peguei meus trecos e saí andando. Quando virei a primeira esquina, enfiei o dedo na garganta e vomitei a comida com a vodca e tudo. An­tes que eu andasse quinhentos metros, o servente chegou esbaforido atrás de mim.

                            —- O que o professor falou com você?

                            —- Nada! Eu tava com a cara muito ruim. Ele nem se atre­veu a me pedir pra ajudar ele. Só acertô comigo.

                            —- E o resto do piso?

                            —- O cara faz sozinho! Quando eu tava saindo, ele já tava com a inxada na mão ispaiano a massa!

                            —- Você não contou nenhuma história até hoje, Zizinho! – eu falei para o pedreiro do nono.

                            —- Num gosto disso, não!

                            —- Mas você tem alguma história?

                            —- Tenho mais num vô falá não! Dispois o povo fica per­siguino a gente!

                            —- Ninguém vai ficar sabendo de nada, não, cara! Pode falar!

                            —- E se o povo da cidade pará de me dá sirviço, falano qui ieu sô linguarudo?

                            —- O Antenor deve de tá com problema.

                            —- Pur que?

                            —- Tem um rapaiz chamano na porta, ieu falei com ele treis veiz e ele nem ligô!

                            —- Problema não! Ocê chamô ele de dotor?

                            —- Ieu não!

                            —- Pois é! Num falano “dotor” Angenor ele num atende de jeito ninhum!

                            —- Brinca não!

                            —- Ixperimenta! Vai lá otra veiz!

                            Ieu cheguei na porta. Falei: —  Dotô Antenor?

                            O sujeito abaxô na hora o jornal.

                            —- O QUI FOI, PORRA?

                            —- Tem um rapaiz chamano o sinhô lá na porta.

                            —- CARALHO! – ele gritô – A GENTE NEM PODE LÊ UM JORNAL SUSSEGADO! – e levantô pra atendê. Ieu vortei na impregada e preguntei:

                            —- Pur que isso?

                            —- Ele é bobo assim mesmo! Trabáia num lugar qui tem muito dotor de meia tijela, intão, ele comprô  um diploma fajuto numa faculdade da roça e fica com bestera!

                            Eu achava que tinha feito uma boa coisa por ter me envol­vido com Madalena. Havia já três meses que ela dormia comigo quase todo dia. Eu, havia muito, não saía de casa para correr atrás de mulher. Saía do serviço, passava no Josias, tomava umas, batia um papo e ia pra casa.

                            Quando Madalena já tinha chegado, a gente tomava banho junto. Se não, eu jantava alguma coisa na Zefa e me deitava. Mais tarde, ela certamente chegaria. Às vezes, nós saíamos, no fim de sema­na, para beber e dançar.

                            Se nós tomávamos banho, íamos, depois, pelados pra cama. Eu me sentava sobre a cama improvisada, com as costas apoia­das na parede, e com o pau bem duro. Ela enfiava a perereca bem de­vagar no meu zezé, passava as pernas pelas minhas costas, e deitava a cabeça no meu ombro. Eu ficava secando os ombros dela, os peitinhos caídos, a boca, as bochechas, com beijinhos, no escuro. Às vezes, eu lhe perguntava:

                            —- Madalena?

                            —- Hein?

                            —- Você me ama?

                            E ela não me respondia.

                            —- E o nível?

                            —- Que nível?

                            —- Professor tá num nível diferente! Quando vai ixplicar alguma coisa pruns ninguém como tem aqui, tem qui ficá num lugar mais alto!

                            —- Professor é o cu da mãe!

                            —- Traz um caixote lá pra ele, Chico, traz um caixote!

                            Chico atravessou correndo a garagem. Parecia ir fazer al­guma coisa muito importante. Ele trouxe um caixote. Pôs no meio da garagem, com o fundo virado para cima.

                            —- EU NÃO VOU SUBIR NESTA MERDA, NÃO, PORRA!-gritei com o Zé Maria-EU SÓ TÔ FALANDO UMA COISA QUE EU QUERIA QUE VOCÊS ENTENDESSEM!

                            —- SO-BE! SO-BE! SO-BE! – os homens gritavam, com voz uníssona, batendo palmas.

                            —- Peraí, peraí…! – eu exclamei – o pessoal do Lions tem um lema que diz….

                            —- Lema? O que qui é isso?

                            —- É uma espécie de qualidade.. Por exemplo, quando di­zemos que o lema dos escoteiros é “Sempre Alerta!”, é uma espécie de marca registrada deles, entenderam? Toda hora que você vê um esco­teiro, você se lembra do lema!

                            —- É um dizer, então, você quer dizer?

                            —- É! É isso mesmo! Então, o dizer do Lions é o seguinte: “Dar as mãos para servir”. Servir quer dizer o seguinte: o sujeito pobre tá passando fome; então, alguém fala com os leões e as domadoras e eles arranjam uma cesta e põe feijão, macarrão, óleo, farinha e dão pro cara. Se o cara é aleijado,  anda  rastejando, o  Lions arruma cadeira de  rodas, muletas, essas coisas. Se o cara está com câncer, leproso, eles dão um jeito de arrumar remédios. Entenderam?

                            —- Isso é muito bonito! – Tizeca falou.

                            —- Demais da conta! – eu exclamei – mas tem o seguinte: eles se dão as mãos e formam uma espécie de cerca. Cada leão, cada domadora, é uma estaca da cerca. Primeiro, entra quem eles querem; segundo, eles passam a viver como uma família. Entenderam?

                            —- E, pra finalizar – eu continuei – como esse pessoal tem o hábito de tomar conta da vida dos outros, depois de toda reunião eles – os leões e as domadoras – enchem o rabo e danam a falar dos outros: — fulano é viado, sicrano é maconheiro, beltrano é vagabundo! Entende­ram? Ou, então: fulano é um fodido; sicrano é um coitado; beltrano é revoltado! Coisas desse tipo!

                                     Parei de falar. Fiquei em silêncio olhando para os operá­rios. Sentei-me no caixote. Então, Zefino perguntou ao Capacete, que era maluco para ser doutor:

                            —- Doutor Capacete, o senhor quer ir à reunião da cerca comigo?

                            Ao que Capacete, sério, declinando, respondeu:

                            —- Ieu não! Ieu num sô da sociebunda, não!

                            Alguém riu. Outro alguém perguntou:

                            —- E o Rotary, pô-fessô, o que é?

                            —- Professor é o cu da mãe e o Rotary é pior ainda! – eu respondi – O Rotary é o seguinte:

                            Meio-dia!

                            O benedito chamou.            

                            Levantei-me do caixote.

                            Quando o pessoal pegou o Inhate batendo punheta no meio das bananeiras que havia atrás do prédio, na beira do riacho, todo mundo ficou sabendo e todo mundo riu. O fato foi escondido do Co­quinho e – lógico!- do Puxa-saco, senão ele o entregaria para o patrão que, sem dúvida, o mandaria embora! O dia, porém, em que ele caiu com a cara no meio da mas­seira, viu-se que o problema era sério. O Puxa-saco chamou uma am­bulância, levaram-no para o hospital. Depois que ele voltou a si, o médico o consultou. Inhate lhe contou alguma coisa de sua vida: seus pais tinham morado na roça, onde tinham possuido um sítio, durante quase toda a vida.

                        Quando sua mãe começou a notar que, às vezes, ele acor­dava, de manhã, com a cueca e a cama todas ensopadas de porra, ela mandou o pai lhe dizer que aquilo acontecia com rapazes virtuosos. Que Deus mandava para o céu todos os homens que só iam para a cama com mulher depois do casamento. Que, quando estivesse com te­são – de pau duro – desse um mergulho no rio ou tomasse um banho de água fria.

                            —- Bão! – disse o cara – aí, ieu cumecei a batê punheta. Tem muito tempo já. Mais de vinte anos! E ieu faço isso toda hora, inté hoje!

                            —- Quantas vezes ao dia?

                            —- Tem dias qui ieu bato umas dez! Fico com a cabeça inté rodano. Fico zonzo!

                            —- Bateu quantas ontem?

                            —- Onti? Bati dez!

                        —- Pode parar com isso, rapaz! – o doutor lhe disse – Isso é conversa fiada! Arranje uma mulher, trepe bastante! Perereca faz bem e engorda !

                        A maior casa da zona era a mais fodida. E a mais alegre. A entrada do salão de baile era uma porta pequena, onde era colocada uma cancela nos fins de semana. A dona tomava conta. Quem pagava, entrava. Caso contrá­rio, não.

                        As mulheres se sentavam nas cadeiras com as calcinhas à mostra para que os fregueses vissem as coxas, as bundas, e os cabelos das pererecas. Alguns homens sem dinheiro costumavam ir em dias de semana, quando não se cobrava entrada, para ver o material e buscar inspiração para castigar uma punheta em casa depois. Os meninos da rua costumavam chegar o nariz na porta para ver se conseguiam vis­lumbrar pelo menos o rastro da boca da encrenca. As mulheres não podiam trepar de graça. A dona da casa e dos quartos que havia nos fundos do salão lhes cobrava a comida e o aluguel.

                            Comecei a sentir falta de Madalena. Já me acostumara a me enroscar com ela. A beber com ela. A dançar com ela na cabaninha. Mesmo assim, fui ficando. Pouco depois, Duiúl voltou.  Eu e ele nos embriagamos. Cantamos e gritamos, pagando bebidas e tira-gostos para as mulheres. Em seguida, subimos ao palco. Ele pegou a bateria. Começou a usar as baquetas. Eu cantava:

“Ê, ê, baiana

Ê, ê, ê baiana, bahianinha…”

 

                            Às vezes, o pau do cara escapulia da xoxota da moça e nós podíamos ver a cabeça da cassiana, molhada, vermelha, enfezada, até brilhando sob o reflexo da luz azulada, metálica, das lâmpadas de mercúrio.

                            —- Rapaz é o Ladico! – Duiúl cochichou.

                            —- É ele mesmo! – concordei, surpreso.

                            Era o Ladico perdendo a virgindade. A mulher rebolava e se mexia, acompanhando os movimentos do corpo do cara, quando ele se  afastava para dar mais uma estocada. Ele vinha com fúria, firmando com força a sola da botina no chão coberto de pedras britadas e seus pés deslisavam, e o solado do calçado fazia muito barulho.

                            Então, a mulher afastava o corpo, passando-lhe as mãos nas costas, na nuca.                                                          

                            De repente, Ladico teve um orgasmo:

                            —- Ai, ai,  vai sê boa assim mais longe, trem! – gemeu ele, ao mesmo tempo em que não suportava o fraqueza momentânea das pernas. Suas mãos deslizaram pelo corpo da mulher, seus pés escorre­garam nas pedras de brita e ele caiu ajoelhado aos seus pés. Enquanto isso, a mulher puxava rapidamente as calças e a calcinha pelas pernas acima.

                            —- A mulher é Madalena! – eu sussurei.

                            —- É ela mesmo! – Duiúl confirmou.

                            —- Nós tão fodidos! – ele exclamou.

                            —- … e ele é membro do Rotary, também, porque ele é empresário. O Rotary é formado de empresários e homens de negócios. Fazendeiros, comerciantes, gente da alta sociedade. Homens e mulhe­res!                                                        

                            —- E tem mais ainda – eu continuei – por exemplo, vamos supor que haja um emprego bom na cidade. Ou, então, alguém vai abrir uma fábrica. Então, o pessoal da cerca e da roda conversa com ele. Se ele obedecer às regras da sociedade, tudo bem e…

                            —- socieceta…!

                            —- Isso é mais difice! – Catocha falou.

                            —- Não é não! – eu disse – por exemplo – desci do caixote e escrevi um zero na parede, com um pedaço de tijolo – se eu escrever isto aqui, que número é, Catocha?

                            —- Hein?

                            —- Como é o nome deste número?

                            —- Isso num é um número, não, porra! Isso é um zero!

                            —- E se eu fizer isso aqui – escrevi mais um zero debaixo do já escrito, formando um oito – como é que fica?

                            —- Hein?

                            —- Que número é este?

                            —- Isso aí é um número?

                            —- É!

                            —- Sabia não!

                            —- Como é o nome dele?

                            —- Hein?

                            —- Como se chama isso aqui?

                            —- Hein?

                            Joguei o pedaço de tijolo no chão e, desanimado, me sentei na beirada do caixote. Estava cansado de falar. Os homens ficaram muito tempo fazendo graça. Burrico, que era muito preto e media ape­nas um metro e meio, disse:

 

                            Cheguei ao oitavo. Encostei-me ao peitoril da janela lateral da sala. Fiquei olhando lá em baixo. Os carros passavam pequenos. Não sei quanto tempo fiquei ali, olhando. Vim a mim com a voz do Puxa-Saco; ele tinha chegado sem fazer barulho. Trazia o Coquinho a tira-colo: 

                            —- O que foi? – perguntou.

                            —- Dor de barriga.

                            —- Cachaça demais mata, cara!

                            Não respondi.

                            —- Ou então são esses antibióticos que você anda tomando pra gonorréia. Parece que seu pau foi achado na lata de lixo!

                            Fiquei calado.

                            —- Só anda pingando, essa praga!

                            —- Não vou trabalhar o resto do dia, não! – falei.

                            —-Vai perder o sábado!

                            —- Foda-se! Pode cortar até a semana!

                            Peguei minha marmita. Desci as escadas.

                            —- Júlio César?

                            —- O que foi, porra?

                            —- Zé Antônio tá te chamando no escritório!

                            —- Outra vez, cara?

                            —- É!

                            —- O que ele quer comigo?

                            —- Sei lá!

                            Entrei no escritório. Sentei-me na frente do Puxa-Saco.

                            —- Você é foda, hein, cara?

                            —- O que foi desta vez?

                            —- O doutor já me encheu o saco outra vez!

                            —- Por minha causa?

                            —- É lógico que é!

                            —- Você já reparou que nas estradas costumam haver pla­cas dizendo “HOMENS NA PISTA”, ou “HOMENS TRABALHAN­DO”, junto a canteiros de obras de reparos das companhias que conser­tam as estradas?

                            —- Já.

                            —- Pois isso é o que vocês são! Homens na pista! A dife­rença de vocês, de obras, para o pessoal da estrada, é que os carros desviam deles para que eles possam consertar as barreiras, os buracos do asfalto e, com vocês, tudo é diferente. Todo  mundo passa em cima!

                            —- Exatamente! Mas onde ela está? No fórum, nas prefeitu­ras, na política! Nos clubes de serviço! Esse povo vagabundo tem suas razões irremovíveis para fazer o que lhe dá na cabeça! Pense bem: tem lógica o doutor reunir os operários na garagem e pressionar os caras a votar em seu candidato, se o voto é a única arma de que o povo dispõe pra modificar esta merda de situação?

                            —-  Ora! – exclamou o filho de uma puta – não reclama! O Pelé já disse que o povo não tá preparado pra votar, porra!

                            —- Você também, cara? O Pelé é uma besta!

                            O Puxa-Saco passou vagarosamente a mão esquerda pelo cabelo enroscado (cabelo de saco) que tinha sobre a cabeça, ficou em silêncio por uns segundos, depois, disse:

                            —- Júlio César?

                            —- Sim, senhor!

                            —- Você foi avisado que sua situação na obra tava ruim!

                            —- Fui.

                            —- O doutor te acha ruim de serviço.         

                            —- Eu nem sabia!

                            —- E eu o acho atrevido!

                            —- Não me interessa.

                            —- Nós o achamos um saco!

                            —- Hummm!

                            —- E, além disso….

                            —- Espera aí, – eu o interrompi – você tá fazendo estes ro­deios pra me dizer o que, afinal?

                        Fiquei apenas por um momento parado na garagem. De­pois, peguei minha marmita sobre o fogão de tijolos, subi alguns de­graus na escada do fundo do prédio e a atirei lá em baixo, no riacho, no meio das bananeiras. Dei uma ajuntada em minhas ferramentas, colo­quei num canto da garagem, e saí para a rua. Sentei-me em um banco da praça.

                            Acordei morto de fome. Não havia um grão de arroz se­quer em meu quarto. E eu não queria buscar na Zefa. Tomei um banho rápido, escovei meus dentes, vesti uma roupa melhor. Quando cheguei ao boteco do Josias, ainda havia pouca gente. Sentei-me encostado ao balcão.

                            —- Vai uma? – ele perguntou.

                            —- Quero meia de pinga!

                            —- Meia!? Vai suicidar hoje?

                            —- Não enche o saco, porra!

                            O cara me trouxe a meia de pinga.

                            —- Quero um monte de torresmos!

                            Ele trouxe.

                            —- Tem alguém no reservado?

                            —- Não!

                            —- Vou pra lá!

                            Ao acordar, ouvia cantares distantes de galos. Primeiro um; depois, outro; e mais outro. Muitos. E cantos de pardais entre as árvores de oitis. As árvores choravam gotas de orvalho so­bre mim. Minha boca tinha um gosto ruim. Minha cabeça doía. Eu es­tava triste e de ressaca. Fiquei algum tempo sentado, com a cabeça en­fiada entre os joelhos. Levantei-me cambaleando e taciturno. Fui pra casa. Era noite fechada ainda!

                        Cheguei à casa. Meti a chave na porta do meu quarto. En­contrei Madalena deitada nua, de bunda pra cima. Estava desacordada de bêbada. Pensei: — “ Vou enfiar o ferro no rabo desta vagabunda pra ela deixar de me fazer de chifrudo! – mas estava estremunhado. Acertei o despertador para o começo da manhã. Enxuguei o orvalho do corpo e me deitei. Logo, logo, aquecido, adormeci”.

                            —- Júlio César, eu dou mesmo! Dei e dou! Enquanto eu for nova, tomo cantada, ganho bebidas, ganho presentes. E se eu tomar cantadas, é mole pra minha perereca funcionar! Daqui a algum tempo, quem vai me querer?

                            —- O negócio é assim?

                        —- Você sabe disso! Se você não chegasse aqui esbodega­do de trabalhar, você não me traria pra dormir com você! Se você tives­se dinheiro suficiente, ao menos olharia pra mim? Não! Se você pudes­se ao menos pagar uma mulher gostosa, bonita e culta, você não gasta­ria seu tempo comigo! Como você não passa de um pé-rapado…

                           Saí pro terreiro. Lavei o rosto. Depois, tentei tomar café. Não desceu. Saí para a rua. A claridade me incomodava os olhos. Sen­tei-me na beirada da calçada, mal, com a cabeça enfiada entre as mãos. A dor de cabeça persistia. Não sei quantos minutos fiquei ali. Depois, levantei-me. Dirigi-me à obra, para dar uma palavra com o pessoal. Precisava, também, pegar minha bolsa de ferramentas no almoxarifado

                            Os homens estavam todos sentados, um ao lado do outro, no meio-fio. Cheguei cumprimentando:

                            —- ‘Dia, Capivara.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Ladico.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Zefino.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Zé Luiz.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Quimba.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Zé Maria.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Periquito.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Juca.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, De Noite.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Chico Sanfona.

                            —- ‘Dia.

                            —- ‘Dia, Capacete.

                            —- ‘Dia.

                            Era muita gente! Ou, como preferia o Puxa-Saco, estava cheio de ninguém ali!

                            Eu demorei a observar que, embora estivesse quase na hora do almoço, todos os homens estavam sentados, sem trabalhar, até àquela hora. Em condições normais, eles já estariam sujos, suados, fe­dorentos.

                            —- Por que vocês não estão trabalhando?

                            —- Sabe ainda, não?                                                    

                            —- Não!

                            —- Foi o patrão!

                            —- O que aconteceu?

                            —- Morreu!

                            —- O quê!?

                            —- É!

                            —- Onde?!

                            —- Lá na capital!

                            —- Nossa!

                            —- Morreu na fila de banco!

                            —- De quê?

                            —- Do coração!

                            —- E a obra?

                            —- A obra, pára!

Eu fiquei parado, calado, olhando para o prédio, com as mãos nos bolsos das calças. Os homens continuaram sentados, em si­lêncio, esperando não sei o quê. A manhã era muito clara, a luz reverberava na superfície das coisas. Parecia que alguém pendurara um grande pote de ouro, cheio de raios, luminoso, lá no alto, no céu.

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